segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Memórias em vinil (36)




A banda sonora original de "Un homme et une femme"  teve  sucesso idêntico ao filme realizado por Claude Lelouch. Protagonizado por Anouk Aimée e Jean Louis Trintignant  venceu o Óscar para melhor filme estrangeiro em 1966. 
Os mais jovens talvez o achem piegas, mas continuo a considerá-lo um filme intemporal. 
Quanto ao tema, tive de recorrer à Wikipédia, pois já não me recordava quem o tinha composto. Foi o francês Francis Lai, responsável pelas bandas sonoras de alguns bons filmes franceses da década de 60, como "Viver para Viver" ou " O Passageiro da Chuva". 
Curiosamente, seria Love Story a justificar a atribuição de um Óscar da Academia, em 1970, a Francis Lai.
Trago este tema aqui esta noite, como forma de homenagear a história de amor entre Mário Soares e Maria Barroso.
Boa noite!

Bem aventurados os pobres de espírito..




Tenho lido nas redes sociais "desabafos" sobre a morte de Mário Soares que me deixam descoroçoado e triste. Quer pelo ódio que revelam, quer pela agressividade, quer pela sua proveniência. A maioria deles são escritos por retornados/as ressabiados e ignorantes.
Devo dizer que compreendo muito bem a dor e a revolta de quem se viu despojado, de um momento para o outro, de tudo o que construiu ao longo  de uma vida. Ou de quem perdeu as suas raízes e referências, sendo obrigado a (re) construir a sua vida num meio que muitas vezes lhe era hostil.
Não compreendo é que essas pessoas ressabiadas e prenhas de ódio, despejem a sua ira sobre Mário Soares, como se ele fosse o culpado da descolonização. 
Como é possível que, 40 ano depois, ainda haja gente que não perceba que depois do falhanço do plano Spínola, da falta de coragem de Marcelo Caetano, da morte de muitos jovens enviados para África como carne para canhão e do isolamento a que estávamos votados a nível mundial, por continuarmos renitentes a acabar com o  colonialismo, a única solução era aquela?
Mas, mesmo admitindo que haveria outra solução, não terão essas pessoas percebido que, no ponto em que as coisas estavam, o mais provável teria sido haver uma chacina que vitimaria muitos daqueles que conseguiram reconstruir as suas vidas em Portugal e, felizmente, continuam vivos?
E não conseguem, por um minuto, distanciar-se dos seus egos e perceber que foi Mário Soares quem conseguiu evitar uma guerra civil em Portugal depois do 25 de Abril?
Lamento o comportamento acéfalo, imbecil e carregado de ódio de alguns escritos. Revelam muita ignorância.  Não peço a essas pessoas carregadas de ódio, para manifestarem a sua gratidão a Mário Soares, se curvarem perante o maior e mais genuíno português, que amava o seu país e a ele "deu" quase toda a sua vida, sem necessitar de usar pins na lapela.Seria pedir o impossível, pois há gente que não é capaz de ver a dimensão de um estadista, mesmo tendo estado na Fonte Luminosa a pedir-lhe que os "livrasse dos comunistas".
São gente pequenina,reles, ingrata e ignorante. Gostava, apenas, que essas pessoas fossem capazes de ver a realidade, e não se deixassem cegar pelo ódio. E nem é pedir muito. É só pedir-lhes que reconheçam isto

A geringonça e a Avestruz




O governo que muitos alvitravam não durar mais do que uns meses, fez aprovar o segundo OE na AR, deixando muita gente ( mesmo dentro do PS)  desiludida. 
Em 2016 foram revertidas quase todas as medidas que asfixiavam as famílias, diminuiu o desemprego, reduziu-se o défice e a dívida.  Digamos que o governo cumpriu um pouco mais do que os serviços mínimos. Isso não significa, no entanto, que a geringonça esteja estável. Aliás, se assim fosse, não poderia ser geringonça…
Não vale a pena fazer como a avestruz e fingir que não se  adivinham dias difíceis e problemas complicados para António Costa, para a geringonça e para o país. Independentemente dos reflexos internos  do que possa acontecer a nível externo, há dificuldades que os partidos de esquerda colocarão ao governo e poderão pôr em risco a geringonça.
Devolvidos os salários e as pensões, PCP e BE irão aumentar (e bem…) a pressão para a tomada de medidas de combate às desigualdades. Não tenho dúvidas de que essa também é uma prioridade do governo, resta saber até onde pode ir, sem colocar em causa o crescimento e a confiança externa. É preciso ter os pés bem assentes no chão e não esquecer que os juros da dívida continuam a subir perigosamente e a única agência de “rating” que garante a manutenção de nível acima de lixo (DRBS)  poderá deixar de manifestar esse apoio se as taxas de juro ultrapassarem os 4%. 
A pressão sobre os juros da dívida vem de demasiados lados, pelo que menosprezar esse factor pode significar, a prazo, o fim da geringonça.
Se é certo que a dívida, sendo impagável, tem de ser renegociada, não é menos verdade que este deverá ser o ano pior para o fazer.  Compreendo bem a justeza da campanha que o PCP vai lançar em Março, mas aceito menos bem uma velada ameaça dos sindicatos de regressarem à rua, se as suas reivindicações ( nomeadamente em áreas sensíveis como a educação e a saúde) não forem aceites pelo governo. 
Mas se à esquerda os receios de uma avaria irreparável na geringonça são vistos com muita apreensão, à direita rejubila-se com a hipótese de essa avaria ocorrer. Pouco interessa à direita se a pedra que afetar  a engrenagem da geringonça é de proveniência interna ou externa. A única coisa que interessa aos mafiosos, digo, pafiosos, é  regressar ao poder e para isso é essencial que o motor da  geringonça gripe. Depois, ancorados na máxima “ nós tínhamos avisado” tomarão medidas de extrema dureza que afectarão irremediavelmente  as classes trabalhadoras. Seria bom que partidos de esquerda e sindicatos pensassem bem nas consequências de elevar demasiado alto a fasquia das reivindicações. Mesmo sendo justas, têm de ser realistas, pois não é possível reverter em dois anos, a destruição provocada pelo anterior governo PSD/CDS durante os 5 anos em que andou de rédea solta e contou com o entusiasmado apoio de Cavaco Silva.
Será fundamental à esquerda não perder o discernimento e, com os pés bem assentes no chão, reflectir sobre os passos que podem ser dados sem colocar em risco o crescimento da economia.  Destruir a geringonça é escancarar a porta à direita, com as nefastas consequências para os mais desfavorecidos que já se conhecem.  KEEP CALM, PLEASE!