quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Memórias em vinil (34)






Apesar de nos prometerem dias límpidos para o fim de semana, não se pode propriamente dizer  que teremos um Summer in the City, mas é um bom pretexto para recordar os americanos  Lovin Spoonful que marcaram o Verão  de 1968






Sim, eu também já tive 15 anos

E felizmente tive uma educação austera que me foi muito útil quando aos 18 vim para Lisboa e comecei a viver sozinho.
Se teria  gostado de  passar noites ao relento para ver a Françoise Hardy? Não, não teria. Já faltar dois ou três dias às aulas para a ver, como fazem os putos de hoje aos 13 ou 14 anos, com a concordância dos pais, não teria desdenhado.
Só que quando eu era puto chumbava-se por faltas, os meus pais nunca me deixariam faltar às aulas para ver um concerto e aplicar-me-iam um correctivo se eu faltasse. E quanto a dormir ao relento, nem sequer era hipótese a considerar. A primeira vez que o fiz foi no festival de Vilar de Mouros, já era quase adulto (naquele tempo não havia jovens de 35 anos).
Sim, eu também já tive 15 anos. E fumei haxixe. Uma vez ou duas, até algo mais forte. Felizmente, aos 15 anos, tinha pai e mãe e revoltei-me muitas vezes contra eles por não me deixarem ir a uma festa, por me obrigarem a estar todos os dias à mesa às 8 horas para jantar, por me obrigarem a deitar às horas  que me impunham ( apesar de eu ir para a cama ouvir às escondidas a 23ª hora, num minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar) e a comer aquilo que havia no prato e não o que eu desejava - que naquela idade era só bifes.
Sim, eu já tive 15 anos. Tinha uns pais austeros que me mantinham a rédea curta, aos quais eu agradeço terem tido a coragem de me dizer muitas vezes não. Foi assim que aprendi a responsabilizar-me e a perceber que a vida não é feita de exigências e chantagens na mira de obter o consentimento dos pais para a satisfação dos desejos mais descabelados.   
Sim, já tive 15 anos. E se tivesse hoje um  filho com essa idade dar-lhe-ia a mesma educação que os meus pais me deram. Se quisesse ir ver o Justin Bieber, deixava-o ir, mas de certeza que não o deixaria  dormir ao relento, nem faltar às aulas.  Sabem porquê? Precisamente porque já tive 15 anos e não me importo absolutamente nada que me chamem bota de elástico.
Isso até é  uma G'anda cena, meu!

António Costa e a estratégia da dívida

Ninguém duvida que a dívida portuguesa é impagável e tem de ser negociada. Nem os meliantes da direita têm dúvidas disso. Não têm é coragem de o assumir.
A estratégia de BE e PCP, de querer impor à Europa que se sente à mesa para negociar não me parece, todavia, a mais adequada. Enfrentar a Europa, num momento em que ela está ferida porque tudo corre mal e todos sabem de quem é a culpa, não é a melhor solução. O resultado pode ser idêntico ao do Syriza.
António Costa sabe-o bem. Como também sabe que, mais cedo ou mais tarde, será a Europa a tomar a iniciativa de propor a renegociação. Esse cenário  será, então, mais favorável a Portugal, pois o governo sentar-se-á para negociar, respaldado pelo reconhecimento europeu da  razão dos países devedores. Terá, por isso, mais força negocial e mais capacidade para fazer valer as suas ideias e propostas.
Às vezes dá muito jeito ter à frente do governo uma pessoa que sabe esperar pelo momento certo para agir. É uma forma pouco portuguesa de estar na vida política, mas os genes de António Costa conferem-lhe essa capacidade e essa astúcia.