segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O despertar do monstro alemão


 
 
Como se esperava, Merkel venceu as eleições na Alemanha.   Surpresa foi  ter obtido um dos piores resultados de sempre da CDU, o que deixa a chanceler alemã em grandes dificuldades para formar governo.
Martin Schulz também teve um resultado desastroso. Quando anunciou a candidatura, as intenções de voto no SPD dispararam, mas o facto de não se ter demarcado de uma aliança pós eleitoral com a CDU, a par de outros erros – como não ter apresentado propostas de ruptura que entusiasmassem os eleitores alemães- traduziram-se numa derrota  quase humilhante.
Uma aliança SPD/CDU permitiria  a Merkel  constituir um governo estável, mas Schulz percebeu ( tardiamente ) que a renovação da coligação condenaria o SPD ao total esvaziamento, pelo que se apressou a recusar novo  acordo com a CDU.
O acordo de Merkel com os liberais e os Verdes ( a coligação Jamaica) demorará provavelmente meses a ser alcançado e o preço a pagar pela CDU será muito elevado. A sua promessa de ouvir atentamente as reivindicações dos votantes na AfD ( a extrema direita alemã) é patética. Merkel não terá percebido que é uma das culpadas  pela vertiginosa subida da AfD?
Os alemães  estão cansados da política sensaborona e inócua protagonizada pelo Centrão. Imbuídos do espírito ” Deutschland über alles” que Merkel lhes promete em palavras, mas constantemente adia nos actos,  encontraram abrigo no AfD, que não quer mais imigrantes na Alemanha e combate ferozmente o Islão.
Se a isto associarmos um mercado de trabalho assente na precariedade e nos salários baixos – que permite iludir os números do desemprego, mantendo-os artificialmente  baixos- e uma legislação laboral  que escarnece os direitos dos trabalhadores- temos o adubo ideal para a extrema direita medrar.
A AfD obteve um resultado impensável há uma década, mas  a sua ascensão meteórica tem muitas semelhanças com a ascensão dos nazis nos anos 30, que culminou com a chegada de Hitler ao poder.
Como aqui escrevi reiteradamente, da Alemanha nunca poderemos esperar nada de bom, pelo que o resultado de Adolfina não me surpreendeu.  Ficarei surpreendido, sim, se os partidos democráticos não conseguirem estancar a subida da extrema direita. É que apesar de colocarem sempre os interesses da Alemanha acima dos interesses da UE, há uma grande diferença entre governar a Europa a seu bel prazer, martirizando  os povos do sul da Europa com medidas económicas e financeiras declaradamente nazis ( como têm feito os governos de Merkel)  mas garantindo a paz, ou atacar  deliberadamente tudo o que não seja ariano, mesmo dentro da Alemanha, seguindo uma política  de imigração semelhante à de Donald Trump.
É que uma política xenófoba  ( equiparável à prosseguida por Trump)  conduzirá inevitavelmente a uma guerra em território europeu. Com a agravante de neste momento a Casa Branca ser ocupada por um presidente que tem a sua base de apoio na extrema direita europeia e no Ku Klux Klan.
Perante este cenário, o pior que os partidos democráticos europeus podem fazer é assistir, indiferentes,   ao novo despertar do monstro alemão.  O passado ensinou-nos que devemos olhar para a Alemanha como uma inesgotável fonte de conflitos. 
O discurso da AfD, após serem conhecidos os resultados eleitorais, é tenebroso pelo que representa de vontade indómita em regressar a um passado de conflitos. Porém, olhar para o monstro com medo, ou encará-lo como uma catástrofe, nada resolve. O melhor a fazer é acreditar que os monstros também se domesticam e tudo fazer para o impedir de lançar fogo à Europa pela terceira vez no espaço de um século.

9 comentários:

  1. Calma, Carlos!

    A Alternativa obteve 13%, devido aos votos da Alemanha Oriental. Em NRW teve menos votos.
    Na França, o partido extrema-direita obteve 33%.

    O meu favorito obteu 10,6%.

    Os socialistas concordarem com uma coligação com a minha amiga Angie, nas próximas eleições são reduzidos a pó.

    A democracia vive de surpresas, mas na calma está a força.

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    1. Le Pen teve 33% nas presidenciais, mas nas legislativas teve resultados desastrosos, Teresa.
      Votou num partido antieuropeu, Teresa?

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  2. O Martin Schulz é contra a continuação da coligação com a CDU, mas há muitos socialistas que querem a coligação. E depois do Martin Schulz ter tido o pior resultado desde 1949, vai desaparecer para SEMPRE da vida política nacional.

    Uma lição forte para a péssima política da CDU e dos socialistas. Esperamos que aprendam a governar para bem da Alemanha.

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  3. A aliança da CDU com os liberais será perigosa para os países do sul da Europa, já que estes são anti europeístas e, pior, consideram que os países referidos tenham que 'pagar' mais.

    Martin Schulz digeriu mal a derrota e amuou.
    A extrema direita surge em grande, no contexto, graças às políticas quanto à imigração mas não só. Não tem, no entanto e por agora, qualquer relevãncia com significado.

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    1. Schulz não tinha outra solução, António. Como diz a Teresa, se voltasse a coligar-se com Merkel, o SPD desapareceria da cena política alemã

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  4. Pois eu que sou uma cobarde fico com vontade de morrer antes que os cataclismos deflagrem. Porque me parece que se estão a acender sinais de perigo danger pelo mundo.

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    1. Sem dúvida, Bea. Dá sensação que só falta alguém pegar fogo ao rastilho, para o mundo explodir.

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  5. O contínuo crescimento da extrema-direita na Europa é assustador.

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    1. Isso e o desaparecimento dos partidos sociais democratas, que estão agora a pagar o preço da Terceira Via protagonizada por Blair, Pedro.

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