terça-feira, 19 de setembro de 2017

A vida como ela é...

Juro que quando fui apanhado numa das inúmeras armadilhas da maravilhosa ( para quem gosta de andar sempre com os olhos no chão ou apenas a vê de longe) calçada portuguesa, não estava  a pensar na patética intervenção de Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD. 
Nem me embrenhara na análise psicológica de um dos discursos tresloucados de Passos Coelho, na vã tentativa de tentar compreender o seu transtornado perfil psicológico.
 Tampouco ia a remoer os resultados dos últimos exames médicos que confirmaram o agravamento do meu estado de saúde e a sua irreversibilidade.
Por estranho que vos pareça, enquanto caminhava pela Avenida pensava  - até ao momento em que uma falha na calçada me provocou a queda - nas maravilhas desta vida, em tudo de bom que ela me proporcionou e a relembrar a forma entusiástica  como o médico, perante a forma serena como estou a encarar a fase final da minha vida,  apoiou a minha ideia de ir, uma última vez, até à Argentina.
Foi no momento em que me precipitei no solo e os livros acabados de comprar na Bertrand se espalharam pelo chão, que regressei ao mundo real e me confrontei com a realidade.
Ao passar por mim, uma jovem brasileira aparentando estar a gozar momento de pausa  no trabalho do lupanar, olhou para mim estendido no chão a sangrar e, sem se deter, atirou:
- "Tudo bem?  Precisa ter cuidado, meu bem!"
Não tive tempo para reagir, nem para me revoltar, pois logo de seguida uma velha "made in Avenidas Novas" asseverou:
- " Você já não é o primeiro a cair aí. Apresente queixa na Câmara, porque a culpa é deles".
Tal como a jovem brasileira, seguiu em frente depois de debitada a sentença.
Eu não cheiro mal, não estava andrajoso (até ia bem vestidinho, porque vinha à cidade) não estava embriagado, porque não bebo, e, apesar de estar magérrimo  o meu aspecto  continua a não denunciar a doença que me afecta. No entanto, devem ter passado por mim umas 20 pessoas, antes de alguém se disponibilizar a prestar-me ajuda. 
Sem forças para pedir socorro, fui salvo por uma senhora que passava com o filho e se abeirou de mim perguntando se queria que chamasse uma ambulância. Acenei que sim e enquanto o filho ligava para o INEM, ela foi comprar uma garrafa de água que, extremosamente, me deu a beber.
Quando me meteram na ambulância, pareceu-me estar a entrar no Paraíso. Acabara de ser libertado da selva em que Lisboa se transformou. Uma cidade de pacóvios mal educados e sem maneiras que vieram das berças, não sabem comportar-se à mesa, arrotam no fim das refeições, peidam-se nas salas de cinema  e esqueceram a solidariedade. Fascinados que estão com a vida na capital, tornaram-se animais de duas patas. Trocaram a carroça por um Renault clio e, pendurados em telemóveis e copos de gin acompanhando sushis, sentem-se os Reis da Selva. E realmente, são.
Pessoalmente, não tenho pena de deixar esta selva. Esta cena mostrou-me a vida como ela é. Cada vez mais desinteressante e selvagem, regida pelas leis do salve-se quem puder e do Eu, Lda. 
Mãe e filho que me acudiram, por acaso, são do Porto. Estavam em Lisboa de passagem e fizeram questão de me acompanhar ao Hospital, de onde só saíram quando souberam que estava tudo bem comigo.
Nota: o título é uma homenagem a Nelson Rodrigues, mas dedico este post em especial aos leitores e leitoras que têm um ódio visceral ao Porto e acham que os nortenhos são todos nharros e imbecis.

21 comentários:

  1. De tudo isto que nem vou questionar, preocupa-me sinceramente o seu estado de saúde.
    Força, Carlos!
    Um abraço

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  2. Depois de sofrer tanta desconsideração por pessoas que tinha como amigas, de tanta ingratidão pelo bem que temos feito por esta comunidade onde, de momento, me encontro, ainda hoje proferi esta já tão conhecida frase : "Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães".
    Fico triste e muito preocupada com o seu estado de saúde. Embora na maioria das vezes, não comente, raro é o post que não leio e habituei-me a gostar de si. Muita força e um grande abraço.

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    1. Compreendo-a muito bem, Ju. Obrigado pelas suas palavras, Beijinho

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  3. Não sei bem que dizer, Carlos.
    Lamento o seu estado de saúde. Sinceramente. Palavras de conforto não tenho, aquelas que poderiam fazer alguma diferença, mas saiba que sinto profundamente pelo que está a passar.
    Parece que os humanos em geral ficaram dessensibilizadas para o que se passa com os outros membros da espécie. Olham e seguem em frente.
    A calçada portuguesa é apenas bonita. Se tiver buracos e estes não forem logo assinalizados e reparados, são perigosos. Melhor serem substituídos por cimento para bem dos residentes. Aqui a tendência seria processar a Câmara imediatamente. Aí levaria um vida inteira a chegar a algum resultado.
    Quando iam ao Algarve passar férias, os “lisboetas” – nunca cheguei a saber se eram lisboetas de verdade! – diziam que regressavam a Lisboa “para apanhar banhos de civilização”. Mas isto foi há muitos anos. : )
    Sobre os nortenhos, para além de achar, na altura, que tinham uma pronúncia muito “interessante” , sempre os considerei muito generosos e afáveis sem o snobismo lisboeta.
    Há sempre exceções. A minha família alargada, “adquirida” pelo casamento, era formada por lisboetas muito simpáticos e igualmente generosos.

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    1. A minha família paterna é lisboeta e de um snobismo atroz. Claro que nem todos os lisboetas são como a minha família.

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    2. Também tenho alguns bons amigos lisboetas ( os de gema, não importados) e obviamente que nem todos se comportam com tanta insensibilidade. Tive manifestamente azar ou, então, as pessoas ficaram assustadas quando leram o título de um dos livros que eu trazia: O Anjo Pornográfico. É uma biografia do Nelson Rodrigues, feita por Ruy Cardoso ( que também fez as biografias de Carmen Miranda e Garrincha). Ainda hei-de escrever um post sobre este livro...
      O problema na calçada, é que o buraco foi deixado aberto por uma empresa que está a fazer obras num prédio. A culpa aqui não foi da Cãmara

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  4. A minha preocupação é o estado de saúde do Carlos, porque apesar das nossas desavenças, sou muito sua amiga.

    Um senhor um pouco mais velho do que o Carlos teve um ataque de coração dentro de um banco. Ficou por lá caído. Quatro velhotes entraram, passaram por cima dele, tiraram o dinheiro da caixa e foram-se embora. O vídeo do banco gravou a cena e os quatro velhotes foram condenados pelo tribunal por falta de respeito e consideração pelo doente.
    Um jovem que também queria levantar dinheiro, viu o velhote e telefonou imediatamente para o hospital. Tarde demais, o homem morreu.

    A brasileira e a velhota portuguesa precisavam de um bom castigo, por não ajudarem o Carlos.

    Beijinhos da amiga de SEMPRE.

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    1. Não preciso de dizer que retribuo muito sinceramente a sua amizade, pois não, Teresa? As nossas escaramuças às vezes são fortes mas passam depressa. Como acontece sempre quando as pessoas são civilizadas. A cena no banco passou-se aí, ou cá em Portugal? Beijinhos do Tuga com mau feitio

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  5. O Outono anuncia-se com quedas para os mais fragilizados, já me apercebi.
    Mas a tónica cifra-se na falta de solidariedade generalizada... E nunca se falou tanto nesta virtude, outrora nem como tal considerada: era um dever de honra, que fazia parte do carácter de gente educada, tanto nos meios rústicos quanto nos citadinos. E era apontado a dedo quem faltasse a este dever de ajudar o próximo. Hoje chama-se-lhe de cidadania...
    Algo corre mal sob os nossos céus e empana os horizontes.
    Desejo rápidas melhoras.
    maria

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  6. Eu estive ausente durante quase dois meses, nem sabia que o Carlos estava doente. Lamento sinceramente. Fiquei muito triste com o que lhe aconteceu, mas não surpreendida. As pessoas estão cada dia mais egoístas, ninguém se interessa por ninguém, só se preocupam consigo mesmas. Parece que o "Ama o teu próximo como a ti mesmo" está completamente fora de moda.
    Muita força e um abraço

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    1. as pessoas ( nem todas, felizmente) andam muito preocupadas a olhar para o seu umbigo, Elvira, Abracinho

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  7. Força, Carlos!
    Um grande abraço

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  8. ... que não é o meu caso. Nem pelos leirienses eu tenho ódio visceral... O problema é a enorme falta de educação e de cidadania e de consideração pelo próximo que grassa por todo o país, quiçá por todo o mundo. Muito lamentável!!

    Muito lamentável é também saber que a sua saúde não anda famosa. Cuide-se, cuide-se, cuide-se o mais que puder e souber!

    Beijinhos afetuosos.

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    1. Ódio mesmo, só tenho ao Passos Coelho e comandita. Pelo mal que fizeram a Portugal e aos portugueses. Do comportamento das pessoas só tenho pena. Vou-me cuidando e vou lutando, Graça. Beijinho grande

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  9. Pois desgostei de saber da queda e que a sua saúde não anda bem. Ódiozinhos a lugares não entendo; e nem a pessoas. É mal querença que não consigo.

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    1. Como disse, odiozinhos só a quem fez tão mal ao meu país. O resto são uns tristes e pobres diabos.

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