quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Uma questão de berço(s)



Quando a vi a servir às mesas num modesto restaurante, arregalei os olhos de espanto. O que estaria ali a fazer, em tempo de férias, uma miúda que pertence a uma das famílias mais ricas da Linha?
A resposta veio pronta e com um brilhozinho nos olhos:
- Quero tirar a carta de condução, mas quero ser eu a pagá-la.
De imediato me lembrei dos miúdos que exigem tudo dos pais, obrigando-os a fazer sacrifícios para lhes comprar ténis, telemóveis e tudo o que o consumismo mimético reclama.
E não podia deixar de recordar aquele miúdo, filho de uma vizinha da minha irmã que vivia com muitas dificuldades desde a morte do marido. Na véspera de  fazer18 anos disse à Mãe:
- Se amanhã não me deres dinheiro para eu tirar a carta, mato-te.
Não matou, mas deu-lhe uma tareia. A mãe, como sempre, desculpou-o:
"É um miúdo muito nervoso, mas é muito bonzinho!"
Palavras para quê?

8 comentários:

  1. Sim, palavras para quê? Gosto de ver jovens a trabalhar. Independentemente da situação financeira dos pais, os adolescentes são motivados a trabalhar para se tornarem mais responsáveis a gerir o seu dinheiro e não só. Um dos aspectos da sociedade canadiana que mais me surpreendeu. Eu só comecei a trabalhar aos 20 e tais, mas, fe,izmenfe, sem exigências da minha parte. A boa vida aconteceu naturalmente. Os meus filhos, por iniciativa própria, quiseram ter "part-times" assim que a idade lhes permitiu porque todos os amigos e amigas faziam umas horas por semana.

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    1. No meu tempo não era hábito trabalhar quando éramos jovens mas um ano depois de vir para Lisboa arranjei um part time numa editora para não estar dependente do meu pai e também porque me dava imenso prazer. O problema é que trabalhava ao sábado e às vezes não era muito agradável.

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  2. Quase todos os garotos que conheço trabalham nas férias. E não por desporto. Ou para se orgulharem de ganhar a carta ou outra qualquer coisa com dinheiro seu. Mas para ajudarem a pagar os estudos, a roupa, os livros.
    E nem penso que alguma mãe em seu juízo diga de um filho que a sovou que é muito bonzinho. É verdade que há quem exija dos pais o que não têm. Mas também há quem não faça exigências e se esforce para poder ajudá-los.

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    1. Não foi por acaso que a senhora acabou numa instituição e o filho pertence a um gang de um clube de futebol. Infelizmente, o que mais vejo no dia a dia são filhos a fazer exigências aos pais, Bea

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  3. Deve ser mesmo uma questão de berço. Os morgados que eu conheci só serviram para gastar a fortuna das famílias. As riquezas e os palacetes do Estoril foram quase todos feitoa à custa de trabalho escravo. Foi o consumismo que tornou muitos jovens assim, porque houve muitos que se formaram e foram para a escola descalços, porque os ricos não precisavam de estudar. Lá fora os jovens sempre trabalharam porque se vivia/vive no self made man. Aqui só depois de Abril é que deixou de ser vergonha trabalhar, nas férias para ganhar uns tostões. Será que essa menina também terá dinheiro para comprar carro ou a família já está falida, como tantas, não falando dos novos-ricos, é claro. Nunca tive quem me ajudasse, a não ser a minha mãe a criar-me e tudo quanto tenho e tudo que dei foi comprado com o dinheiro que ganhei. Até os estudos foram com bolsa de estudo da Gulbenkian. nem paguei propinas, nem precisei de fazer exames de admissão. E esta hein?! Por isso fico irritadíssima quando vejo aqui ou em qualquer lado as pessoas botarem bazófia.

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    1. Claro que é uma questão de berço, Anfitrite, mas isso nada tem a ver com a condição social. Conheço jovens pobres muitíssimo bem educados e responsáveis e jovens de famílias ricas que se comportam como autênticos chulos. ( A família da miúda em causa é ainda uma das mais ricas da Linha).
      Quando escolhi o título estava a pensar em afectos mas vou explicar melhor isso num post.

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  4. Só de ler uma coisa destas deixa um tipo profundamente irritado.

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