quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Praias da minha vida ( com histórias dentro) -2


Praia da Aguda


A partir de 1957/58 e  durante alguns anos,  os meus pais alugavam casa  na praia da Aguda, onde passávamos cerca de dois meses. Da praia guardo inúmeras memórias. 
Dos rochedos que me deixavam os pés em sangue, da água gelada, do banheiro a quem os pais pagavam para nos dar mergulho ou das tardes ventosa passadas no parque ou, quando o tempo permitia, preenchidas com animadas corridas de "sameiras" devidamente artilhadas com cera ou plasticina.
Podia contar-vos muitas histórias desses verões. De como me escapei de uma intoxicação que afectou toda a família, porque detestava mexilhões e não comi as " deliciosas" espetadas que a minha Mãe preparava, para gáudio do palato dos meus irmãos e primos.
Podia falar-vos dos passeios  nocturnos até à Granja ou Miramar, onde íamos em manada (éramos um grupo de mais de 30) cantando e tagarelando ou ( os mais velhos) namoriscando.
Podia lembrar as festas de fim de semana no Parque, animadas por estrelas da época e uma embaraçosa gaffe do Artur Agostinho com uma inglesa chamada Penny.
Podia recordar  vários casamentos resultantes desse convívio, entre os quais o do meu irmão mais velho, ou do que senti quando vi a Guida ( miúda de 15 ou 16 anos) em biquini, enfrentando as críticas de todas as mães. A coragem da Guida, ao ser a primeira ( e durante muito tempo única) mulher a ir de biquini para a praia da Aguda, no final dos anos 50, merece uma história à parte. 
Podia...mas não o vou fazer. Opto por recordar uma história que já aqui contei em Agosto de 2008, mas a maioria dos leitores/as não terá lido.
Contarei aqui apenas uma versão resumida mas sugiro aos leitores que sigam o link no final deste post e leiam a história completa e como foi importante para a minha formação.
Então aqui vai:

(Crónica de uma canalhice: só para adultos!)

(...)Era uma tarde de Agosto. Uma amiga assombrosamente ruiva, filha de um casal  bastante conhecido no Porto, que tinha casa na Aguda, fazia anos e deu uma festa. Em casa, como era habitual naquela época. 
Com  a cumplicidade de uma amiga inglesa que habitualmente veraneava em casa da aniversariante, alguém conseguiu  introduzir um gravador no quarto onde as raparigas deixavam os seus casacos e se iam retocar. O objectivo era apenas saber se nas conversas que travavam entre si, uma delas retribuiria os sentimentos que um rapaz do grupo sentia por uma delas. Estávamos longe de imaginar o que iríamos ouvir...
Terminada a festa, reunimo-nos num quarto para ouvir a gravação. O resultado foi uma surpresa. Foi nesse dia que percebi que as raparigas  não se interessavam apenas por bordados, culinária e vestidos, pelo Johny Halliday ou pela leitura do “Salut Les Copains”. As raparigas da minha idade partilhavam das mesmas preocupações que os rapazes, tinham conversas sobre as mesmas questões dos rapazes e discutiam problemas sexuais como os rapazes ( com o à vontade possível na época, entenda-se...).
Quando do gravador saiu a voz de uma jovem lisboeta que passava parte das férias no norte, a dizer que um determinado fulano lhe fazia um “grande tesão” , caí das nuvens. Como era possível que as mulheres tivessem uma coisa dessas? Andaria a ser enganado pelo professor de Ciências Naturais? Ou seria uma coisa só das raparigas de Lisboa? Estávamos incrédulos. Como era possível uma mulher ter “aquilo” e ainda por cima gabar-se diante das amigas? (...)
Como já expliquei, esta cena, apesar de poder ser encarada como uma canalhice, foi extremamente importante e  mudou radicalmente a minha forma de olhar para as mulheres.
Já agora, atrevo-me a sugerir que leiam também os muitos comentários que o post suscitou. 


3 comentários:

  1. As meninas já não são ingénuas. Os meninos crescem e continuam a ser machistas (principalmente os latinos) – na sua maioria. : )
    Gostei muito de ler as duas crónicas.

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  2. Vou seguir o link
    As "minhas praias" de criança foram Caxinas, Francelos e Leça

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  3. A praia não me diz nada.
    Agora vou ler a crónica.

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