terça-feira, 20 de junho de 2017

Não sou camaleão. Nem daltónico!

Embora possa mudar de opinião quando me provam que estou errado, nunca fui camaleão nem vira casacas.
Como jornalista, também nunca escrevi para agradar a qualquer governo ou governante. 
Por isso, o que escrevi aqui no domingo a propósito dos incêndios de Pedrógão Grande e indignou a Janita, não foi diferente do que escrevi em dezembro de 2003, na revista Cooperativas e Desenvolvimento do Instituto António Sérgio, em introdução a uma entrevista que então fiz ao presidente da FENAFLORESTAS:


"Quando a temperatura sobe e os incêndios começam a deflagrar por todo o País, a floresta salta para as primeiras páginas dos jornais, torna-se notícia de abertura  de noticiários e assume o papel de protagonista em programas de televisão preparados à pressa. Depois, com a chegada do Outono e o aparecimento das primeiras chuvas, a floresta volta ao anonimato, refugiada num canto esconso dos camarins dos serviços informativos. É assim há anos. Há demasiados anos...
Os devastadores incêndios do último Verão, pela sua violência e extensão,  não deixaram ninguém indiferente. Vimos um País - de súbito apiedado e atónito  perante os cenários dantescos que as televisões lhes ofereciam em exaustivos directos- responder de forma solidária aos incansáveis apelos da comunicação social, para apoiarem as vítimas que, no curto espaço de umas horas, viram destruído o labor de muitos anos.
Terminada “oficialmente” a época dos fogos, não vale a pena  perder-nos em querelas inúteis, tentando apontar a dedo os responsáveis, ou discutindo a forma como tudo poderia ter sido evitado.
O importante, nesta fase de rescaldo das consciências, é não deixar apagar das nossas memórias o rasto de desolação que se estende pelo País . O que vale a pena é tudo fazermos para evitar que no próximo Verão o cenário se repita, pensando na floresta como um bem comum e cuja destruição a todos afecta".
 Já agora, para quem estiver interessado, deixo  o resto do artigo onde se dão algumas dicas sobre a forma de preservar as florestas


" E se as cooperativas forem a solução?"

FENAFLORESTAS QUER MAIS SENSIBILIZAÇÃO...
Sabemos que em Portugal 8 por cento da área florestal é constituída por  baldios na posse do Estado e mais de 90 por cento está nas mãos de proprietários individuais ( são cerca de 500 mil!), muitos dos quais não têm qualquer interesse na sua exploração. Foi precisamente esta situação que serviu de ponto de partida para a conversa que travámos com o Presidente da  FENAFLORESTAS, estrutura que agrega três cooperativas florestais e cerca de 19 mil produtores individuais.
Defensor acérrimo do cooperativismo como forma de ajudar a resolver os problemas com que se debate a floresta portuguesa, Ricardo Ferreira Dias preconiza “ uma intervenção do Estado, no intuito de sensibilizar os proprietários a associarem-se. Neste momento as cooperativas florestais são mal tratadas pelo Poder e ignoradas pelas populações, porque  falta formação e informação aos proprietários sobre o cooperativismo e as formas como as cooperativas podem contribuir para a resolução dos problemas da floresta. Há parcelas tão pequenas, que a sua exploração pelos proprietários não é rentável, mas se um conjunto de pequenos proprietários se organizar ou entregar a gestão das suas parcelas às cooperativas, há maior racionalidade e rentabilidade, porque se reduzem os custos de exploração e manutenção ”.
Mas não esbarrará essa pretensão no individualismo dos portugueses? Embora reconhecendo essa nossa característica ancestral , o presidente da FENAFLORESTAS  acredita que “ uma boa campanha de sensibilização pode levar muitos pequenos proprietários a organizarem-se em cooperativas, em vez de deixarem as suas parcelas ao abandono”. E para os mais renitentes, aponta uma receita: “ devem ser obrigados a ceder os seus terrenos para o domínio público, ou a entregar a sua gestão a cooperativas. Neste caso, manteriam a posse dos terrenos, mas  a  gestão seria assegurada pela cooperativa. Cada associado ficaria com uma conta corrente  com a cooperativa e poderia pagar a prazo as despesas efectuadas, através da venda dos produtos. Isso, porém, exigiria que o Estado garantisse às cooperativas o financiamento necessário. No caso de o Estado optar por ficar com a posse administrativa dos terrenos, entregaria a sua gestão às cooperativas e seria ele a pagar as despesas...”

... E APOSTA NA GESTÃO DA FLORESTA
A opção do Estado Novo pelo pinheiro bravo foi um erro, porque é uma resinosa altamente combustível e com a emigração dos anos 50, 60 e 70, essas áreas ficaram ao abandono e o risco de incêndios aumentou. Há também quem questione as vastas áreas de eucaliptal Em que medida é que a cooperativização da floresta, poderia contribuir para uma racionalização da produção florestal, pondo as coisas na ordem?
“ Em primeiro lugar, as cooperativas poderiam fazer ordenamento por regiões, que é algo que não existe, de modo a podermos criar uma gestão sustentada das florestas o que significa, entre outras coisas, adequar a floresta à necessidades do País e aos interesses da indústria nacional, tendo sempre em atenção as características de cada região. Isto só pode ser feito a nível local e não a partir de Lisboa, por pessoas que desconhecem as realidades locais. Eu não sou contra o eucalipto, mas defendo que em vez de extensas áreas de monocultura deveria haver explorações mistas, de várias espécies, porque isso ajuda a controlar os incêndios. E que ninguém duvide que se for decidido avançar já para o ordenamento regional, tem que ser dada às cooperativas uma maior capacidade de intervenção a nível de gestão da floresta. Por outro lado, as cooperativas podem ajudar a criar um conceito novo de cidadania perante a floresta, incutindo nas pessoas a noção de que todos têm obrigação de a defender, porque todos beneficiamos dela”.
Mas adequar a floresta aos interesses da indústria não pode ser um risco, nomeadamente em termos ambientais?
“ O ambiente é muito importante, mas a floresta não se pode subordinar exageradamente aos interesses ambientais. Temos de ser inovadores e criar novos conceitos de floresta para fins industriais, ambientais, cinegéticos, paisagísticos ou de lazer, mas sempre numa perspectiva  de melhoria dos  recursos económicos, que beneficiem o País.”
Todos os anos, em época de fogos, é inevitável falar-se muito na necessidade de prevenção. Quisemos, por isso, saber quais as medidas que a FENAFLORESTAS preconiza.
“ Mais do que preconizar, nós sabemos como agir”- começa por referir Ricardo Ferreira Dias. “ A prevenção deve ter início no Inverno , criando condições para que não haja fogos e não seja necessária a intervenção dos bombeiros no seu combate. Nós sabemos que a prevenção sai muito cara, mas se fossem criadas condições para isso, nomeadamente a nível financeiro, as cooperativas podiam rentabilizar melhor os investimentos que o Estado faz em termos de prevenção. Com  condições para fazer uma boa gestão, as cooperativas podem aproveitar o Inverno para fazer a desmatação e limpeza, criar acessibilidades, aceiros naturais e pontos de água para abastecimento dos bombeiros e, no Verão, aproveitar essas pessoas para funções de fiscalização e vigilância.”
Mas a FENAFLORESTAS tem outras propostas para fazer. Como exemplos, Ricardo Dias aponta a necessidade de um Código Florestal  e de um inventário “credível e actualizado para saber o que temos, o que devemos plantar e onde”. O cadastro permanente de todas as explorações ( já foi publicado o diploma que prevê a sua  actualização) é outra medida essencial “ para partirmos para os Planos Regionais de Ordenamento Florestal.” Admitindo que é um dado adquirido que a certificação vai avançar, o Presidente da FENAFLORESTAS deixa no ar um desafio: “ Quando foi feita a certificação das vinhas, foi o Estado a suportar os custos, mas em relação às florestas nada está definido. Porque é que não dão às cooperativas condições para fazer essa certificação?”
Os problemas da floresta não acabam por aqui, mas Ricardo Ferreira Dias sabe onde começam e aponta o dedo ao facto de “estarem dependentes de 5 ou 6 Ministérios. Isso é um erro...  é necessário voltar a criar uma Secretaria de Estado das Florestas que coordene todas as medidas relativas às florestas, porque assim ninguém se entende e quem perde é o País”.
Talvez tenha chegado o momento de repensar o papel a desempenhar pelas cooperativas florestais e de criar condições para que a solidariedade dos portugueses, sempre presente na hora de lamber as feridas, se manifeste também, no momento de pensar em evitar as tragédias. As cooperativas dizem estar preparadas para dar um passo nesse sentido. Quem estará interessado em aderir às suas propostas?"

14 comentários:


  1. Carlos, mudam-se os tempos mudam-se as vontades. As cooperativas parecem-se com as fundações. Ponho aqui um comentário que fiz em resposto a um amigo nado e criado em Lisboa, embora sabendo que se trata de um caso muito pessoal:

    Rui disse: Não me pronuncio sobre aspectos que não domino. Mas há uma questão que abordas e que considero crucial: o associativismo. Só que, como sabemos, o português prefere "morrer" sozinho do que associar-se com os seus pares.


    Gisela Rui, havia! não propriamente associativismo, mas "ajudadas". Todos trabalhavam nas terras uns dos outros por troca de trabalho e não se media a quantidade. Associativismo isso era coisa só para nós estudarmos, desde a criação do "monte pio". ..As Casas do Povo nunca serviram para nada, a não ser para dar emprego a alguns, que depois foram integrados, adivinha lá onde, mesmo sem terem habilitações. Eu tenho um terreno no Algarve que só serve para gastar dinheiro mesmo sem lá ir. Tenho um solicitador que trata disso. As exigências são cada vez mais. Há pouco tive de pagar para pôr novos marcos, que me custaram quase tanto como um quadro do Monet. Tive de mandar cortar as árvores que estavam a pender para a via pública. Dou os frutos a um senhor, que eu nem conheço, para ele me ir lavrar o terreno com um tractor. este ano nem tenho tido notícias e nem as procuro. Sei o que sofri, no verão de 2004, quando lá estava. Lembra-me de ter visto na tv uma imagem duma senhora de S. Brás de Alportel a fugir das chamas e voltou para trás várias vezes porque o pai (idoso) não queria sair da casa. Nunca mais me esqueci, por isso agora não vejo TV, só leio notícias. E de tudo o que ardeu por aqueles lados, não havia um único eucalipto. O que havia era pinheiros, sobreiros e vegetação. Como algarvia já me estou a estender...

    terça-feira, 20 junho, 2017

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    1. Este seu comentário merecia uma resposta bastante alargada, mas vou limitar-me à primeira parte. Aos 19 anos era um cooperativista convicto, admirador de Sérgio, discípulo de Henrique de Barros e seguidor de um dos sergianos mais proeminentes: Fernando Ferreira da Costa. Antes do 25 de Abril fui dinamizador cooperativo e depois um dos fundadores do Instituto António Sérgio. É com muita mágoa que olho actualmente para as cooperativas, mas em 2003 ainda acreditava ser possível salvá-las.

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  2. Não sei qual seria a melhor solução em termos de agrupamentos de indivíduos para o bem da suas respetivas comunidades, sei que, como disse no “conversas avinagradas”, os portugueses são o deixam andar, as leis, se existem são para ser contornadas, e são – muitos – “casmurros”, como o Carlos afirmou algures. Não que eram casmurros mas que havia casmurrice.
    Todos me falam sobre esta tragédia (no ginásio, os que sabem onde nasci) e numa festa de ontem onde conhecia toda a gente (portugueses e não portugueses, que era a maioria). “Pois.. é um país pobre, não têm recursos, não implementam leis, há negligência por parte das autoridades”.... e mais outros palpites que podem ou não fazer sentido. Havia um opinião que era comum a todos: se medidas preventivas tivessem sido postas em vigor, atendendo aos fogos do passado, talvez a tragédia não tivesse sido tão grande mesmo atendendo que tivesse sido causada por uma trovoada seca.

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    1. Durante estes dias têm sido inúmeras as provas da casmurrice tuga, Catarina.
      Por outro lado há uma ânsia doentia de encontrar culpados, outra característica enervante dos portugueses.
      Sem querer fazer graça, apetece-me dizer que o grande culpado foi S. Pedro. E digo-o convictamente. Se constatrmos que num incêndio com 58 quilómetros, mais de 30 dos 64 mortos morreram num espaço de 500 metros, só por cegueira não se admite que houve causas naturais incontroláveis.

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  3. É muito enervante.. todos sabemos que as leis existem mas não são cumpridas e as desgraças são a consequência de uma sucessão de falhas. Um horror.

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    1. Existem leis, mas nem todas são as mais adequadas e esse é um dos grandes problemas.
      Outro, é que não é possível fazer um ordenamento florestal com uma única lei.
      Finalmente há leis necessárias e fundamentais, como a dos baldios, cuja aprovação tem sido dificultada por culpa do PSD e CDS que se opõem à expropriação dos baldios.

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  4. Carlos, vamos lá esclarecer isto, porque eu quero encerrar o assunto, de uma vez por todas. Nunca o considerei vira-casacas - coisa que, se o desconfiasse sequer, me afastaria definitivamente dos seus blogs - porque sei que o não é, embora não entenda, aqui, a alusão ao facto de não ser daltónico.

    Não me indignei com o Carlos, porque revoltada já eu estava. Verificar que, independentemente das causas, ano após ano o país sofre mais e piores tragédias com os sistemáticos incêndios, e não são tomadas as medidas preventivas, atempadamente, revoltou-me até às entranhas.

    Já, no ano passado, em plena época de incêndios, o PR preveniu o Governo de que estaria atento a medidas sobre o ordenamento do território, «para ter a certeza que no pino do inverno ninguém se esqueceria do que aconteceu no pino do verão».

    Foram tomadas algumas medidas preventivas? Só se o Carlos tiver conhecimento disso; eu não sei.
    Quem sabe até o próprio PR, com tantos passeios, se tenha esquecido de ficar atento.

    Depois, e para finalizar, deixe que lhe diga, que isto dos incêndios é um negócio para muitos, SIM!!
    Daí eu ter 'exigido', na minha publicação de Domingo, e ainda antes de ouvir falar das causas deste inferno, que a Justiça fizesse justiça, penalizando com mão pesada os incendiários. E, ao longo dos anos, têm sidos os confessos.

    Chegar aqui e ver o Carlos tão contemporizador com uma situação tão dramática, terminando o seu curto texto com a justificação 'do raio'...levou-me a completar ...'o raio que os parta a todos'. Se voltasse atrás dir-lhe-ia o mesmo.
    Não fora a Teresa, 'avisar-me' que eu o havia irritado, provavelmente nem teria aqui vindo.

    Fique bem e tranquilo, Carlos.

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    1. Já respondi a quase todas as questões que aqui coloca, nas respostas aos comentários anteriores, mas queria esclarecer apenas alguns pontos
      1- No caso de Perdrógão Grande está provado que não houve mão criminosa, mas sim causas naturais. Só por essa razão não a acompanho nas "exigênias" punitivas
      2- Foram, na verdade, tomadas algumas medidas e em tempo oportuno aqui escrevi sobre o assunto. Nomeadamente, criticando a recusa do PSD e CDS em aprovarem a expropriação de terrenos abandonados. Ora , como já escrevia no artigo de 2003,isso é uma condição essencial para conseguir um ordenamento florestal do território
      3-Não sou mandatário de Marcelo RS, mas creio que ele não terá voltado a falar do assunto, por duas razões: não é este o momento oportuno e terá percebido as dificuldades que estão a ser colocadas para aprovar a legislação adequada.
      E a explicação para isso, a própria Janita a dá no seu cmentário: Há muitos interesses em jogo. Acrescentaria apenas. E todos sabemos quem é que defende esses interesses.
      Uma boa semana, Janita

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  5. A mim irritou-me a notícia lacónica e curta do Carlos.

    Na minha opinião, embora me encontre longe, o que aconteceu foi culpa de uma INÉRCIA CRIMINOSA que não pede SILÊNCIO.

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    1. Inércia criminosa? Admito que sim, mas permita-me que a informe que ninguém pode ser expulso de sua casa, mesmo correndo perigo de vida, se não o desejar. A democracia é assim. E permite aquilo a que eu chamo casmurrice tuga, como a Catarina referiu
      Silêncio por respeito às vítimas?Sim, é uma questão de respeito e sensibilidade.
      Quase sempre, uma notícia curta é muito mais eficaz e concludente do que um texto longo. Como o demonstra, aliás, a comparação entre o texto de domingo o de hoje. Este último é muito esclarecedor e levanta questões muito importantes, mas nem a Janita, nem a Teresa, tocam nesses pontos.
      Eu sei que o único desejo da Teresa é encontrar culpados e puni-los mas, como já expliquei em resposta a um comentário acima, as circunstâncias em que ocorreram mais de metade das mortes, apontam para que o grande culpado tenha sido o S. Pedro e não Sto António.

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    2. Carlos previna-se atempadamente. Se quando sair de casa estiver a chover não se esqueça de levar o guarda-chuva.
      Culpados é fácil de arranjar. É só prender alguém e "obriga-lo" a confessar, já que os de Nuremberga se declararam todos inocentes.

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    3. O tema é demasiado emocional para o meu gosto, Carlos. Vou terminar aqui em comentar o que aconteceu em PORTUGAL.

      E trazer aqui o processo de Nuremberga é imbecil e de mau gosto.

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  6. Hoje publico um texto do MEC e outro meu.
    Ambos no mesmo sentido.
    Nestas alturas são imensos os especialistas.
    Eu, EPON (Especialista de Porra Nenhuma), deixo que outros com conhecimentos técnicos, capacidade e obrigação para descobrir EXACTAMENTE o que se passou se pronunciem.
    Até lá não vou dar palpites porque seriam de todo descabidos e inúteis.

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