terça-feira, 2 de maio de 2017

Rentabilização e Racionalização

Nos últimos tempos, duas expressões entraram no léxico do economês e no ideário de qualquer iniciado no estudo da gestão empresarial: rentabilização de recursos e racionalização de custos.
Quando ouço um CEO ou outro alto funcionário de uma empresa dizer que a empresa tem de rentabilizar recursos e racionalizar custos ( ou vice -versa) já sei que isso se  traduz por despedir trabalhadores e prestar piores serviços aos clientes.
Durante o pico da crise ainda tolerei esse discurso mas, nos últimos dois anos, passei a ser mais intolerante.
Há pelo menos duas décadas que recuso manter relações com empresas que utilizam trabalho infantil ou trabalho escravo.
Nos dois últimos  anos passei também a não contribuir ( pelo menos conscientemente) para a sustentabilidade de empresas que tratam mal os seus clientes. Quando vêm com a lengalenga de que vão proceder a alterações para melhorar a sua relação com o cliente, já sei que o resultado será o oposto ao prometido.
Um dos resultados  mais aberrantes do casamento entre a sociedade de consumo e as novas tecnologias, foi o fim da relação humana entre cliente e prestador de serviços. Hoje em dia os contactos  humanos estão reduzidos ao essencial e a relação entre consumidor e empresa é estabelecida por  máquinas (telemóvel ou computador)  sendo que no caso do telefone/telemóvel, é necessário ultrapassar  uma parafernália de barreiras montadas nos teclados dos aparelhos de telecomunicações. De opção em opção lá conseguimos chegar ao destino final mas, quando pensamos que cortámos a meta, somos confrontados com uma voz que nos diz " A sua chamada está em lista de espera. Atenderemos logo que nos seja possível".
Este "logo que nos seja possível" pode traduzir-se por tão longa espera que obrigue o cliente a desistir. Nomeadamente se o objectivo do nosso contacto for apresentar uma reclamação, prescindir de um serviço, ou entrar em contacto com algum funcionário que não quer ( ou não pode) contactar connosco.
A Racionalização de custos ( leia-se: atrair o cliente bombardeando-o com publicidade na caixa do correio, no telemóvel ou no mail e depois de conquistado ignorá-lo e votá-lo ao ostracismo) foi a responsável pela minha decisão de terminar uma longa relação comercial com três empresas nos últimos 10 meses (Renault, Tranquilidade e Prossegur).Há mais duas na calha.
Depois desta selecção, irei estar muito atento às empresas que utilizam a Rentabilização de recursos ( leia-se: despedimento de parte dos trabalhadores, obrigando os que ficam a trabalhar mais horas, com menos regalias e pelo mesmo dinheiro, advertindo-os que se não estão satisfeitos com as novas regras, podem despedir-se, porque o mercado de trabalho colocará à disposição da entidade patronal -directamente, ou através de empresas de trabalho temporário-  um variado leque de opções para substituir  os "inadaptados").
Correrei o risco de, em breve, me tornar um consumidor auto sustentado, mas não serei nunca um consumidor disposto a suportar todas as imposições das empresas que deterioram a relação com o cliente, em nome da rentabilidade ( leia-se: mais lucros e mais dinheiro em offshores ou outros paraísos fiscais como a Holanda  e o Luxemburgo).

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