quarta-feira, 10 de maio de 2017

A morte saiu à rua

" (...)o jornalismo, que devia ser, e já foi, uma referência em forma de caução, é a miséria que por aí se vê. Mais cedo do que tarde terá de proceder a um mea culpa; mas nem assim arredará as gravíssimas responsabilidades que lhe cabem no desrespeito geral.
Viver em conjunto precisa de conflito, de polémica, de emoção. E da construção de um elo plural, com valores que desenvolvam o sentimento de pertença e de diferença. Todos estes padrões têm sido desprezados, com proficiência, por políticos manifestamente de segunda ordem e por jornalistas de adiantada mediocridade, agigantado ego e gramática fugaz.
O escabroso espectáculo no Parlamento, fornecido por Mário Crespo, José Manuel Fernandes e Felícia Cabrita, tidos como apreciáveis jornalistas (enfim: a estimativa não é generalizada, bem pelo contrário) desacreditou, ainda mais, o já azarento ambiente em que vive a Imprensa(...)"
(Misérias portuguesas: Baptista Bastos, DN, 24 de Fevereiro de 2010)


Foi um dos maiores vultos do jornalismo do século XX e um escritor notável, que tratava as palavras com invulgar mestria.
Mestre da escrita, servidor do jornalismo, sem nunca se servir dele,muito me ensinou quando tive a honra de trabalhar com ele no semanário " O Ponto"
Tal como muitos outros jornalistas da "velha guarda" e rija têmpera, andava desiludido com o jornalismo e as suas relações espúrias com a política. Muitas vezes manifestou o seu desagrado em crónicas incisivas e mesmo truculentas. Como o demonstra o extracto que acima publico.
Nos últimos anos assumiu-se claramente mais com escritor, do que jornalista. Deixou-nos magníficos livros que, infelizmente, não tiveram a repercussão e divulgação merecida. 
Não só pela fina qualidade da escrita, mas também pelas histórias que narrava, Baptista Bastos tem um lugar reservado na História da Literatura Portuguesa.
 Foi  com o BB escritor que "conheci" uma certa  Lisboa e é com ele que frequentemente a percorro. Contada pelos seus dedos. Um  magnífico livro de crónicas mas apenas um dos muitos que nos deixou, com a escrita burilada a que nos habituou.
Que descanses em paz,  Mestre, Amigo e Camarada.

9 comentários:

  1. Fez o que tinha a fazer, não virou a cara. E, como diz, serviu o jornalismo sem e servir dele. Não pode haver melhor. É pessoa que não esqueço.

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  2. Abro o computador e leio a triste notícia no blogue da Graça e logo a seguir aqui.

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  3. Um dos melhores.
    Não foi apenas obra que nos deixou. Foi, também, princípios e valores.

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  4. Cada vez estamos mais pobres. Como eu gostava de o ler e ouvir. Requintado e sábio. Esperava até às tantas para ouvir o seu programa de entrevistas, que passou na SIC "Conversa Secretas", onde ouvi "desabafos" que nunca mais esqueci de pessoas que eu nem conhecia. Aqui fica outra conversa interessante: https://www.youtube.com/watch?v=BE6oHRtcxN0

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  5. Partiu um cultor da Língua Portuguesa, Carlos.
    Que repouse em paz.

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  6. Apreciava BB e a sua escrita mas entre as mortes que saem à rua á diferenças. BB, um personagem sui generis, teve a oportunidade duma longa vida, assistiu ao dealbar do seu sonho em 25 de Abril e ao enterro deste em 25 de Novembro. Longa Vida pois a Baptista-Bastos. Mas aquele que está na base da canção do Zeca, esse foi assassinado ao virar duma esquina, em Alcântara, jovem e assim perdendo a oportunidade de ver a concretização dos seus sonhos e, quem sabe, a sua derrocada, em passo atrás na esperança de dois à frente.

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    1. EM TEMPO - onde está "á diferenças" deve estar ... "há diferenças", gralha no ofício de escriba

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