segunda-feira, 22 de maio de 2017

A II Revolução Francesa En Marche?


Ainda é muito cedo para prever o futuro  da  França de Macron, mas há uma coisa que parece inquestionável: a aceitação do seu governo a nível interno está em grande parte dependente da relação que estabelecer com Merkel.
 Nas vésperas da segunda volta das presidenciais, Marine Le Pen disse  num comício: “a França será sempre governada por uma mulher. Ou por mim, ou por Merkel".
Face ao comportamento dos dois últimos presidentes franceses, Marine Le Pen tem razão. Sarkozy e Hollande  desbarataram a popularidade granjeada antes das eleições, por se terem deixado dominar por Merkel. Sendo quase certo que Merkel ganhará as eleições de Setembro e que a relação com Macron parece ser bastante empática, se o jovem presidente francês quiser sobreviver, tem de mostrar aos franceses que Le Pen estava enganada. Para isso não pode cometer os mesmos erros dos antecessores.
  A nível interno pode   dizer-se que as escolhas de Macron para o  governo,  se não dinamitaram os dois principais partidos, debilitaram-nos fortemente. As escolhas foram cirúrgicas e provocaram fortes rombos  nas hostes republicanas e soialistas
Muitos analistas prevêem  a possibilidade de o partido fundado à pressa por  Macron poder ter a maioria absoluta nas legislativas de Junho e dar-se ao luxo de prescindir do apoio dos partidos tradicionais. Neste cenário, a pedra na engrenagem será uma extrema esquerda mais buliçosa e com mais forte apoio popular.
A confirmar-se esta previsão, será o fim da V República e uma  revolução  programática  com forte influência no sistema  partidário francês, cujo exemplo  poderá contagiar outras geografias europeias. 
Se Macron não conseguir eleger a maioria dos deputados, mas estabelecer com sucesso acordos à direita e à esquerda que permitam estabilidade, assistiremos então a uma revolução mais “douce” e menos programática, mas ainda com ingredientes inovadores suficientes para se expandir no espaço europeu.  
Seja qual for o cenário, não se pode esquecer a força dos sindicatos em França. Esse é um outro desafio à capacidade negocial de Macron.
Perdida a esperança de construir uma Europa solidária e  dado  como adquirido que o mercado de trabalho e o perfil da  empregabilidade  estão em profunda transformação, Macron terá de conseguir sensibilizar os sindicatos para essa nova realidade global. Mais do que discutir salários e regalias é importante estabelecer novas regras para o mercado de  emprego  que dignifiquem e valorizem o trabalho.
Sendo Macron um liberal, não se pode esperar que preconize medidas muito favoráveis aos trabalhadores, mas se conseguir um entendimento com os sindicatos que permita reduzir substancialmente a taxa de desemprego ( a redução do horário de trabalho e o aumento das férias poderá ser colocado na mesa das negociações) poderá amaciar a contestação nas ruas.
Macron tem dado provas de ser inteligente e sagaz. Quero acreditar que conseguirá levar a bom porto a revolução que preconiza e poderá influenciar o futuro não só dos franceses, mas também da Europa.
Não são muito claras as posições de Macron face à imigração e aos refugiados, mas não poderá deixar de interligar estes temas  com as questões laborais. E só terá sucesso, se apresentar propostas inovadoras.
Neste momento pode dizer-se que há uma revolução En Marche em França.  Se irá abortar ou ter sucesso, é impossível prever, mas uma coisa é certa. O falhanço do projecto Macron terá como consequência imediata a vitória de Marine Le Pen em 2022.

Esperemos que todos os intervenientes neste processo tenham em mente o risco de um falhanço. Inclusivamente actores externos, pois o que se passar em França nos próximos dois ou três anos, será determinante também para o futuro da Europa.

6 comentários:

  1. Grande texto. Como diria eu em francês: "On va voir".

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  2. O Carlos não pode culpar a minha amiga Angie pelo falhanço de um François Hollande. A sua INCOMPETÊNCIA para governar um grande país como a França é a causa de Le Pen ter quase ganho as eleições. O candidato socialista era também uma anedota.

    Acredito na JUVENTUDE e INTELIGÊNCIA de Emmanuel Macron.

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  3. Carlos, expôs muito bem aquilo que eu disse num comentário. neste momento, em França, ao central sindical afecta aos moderados já é mais forte do que as dos comunistas.De qualquer modo Macron terá de ser muito original e continuar inteligente mas conseguir algum apoio sindical. O Mèlenchon é um grande problema para ele porque como vaidoso e ricaço quer muito dar nas vistas. A dívida francesa também é muito grande e os presidentes franceses têm-se sujeitado às imposições alemãs para não serem considerados em PDE. o que já aconteceu várias vezes mês sempre lhes foi perdoado em muitas èntentes, porque os primeiros a falhar foram os alemães. de qualquer modo este será sempre um governo provisório até às eleições. Depois se verá por há muitas variáveis e o Trumpa em vez de visitar os seus vizinhos, em primeiro lugar, visitou a AS para vender armas e agradar aos lobies que o apoiam. neste momento não me preocupa muito com a le Pen, porque em princípio ainda faltam cinco anos e ninguém sabe o que acontecerá até lá. Porque provado está que não há governos de independentes, porque clinicamente estes não existem. Alguém terá de ganhar juízo...

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  4. Muito bem visto! Mas se, se, se, se... vivemos mesmo numa corda bamba! Vamos ver se o "rapazito" mostra ter tom@tes...

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  5. Antes de tudo quero ver os resultados das legislativas.
    Com medo, com muito medo, confesso.
    A "boca" de Le Pen tem pouco interesse.
    Essa é a estratégia dela, o diabo dela (cada um tem o seu).

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