quarta-feira, 24 de maio de 2017

A globalização do medo

Pintura de Ljuba Adanja (2002)


 Será o século XXI o século do medo?  Poderá estar o medo a ser utilizado para nos restringirem a liberdade, diminuir os direitos?  Será o medo capaz de  transformar  as democracias tradicionais em sociedades esclavagistas legitimadas pelo voto popular?
Uma retrospectiva dos 12 primeiros anos deste século justifica todas as interrogações.
Tudo começou em 2001 com o ataque às Torres Gémeas. Desde esse dia Bush bramiu  o papão do terrorismo e aumentaram as medidas securitárias.
 Viajar de avião passou a ser um tormento porque os aeroportos,  além de nos reterem muito para lá do que seria normal  numa época em que todos andam obcecados  com o tempo, se transformaram em  espiões dos nossos corpos e dos nossos passos.
Em terra, a Al Qaeda  passou  a estar  presente em toda a parte, qualquer sítio poderia ser alvo  dos atentados suicidas dos homens de Bin Laden. Os atentados de 11 de Março em Madrid e 7 de Julho em Londres fizeram com que o medo alastrasse e, quando parecia que as coisas poderiam acalmar, uma ameaça de pandemia  provocada por um vírus da gripe encontrado no México, deixou os cidadãos de todo o mundo em pânico.
 A gripe  A não fez mais vítimas do que uma gripe normal, mas venderam-se  milhões de  vacinas. Os beneficiários dessa  histeria colectiva, foram os laboratórios. Os cidadãos encontraram mais um motivo para o pânico nesta sociedade higienista que, curiosamente, é uma das mais letais da História.
Bin Laden, o inimigo número 1, apesar de não ser visto em público,  tinha um rosto. O vírus da gripe A não, mas era reproduzido na imprensa e nas televisões em fotogramas acompanhados de complicados esquemas analisados por especialistas, que explicavam a forma de reprodução do inimigo.
Desde 2007 – e mais acentuadamente desde 2009- um novo inimigo começou a ameaçar  o mundo, particularmente a parte ocidental do hemisfério Norte. Ninguém lhe viu o rosto, não há especialistas nas televisões  a explicarem com esquemas complicados como ele ataca, mas sabemos o seu nome: MERCADOS .
 A utilização do plural   indicia que, desta vez, o mundo está a ser atacado por um inimigo invisível que se reproduz com grande facilidade, podendo  as suas células mãe ser localizadas em Wall Street, na City, quiçá em Singapura, e as ramificações em paraísos fiscais que dão pelo nome de off-shores.  Sabido é que o vírus dos mercados ataca nas Bolsas e nos negócios ilícitos,24 horas por dia, mas ninguém o consegue apanhar. Ou melhor: não sabemos, ainda, se alguém estará interessado em apanhá-lo!
Os especialistas  da área económica e financeira desdobram-se em análises complexas, a maioria diz que a melhor forma de o extirpar é dar-lhe vitaminas de crescimento, mas a direita  não está  para aí virada e contrapõe com vitaminas de austeridade, cuja aplicação massiva definha as vítimas. Quanto aos mercados, estão cada vez mais gordos, mas ninguém parece interessado em obrigá-los a uma cura de emagrecimento.

O medo provocado por esse ser misógeno que é a crise, criada pelos mercados em reputados laboratórios financeiros, começou a ser retratado no cinema.  O primeiro filme – que acabou de estrear em Lisboa- tem por título “Procurem Abrigo”  e analisa a crise financeira a partir da visão de um paranóico. Em Cannes, Brad Pitt acaba de apresentar outro filme que aborda a mesma temática. Sob a capa de filme de gangsters, “ Killing them softly” é, ao que dizem os críticos, uma parábola sobre a crise e a incapacidade de defesa perante um criminoso que ataca à distância.
Se não for através da política e da acção cívica, que seja ao menos através do cinema que os cidadãos se consciencializem que podem fazer algo para combater o inimigo sem rosto que nos prometeu uma globalização capaz de tornar o mundo mais justo, mas nos deu apenas o aumento da miséria e das desigualdades. Porque nós deixámos que assim fosse!
Já não há tempo para termos medo! A hora é de agir.

Texto publicado a 24 de Maio de 2012
( Desde então,  os ataques terroristas multiplicaram-se: Só para falar na Europa, recordo Paris (Charlie Hebdo e Bataclan), Nice, Berlim, Istambul, Londres ou mais recentemente Manchester. O medo tornou-se mais global e mais presente nas nossas vidas. Uma boa razão para o recordar 5 anos depois )


6 comentários:

  1. Não é à toa que muitos denunciam estes atentados como false flag operations.

    Basta olhar para o 11 de Setembro com olhos de ver para se perceber que muita coisa ali não bate certo com as versões oficiais...
    ...talvez a mais flagrante seja a queda da torre sete anunciada por uma reporter da BBC, em directo, vinte minutos antes do edifício cair e com o edifício à vista atrás dela! Essa foi usada por um telespectador inglês que se recusou a pagar a taxa de televisão alegando em tribunal que a BBC passa noticias falsas!

    :)

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    1. Não sabia dessa do inglês. Quase tão boa como a prenda que o Papa Francisco ofereceu hoje ao Trump

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  2. Após o atentado terrorista em Manchester, a Europa executa os já usuais rituais de luto e indignação – ocultando a própria impotência, opina um jornalista alemão e tem toda a razão.

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    1. Com o devido respeito, Teresa, eu digo o mesmo desde o que aconteceu em Berlim no último Natal. E então acrescentei que já era tempo de acabar com o circo noticioso em que a comunicação social transforma estes casos.Ontem, em entrevista à RTP, Salvador Sobral propôs exactamente o mesmo: que, no próximo atentado, a comunicação social se remetesse ao silêncio, noticiando apenas o facto e abstendo-se de montar a tenda do circo. estou com ele, porque o Daesh quer é propaganda. Se não houver notícia, não há caso. Tão simples, não é? Bem, depois há o lado B, mas sobre isso escreverei um post.

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  3. O medo...
    Desta vez, mais que qualquer outro ato de violência executado pelos “evil losers”, como Trump os chama – uma terminologia mesmo à Trump! – o alvo foi este grupo de crianças e jovens de idade escolar. Este medo terá efeitos duradouros nesta faixa etária e será tão difícil para os pais manifestarem-se de forma positiva, tranquilizar os seus filhos dizem-lhes que, apesar de tudo, estão seguros... para não terem medo...
    Mais que nunca se deve manter o diálogo aberto. Que mais poderemos fazer? Participarmos mais na nossa comunidade? Estar a par do que os nossos políticos estão a fazer de forma a velar pelos nossos interesses? Será suficiente?
    Sempre pensei que fiz uma pequena diferença na minha comunidade ao longo destes anos... não tenho mais a certeza se fiz o suficiente...

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    1. Nunca faremos o suficiente, Catarina. O importante é que façamos aquilo que podemos fazer. Cada um tem a obrigação de fazer a sua parte. A CS, por exemplo, devia fazer o que eu e o Salvador Sobral sugerimos.

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