quarta-feira, 19 de abril de 2017

Salvar as livrarias?



Há por aí uma corrente  ( creio que ainda não chegou ao nível da petição) pedindo que se salvem as livrarias do Chiado.
Compreendo mas parece-me oportuno recordar que não há livrarias sem leitores. Ou melhor... sem gente que compre livros. 
Viajo bastante de metro e algumas vezes de comboio. Faço-o há muitos anos e apercebo-me que há cada vez menos  gente a ler livros durante os percursos. A maioria das pessoas vai agarrada ao smartphone a enviar mensagens ou a jogar, muitas vão grudadas ao telemóvel e são raras as que vão a ler um livro. E dessas poucas, nem todas lêem livros em papel. Noto mesmo que há cada vez mais pessoas a ler livros no formato digital. Logo, gente que não precisou de ir à livraria para os adquirir. 
Eu, consumidor compulsivo de livros, com mais olhos do que barriga ( leia-se sem tempo para ler todos os que vou comprando, ou recebendo de oferta) e que todas as semanas vai a uma livraria, constato que habitualmente estão quase vazias.  Vejo-as a fechar por toda a parte. não é só no Chiado. A única livraria decente  que havia em Cascais ( a Bulhosa, no Cascais Villa) fechou no mês passado. 
Faço rewind e tento lembrar-me da última vez que entrei numa livraria do Chiado. Foi ano passado, em Abril, quando fui ao lançamento do livro da Helena Ferro Gouveia, " Domadora de Camaleões".
Foi num final de tarde soalheiro, na livraria Ferin. 
A Ferin esteve mesmo para fechar. Foi salva ao soar do gongue por outra livraria, a Ler Devagar. Leio que vai ter um bar na cave. Ou seja, procura-se atrair consumidores de livros, oferecendo-lhes um bar. Não tenho nada contra, mas duvido que resulte. É que meia dúzia de metros acima há gente a comprar livros na FNAC mas, subindo a Garrett, encontro a Bertrand e a Sá da Costa às moscas.
Não há volta a dar. Os leitores que ainda compram livros são cada vez menos exigentes nos espaços e nas leituras. Passar umas horas numa livraria, já não é muito comum. Comprá-los, parece ser mais estimulante e mais barato no supermercado, onde abunda a literatura light.
As pessoas hoje em dia querem tudo light. Da Coca Cola ao iogurte, passando pelos filmes, pelas notícias, pelas séries televisivas, as pessoas fogem de tudo o que as obrigue a pensar. Perdeu-se a cultura da exigência. Até nos blogs, onde antes se reflectia, hoje a tendência é simplificar. Textos curtos e de preferência superficiais. E foi assim que  "virou moda" ler resumos dos livros, em vez dos textos originais.
 "É mais fácil, perde-se menos tempo, não temos de ler aqueles rococós todos e percebe-se na mesma a ideia do autor"- justificava há  dias um jovem,  durante uma "tertúlia" promovida por uma associação de estudantes.
As pessoas querem viver num mundo de facilitismo e  fantasia que as distraia da realidade. Nesse mundo talvez existam livrarias, mas dificilmente se encontra literatura. E ainda menos leitores...

16 comentários:

  1. Essa realidade que o Carlos tão bem descreve não tem direito a contradição. : )
    Também eu cheguei a passar muito tempo a procurar livros no Chapters – a maior rede de livrarias do Canadá. Agora frequento as bibliotecas. Ainda hoje passei por uma para levantar “The Cat’s Table” do canadiano Michael Ondaatje (“O Paciente Inglês”) no formato áudio embora já tivesse em casa no formato livro. Aquela “sucursal” tinha muitos utentes, a maior parte em frente dos computadores. As bibliotecas nunca estão “às moscas”; todas as faixas etárias estão representadas.
    Dou preferência aos livros digitais pelo rápido e fácil acesso que a internet me permite. Mas tb gosto dos áudios livros para os “ler” enquanto conduzo. De facto, se todos os leitores ávidos fizessem como eu, não haveria livrarias abertas nesta cidade.
    O meu filho, quando tinha uns 16/17 anos, comprou num ano 81 livros. Recordo-me porque fui eu que paguei por eles. De capa dura. : )) Hoje é utente da biblioteca; faz o download ( : ))) ) dos ebooks ou audiobooks para o seu telemóvel. Também joga jogos. Prefere usar os transportes públicos para ir para o trabalho porque lhe proporciona mais tempo para ler ou jogar! Tb se vai vendo cada vez menos pessoas a ler livros em papel, principalmente os mais jovens. E aqui tem dois representantes de duas gerações que aderiram “ao modernismo da leitura”.
    Sim, tudo é light salvo raras exceções. : )
    Confesso que tb gosto de posts light na blogosfera. Light, diretos e curtos. What can I say?!!! : )

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    1. Audiolivros enquanto conduz, Catarina? Eu sou mais parecido com o seu filho. Se puder viajar de comboio, em vez de carro, nem hesito, porque aproveito a viagem para ler. Bom FdS

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  2. Prefiro livros mas também gosto de ebooks.
    E tenho uma ideia um pouco diferente, parece-me que até poderá haver actualmente um maior número de pessoas a ler livros mas no formato digital por ser mais facilmente acessível.

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    1. É verdade, Gabi, que o preço também conta, mas o livro em papel continua a dar-me mais prazer.

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  3. Oh como concordo com cada palavra deste texto!!!

    Muito bem! É isso mesmo. (eu também "tenho mais olhos que barriga" no que toca à compra de livros... e depois como lê-los?! Enfim! O que vale é que temos duas filhas que adoram ler, portanto, nada se perde...

    Beijinho, Carlos.

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    1. Agora, que me reformei, tenho mais tempo para ler e vou diminuindo paulatinamente as resmas acumuladas no meu escritório
      Beijinho e bom FdS

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  4. Para mim um livro tem de ser em papel.Tenho muitos que não chegarei a ler, mas o toque, o local a memória visual é importante. e há muitos que gostaria de reler.
    mas também não entendo a política do preço dos livros. Na FNAC fazem sempre desconto de pelo menos 10%. Nas livrarias ao lado só se for professor. Já tenho preferido a FNAC por causa disso, embora eles não percebam nada daquilo. Agora quando vou a uma livraria digo que só compro o livro se me fizerem 10%. E tem resultado. Não sou forreta mas detesto gente que não sabe vender. Normas estúpidas não se cumprem. Como também já não gosto de confusões desde que encontrei a Wook, nem preciso sair de casa, e há dias com bons descontos e com portes grátis e eles até avisam poe e-mail.

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    1. Como compro (quase) sempre na mesma livraria, tenho descontos substanciais e, verdade se diga, a editora também me oferece bastantes.
      Nunca comprei um livro na FNAC, nem num supermercado. Talvez seja mania, mas não me dá jeito nenhum...

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  5. É um facto, Carlos !!!
    Já há alguns anos que tenho vindo a falar no fim do papel e chamam-me louco ! :(
    É um facto que os jornais já estão num declínio total com as suas próprias versões digitais ! Já não me lembro de comprar um jornal em papel !
    As próprias livrarias já estão a ditar o seu fim com as promoções (ridículas e constantes) a 25%, 40 e 50% ! ... As Feiras do Livro quase já não fazem sentido com tantas promoções quase semanais e se não numa, serão noutra, o que faz as pessoas pensar duas vezes se comprarão hoje ou se aguardam pela próxima "promoção" daí a dias , ou duas semanas!
    A transformação do papel em livros, atingirá custos incomportáveis dentro de pouco tempo, o que desmotivará a compra, sabendo-se que há a mesma obra digital !
    Eu prevejo o fim do livro para uma data não muito longínqua ! :( ... Claro que há quem sempre diga que não há prazer de leitura tal, como ter o livro na mão, mas isso será para uma pequena minoria ! :(
    A Gábi pode testemunhar a minha revolta contra as promoções permanentes, que só significam o princípio do fim das livrarias !!!
    As livrarias futuras serão tais como os actuais alfarrabistas !
    Abraço de lamentação, Carlos ! Chamem-me louco (para já) e mais tarde veremos ! :)

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    1. Concordo com tudo o que escreve, Rui, mas lembro-lhe que o Mc Luhan, em 1961, numa análise à evolução das comunicações já previa o fim do livro. Durante a minha pós graduação em Técnicas Editoriais, descobri que anteriormente ( em 1929!) Walter Benjamin já defendia "para breve" o fim do livro no modelo tradicional. É certo que isso se veio a verificar, mas não da forma drástica que ele previa.
      Admito que os novos hábitos de leitura, enraizados a partir de tenra idade, são propícios ao fim do livro em suporte papel. Em termos ambientais até será positivo, mas eu já tenho muita dificuldade em estar diante de um ecrã de computador mais do que uma hora por dia por causa da minha vista e, se não houvesse livros em papel, restar-me-ia fazer como a Catarina e recorrer ao audiolivro. Penso, porém, que rapidamente me cansaria. Gosto de parar, voltar atrás, eventualmente assinalar uma frase e com o audiolivro isso é mais complicado.
      Não lhe chamo por isso, louco, Rui, mas espero que o fim do livro não ocorra enquanto eu viver. Para digital já chega a música.
      Abraço e bom FdS

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  6. Esqueci-me de dizer que já bastam os computadores, no trabalho e por aí fora para nos dar cabo da vista. Era só o que faltava estar a usar leds para estragar mais a minha vista que já deu tantas voltas ao mundo.

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    1. assino por baixo, pelas razões que referi na resposta ao comentário do Rui

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  7. Acredito que as livrarias fechem por falta de clientes - é o que acontece em qualquer estabelecimento que não vende. E há, na verdade, muita gente que não lê; muita outra que não lê o que deseja mas o que lhe vem à mão, outra que lê mas não o tempo que gostaria...mas, lendo-se tão pouco, que se há-de fazer a tanto escritor que prolifera?! É que não vejo que os escritores diminuam. Talvez se passem para o digital. Mas é que nem sei se cabem lá todos. Du-vi-do.

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    1. Eu também duvido, Bea. É que por este andar virá o tempo em que toda a gente tem de publicar, pelo menos, um livro na vida.

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  8. Tanta hipocrisia, carlos.
    Muito tristes por verem chegar ao fim livrarias onde se calhar nunca puseram os pés.
    Livro tem que ser no formato tradicional.
    Ainda não aderia ao digital, não sei se alguma vez vou aderir.

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  9. As pessoas são curiosas. Não gastam dinheiro nas livrarias, nos cafés, nos cinemas, ou nos teatros, mas cada vez que se anuncia o encerramento de um desses estabelecimentos, vão para as redes sociais gritar Aqui d'el Rei e assinar petições, para impedir o seu encerramento. Até o Marcelo caiu nessa...

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