quinta-feira, 13 de abril de 2017

A minha Páscoa


Ainda sou do tempo em que Jesus  morria na quinta feira santa ( ou seria na sexta?)   ao meio-dia e ressuscitava no sábado ao final da tarde.( Mais tarde passou a ressuscitar às 15 horas e, hoje em dia, confesso que não sei o horário...)
Na sexta-feira santa  visitavam-se não sei quantas Igrejas, onde as imagens dos santos estavam todas cobertas por um tecido roxo. Nunca encontrei ( ou será que  não me lembro?) explicação para aquele ritual. Como também nunca percebi  a razão  de algumas rádios encerrarem e  a Emissora Nacional  só emitir música sinfónica. 
Em muitas casas, entre as quais a dos meus pais, também só se podia ouvir música clássica ( e mesmo assim muito baixinho), o que  fazia com que aquele dia se tornasse insuportável, salvo quando encontrava boas desculpas para ir estudar em casa de amigos cuja família não considerava heresia ouvir os últimos êxitos musicais.
Não menos dolorosa era a prova alimentar. Sexta-feira comia-se pouco e apenas peixe. Felizmente a senhora Ana, cozinheira que quase me viu nascer, apiedava-se de mim e encontrava sempre maneira de, às escondidas, ludibriar o black out alimentar a que a minha Mãe chamava jejum e abstinência.
 Ultrapassada a difícil prova de sexta feira santa, o sábado amanhecia mais prazenteiro, porque aparecia o pão de ló  na mesa e sabíamos que no final do dia já podíamos ouvir música.
Mal Jesus ressuscitava, os sinos de todas as capelas anunciavam repicavam, anunciando a Boa Nova.
Como num passe de magia, a tristeza desaparecia, as pessoas começavam a cantar Aleluía e eu ia com os meus irmãos e pais a casa dos meus avós partilhar o momento de Alegria.
Finalmente chegava o domingo. Alambazava-me  com amêndoas e pão de ló de Margaride, mas só depois de passar o "Compasso".
Para quem não saiba, o Compasso nada tem a ver com aquele instrumento de desenho. Este Compasso era um cortejo comandado por um padre que levava  vários acólitos. Um  anunciava a chegada tocando uma sineta,   outro transportava a cruz, um outro encarregava-se de "desinfectar" a cruz  entre ósculos, com um bocado de algodão embebido em álcool.
O "Compasso"  entrava nas casas que o queriam  receber, davam a  beijar a cruz, recebiam um envelope do chefe de família, que era depositado num cofre transportado por um outro acólito, comiam e bebiam "qualquer coisa"  e passavam à casa seguinte.
Na minha infância e adolescência assisti a "Compassos" no Porto, em Santo Tirso e em S. João da Madeira. Pese embora algumas diferenças entre eles (mais visíveis nas manifestações de Fé dos crentes que recebiam a cruz, do que no "modus operandi") tinham um ponto em comum: terminavam com um grau de alcoolismo dos participantes bem visível, sem necessidade de recurso ao teste do alcoolímetro.
A Semana Santa de hoje nada tem a ver com a do meu tempo. Já não se trocam presentes, o Compasso ( pelo menos nas cidades) passa quase despercebido,em várias localidades o "Compasso" passou a sair à rua "motorizado",poucos sabem o dia em que Jesus ressuscita ( quanto mais a hora...)  e as bebedeiras passaram a ser protagonizadas por jovens em praias espanholas, muitas horas antes da morte de Jesus.
Dizem que é sinal dos tempos, que já não há Fé como antigamente. Talvez... mas creio que a explicação mais verosímil é outra. No meu tempo gritava-se Aleluía que rimava com Alegria. Hoje grita-se Alelúia, que não rima com porra nenhuma.
Tenham uma Páscoa Feliz.

13 comentários:

  1. A habitual nostalgia do passado apoderou-se de mim ao ler esta crónica sobre a cultura tradicional num mundo em que a cultura é uma mercadoria.

    Eu, agnóstica ateista, tenho SAUDADES dos rituais partilhados na nossa juventude, Carlos.

    Aqui, na Sexta-feira Santa também somos obrigados ao silêncio: não há teatro, cinema, música, etc...

    Embora eu não coma nem carne, nem doces. Nem beba bebidas alcoólicas, um cházinho ainda tomo lá na Paróquia.

    Desejo-lhe uma Páscoa santa e tranquila, meu amigo. Vá comer uma fatia de pão de ló Margaridense no domingo de Páscoa no "ematejoca azul".

    Beijinhos muito doces.

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  2. Li a crônica curiosa pra saber tudo sobre esse ritual desconhecido para mim. Fui criada em familia evangélica e a Páscoa era bem mais tranquila em termos de alimentação _ todos se restringiam porque era comum mas nao que acreditassem que faria mal comer carne naqueles dias_Lembro que na minha casa não comíamos em respeito as tradiçoes _ficava bem claro isso pelos meus pais.Lembrávamos mais que era um período de comemorar a ressurreição de Cristo e a liberdade do povo da escravidão do Egito.
    As simbologias são curiosas interessantes e passadas de pai para filho_gosto disso!
    Gostei da sua partilha Carlos,tenha portanto uma bela Páscoa com tudo que tem direito e gosta.E que a Paz se restabeleça entre nós todos.
    abraços

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  3. Manifesto que gostei extraordinariamente do último parágrafo do post. É isso, é tudo uma questão de acentuação mas que despoleta muita coisa. Um acento é como aquele bater de asas de borboleta, que faz eco no mundo todo. E ponto que é final.


    Mas todo o post está uma delicada e realista lembrança. Suponho. Que nunca assisti a compassos nem copinhos de licor e fatias de bolo, nem padres, nem algodões desinfectantes. Nada. Digamos que só coincido nas horas da morte de Cristo (e não é bem) e mais no jejum e abstinência e na rádio e na TV que só passavam música clássica que eu ouvia sem saber o que era, mas me parecia muito mal ninguém falar. Dizia minha mãe que era respeito por Cristo morto, a que meu pai objectava fleumático, "parvoíces dos padres".
    Bom, na minha terra Cristo ressuscitava mesmo era no domingo de Páscoa e morria na sexta-feira Santa pelas 15 horas (de quinta à tarde a sexta às 15 era o martírio da paixão desde a estada no monte das oliveiras em que Cristo suava sangue tal a sua angústia pelo que se aproximava; toda a paixão de Cristo me impressiona ainda, se aquele homem não era Deus, era de certeza um ser excepcional; portanto, prefiro pensá-lo como Deus.
    Um pouco antes das quinze, minha mãe puxava-me para um crucifixo e ficávamos as duas de joelhos a rezar-lhe por alma, eu cheia de pena dele e mais da mãe que o viu morrer e a minha mãe julgo que ainda pior que eu, que quase chorava nesses momentos em que as pálpebras lhe baixavam pesadas. O que me intrigava era o dia de sábado, um dia como os outros em que já comíamos carne e tudo. Se Cristo ainda estava morto, por que carga de água aligeirávamos?! Nunca entendi isto. Claro que perguntei vezes sem conta, mas as respostas não me satisfaziam.
    E mesmo que não tenha sido numa quinta feira. E até que não seja Deus - para mim é - faz anos em qualquer altura que Ele padeceu e sofreu como tanta gente inocente. Tanta gente que carrega a sua cruz pesada caminho fora para dela morrer e sabendo que ela a mata.

    Somos uns felizardos, há sofrimentos incríveis no mundo.

    Boa PÁSCOA!

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  4. Mudam-se os tempos ...
    Uma Páscoa Feliz!

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  5. A minha versão acerca de quando Jesus morreu e ressuscitou coincide com a da Bea... morre na Sexta e ressuscita no Domingo. Os tempos e as práticas vão mudando... Não acho errado que as pessoas tenham desenvolvido algum sentido crítico e resistência àquelas práticas muito penitenciais e mórbidas. Gosto, como defende o nosso querido Papa Francisco, que se faça jejum não de comida, mas de más palavras e de más ações. Apesar desta simpatia pela mudança dos tempos, fica ainda assim a pena e a nostalgia de tempos que, embora mais pobres, eram mais alegres na sua simplicidade e pureza...

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  6. Desejos de uma Boa Páscoa, com Aleluía e Alegria =)

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  7. Tenho ideia que por aqui ainda passa o Compasso e que aqueles que o querem receber enfeitam a entrada das casas com flores.
    Obrigada, uma Boa Páscoa também
    e um beijinho

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  8. Fui procurar no Google a razão:
    "O sentido profundo desse ato de cobrir as imagens sacras, fundamenta-se no luto pelo sofrimento de Cristo Nosso Senhor, levando os fiéis a refletir, ao contemplar esses objetos sagrados cobertos do roxo, que simboliza a tristeza, a dor e a penitência. "
    http://www.catolicismoromano.com.br/content/view/1688/29/

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    1. Obrigado pela explicação, Gabi. Na verdade, quando a minha Mãe me levava pelas Igrejas eu também reflectia, mas era sobre outras coisas. A dúvida que me assaltava e também a hora de regressar a casa :-)

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  9. Era assim mesmo lá em Algés e em Sintra nesses tempos idos. Só não conhecia essa do "Compasso" - devia ser "moda" do Norte.

    A música clássica e estar tudo fechado era sinal de luto pela morte de Nosso Senhor. Vestia-se de preto e os homens punham gravata preta e/ou um fumo preto na manga do casaco ou na lapela. Um exagero!!!

    Boa Páscoa, Carlos.

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  10. Também me lembro do Compasso das colchas nas janelas de beijar o crucifixo e sobretudo do Padre a petiscar :))
    Feliz Páscoa.

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  11. Então, Carlos, está confuso quanto ao horário?!!! : )))) Não pude deixar de rir.
    Sabia o que era o Compasso. Creio que lá para o sul (não sei neste momento se me estou a posicionar geograficamente onde me encontro, se a partir do lugar de onde o Carlos escreveu este post) não era habitual. Lembro-me apenas das procissões. Dos “contratos” que se faziam entre amigas/amigos e que as vencedoras ou vencedores recebiam saquinhos de amêndoas de rebuçado muito duras! Só se encontram essas amêndoas nos supermercados portugueses. Os canadianos não têm esse hábito. Preferem os ovos ou os coelhos de chocolate. Não há criança que não conheça a história do coelhinho da Páscoa.
    Boa Páscoa, Carlos.

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  12. só ouvia musica classica? para além disso ouvia-se o relato do hoquei em patins.

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