segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma semana nas quintas



A minha madrinha vivia na Avenida 5 de Outubro em Lisboa, mas tinha uma casa no Lumiar para onde ia nas férias. Fui lá apenas umas duas ou três vezes, porque no Verão as minhas paragens eram outras, mas recordo-me da imensidão de verde  que a rodeava.
Quando vim viver para Lisboa, o Campo Grande ainda era uma fronteira de Lisboa e o  Lumiar era uma zona limítrofe onde apenas ia para passar uma noite no Caruncho ( quantas noites percorremos a pé a Alameda das Linhas de Torres depois de o Caruncho encerrar, por volta das 2 da manhã), para estudar com uma colega de Direito que vivia num lar ali para as bandas da Rainha D. Amélia ou para ir a umas festas a casa de uma prima do meu melhor amigo de infância.
Tal como a minha madrinha, ela vivia num casarão enorme e as festas eram muitas vezes animadas com sessões fadistas, pois a Teresa Tarouca era da família e levava muitas vezes amigos que, com ela, cantavam o fado. Era uma maneira de entreter os adultos e permitir que a malta nova se divertisse em paz, mas eu e mais alguns amigos com frequência abandonávamos a "malta" e íamos para junto dos "velhotes" ouvir cantar o fado.
Em 1974, o Lumiar seria a minha residência durante os três meses em que estive a cumprir serviço militar na EPAM,  mas foi por mero acaso que um dia comprei aí casa. 
Nada tinha que lá me ligasse nos anos 80, mas razões profissionais obrigaram-me a arrendar uma casa em Lisboa ( quem se lembra das greves de comboios nos idos de 70 e 80 perceberá porquê) e a oportunidade  mais célere e económica foi na Quinta de Santa Clara, perto do Caruncho, já então em declínio. Mais tarde viria a comprar a casa num "negócio de ocasião" a que se sucedeu um outro anos mais tarde. E embora a viver  fora do país a maior parte do tempo, por lá fui ficando. De quando em vez lembro-me da quinta da minha madrinha ( hoje transformada em condomínio privado) e das famosas festas em casa da Amália ( não a fadista, mas sim a prima do meu amigo de infância)

Vem isto a propósito da Lisbon Week que está a decorrer desde sábado e até 2 de Abril na freguesia do Lumiar.
É uma oportunidade excelente para conhecer melhor um bairro que mantém algumas características de urbanização periférica e onde o betão em altura  substituiu muitas  quintas e palacetes da zona. Continua, no entanto, a ser uma zona com história muito rica, que justifica as actividades e visitas culturais organizadas pela Junta de Freguesia em colaboração com a Gray Line.
Ficará certamente a saber muitas curiosidades. Como, por exemplo, que a origem do nome da contígua freguesia da Ameixoeira, nada tem a ver com ameixas, mas sim com amêijoas. É que em tempos o mar chegou ao Lumiar e o lugar onde as amêijoas  eram mais abundantes deu o nome à extinta freguesia da Ameixoeira. 


Visitar o Palácio Angeja (onde se alojam actualmente os museus do Traje e do Teatro), um passeio terapêutico pelos jardins, do Parque do Monteiro Mor, conhecer as obras de  Arte Urbana da autoria de Vhils, Ad Fuel ou  Felipe Pantone, entrar em igrejas e conventos centenários, ou ter a possibilidade de desfrutar de um fim de semana no templo hindu Radha Krishna, com visitas guiadas e actividades, são algumas das propostas desta Lisbon Week.


Para mim o prato forte será, porém, a visita às Quintas do Paço do Lumiar. Muito especialmente à Quinta dos Azulejos ( onde hoje está instalado o colégio Manuel Bernardes) que abrirá excepcionalmente ao público durante os dois fins de semana. Dizem-me que a azulejaria é fantástica mas, as histórias que as quintas encerram, não o são menos.
A Lisbon Week  inclui também uma exposição de fotografia, serões musicais e um ciclo de cinema. Espero ter despertado o vosso interesse, mas o melhor é visitarem o site da Lisbon Week para ficarem melhor informados sobre o que se irá passar no Lumiar durante esta semana e, se for caso disso, fazerem as vossas escolhas.

6 comentários:

  1. Muito interessante. Conheci bem o Campo Grande entre 64/67, por ter vivido aí perto.

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    1. 67 foi o ano em que vim viver para Lisboa, Elvira. Fui morar na Av 28 de Maio, hoje das Forças Armadas.

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  2. Muito obrigada, Carlos!
    Eu já tinha escrito na agenda e mesmo assim não me tinha apercebido que já tinha começado...
    Há muitos pontos de interesse vou fazer os impossíveis para ir.
    bjs

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  3. Do Lumiar, na juventude, conheci a cantina universitária que ainda existe e o Hospital D. Amélia. Na verdade tenho saudade do espírito dessa que fui. Ainda que já seja bom ter sido.
    Não sabia que era zona com tanta história e quintas assim bonitas e antigas. Terei de ver se consigo apanhar alguma coisa. Ou não.
    Obrigada pela lembrança.

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  4. Com o sábado super ocupado, não me foi possível ir tomar o Chazinho com o Carlos, mas venho agora ver as Quintas por onde passou e as memórias da juventude. Caso para dizer: Que boa era a vida de Lisboa.
    Quanto à Lisbon Week há que desfrutar, pena eu estar tão longe.

    Obrigada, Carlos. Um abraço.

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  5. Essas quintas são de uma beleza extraordinária, Carlos.
    Se algum dia voltasse a Portugal era bem capaz de procurar algo do género para tentar comprar.

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