terça-feira, 21 de março de 2017

Querem mesmo saber?




A CGD vai encerrar entre 150 a 200 balcões. "Imposição de Bruxelas", dizem eles. 
Nem vou dissertar sobre a ignorância de quem decide em Bruxelas sobre o que é melhor para o banco público português. Isso implicaria que os decisores eurocratas conhecessem a realidade portuguesa e decidissem de acordo com ela, em vez de mandarem bitaites a partir dos seus gabinetes com base em folhas de cálculo. Não vou por aí. Atenho-me ao que se passa por cá, para  responder a uma pergunta que nos últimos dias  tem sido formulada à exaustão por portugueses  que deveriam conhecer o país: quem é que hoje ainda vai a um balcão?
Na maioria dos casos,  a pergunta tem sido feita por portugueses com assento nos programas de televisão e nas colunas opinativas da  imprensa, num tom que prenuncia resposta à Frei Luís de Sousa: (Quase) Ninguém.
Cumpre-me informar esses ilustres cidadãos portugueses que no interior do país só conhecem os hotéis de luxo onde se hospedam alguns  fins de semana por ano para poderem dizer que visitam o país que estão muito enganados e têm memória fraca. Se a tivessem saudável lembrar-se-iam, por exemplo, dos protestos da população de Abrantes  contra o encerramento da CGD. Foi só há um ano, meus caros desmemoriados!
Tenho ainda a penosa missão de lhes lembrar que desconhecem o que é a desertificação do interior e nem imaginam que haja gente a viver em locais sem acesso a qualquer serviço público, num raio de 50 ou mais quilómetros, como se estivessem no século XIX. E é gente que paga impostos, porque deles não sabe fugir, como alguns opinadores da nossa praça.
Descansem, no entanto, os entusiastas das medidas economicistas que estão a corroer a sociedade e a transformar os seres humanos em meras peças de um  tabuleiro de monopólio, porque não vou invocar o argumento dos velhinhos isolados em locais recônditos, para defender a existência de um balcão que atende cinco clientes duas vezes por ano. 
O exemplo que vou apresentar para responder à pergunta tantas vezes formulada nos últimos dias pelos adeptos do economês e  da modernidade tecnológica fica mesmo em Lisboa, outrora capital do Império e hoje cidade subalterna da UE, visitada por milhões de turistas embevecidos com tanto tipicismo ancestral.
Recomendo aos comentadores, analistas, colunistas e opinadores que visitem o balcão da CGD no Lumiar e se espantem com o movimento diário e as filas que por lá se formam em alguns dias do mês. Talvez depois deixem de fazer perguntas estúpidas e percebam que o país que eles conhecem não é o mesmo de que falam nas suas intervenções públicas.

6 comentários:

  1. Esta crônica do rochedo
    Da desertificação
    Vendo gente da nação
    Portuguesa a estar com medo

    Quase exposta ao degredo
    Dá-me angustia me assusta
    Por qualquer justiça injusta
    E culmina com o meu medo

    Portugal me é o pedaço
    Faltante do meu espaço
    De pátria no meu país

    De português eu me faço
    Sendo brasileiro a um passo
    De dois em um ser - por triz.

    Grande abraço, amigo! Gostei imensamente do espaço e voltarei sempre. Parabéns! Laerte.

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  2. Carlos, as pessoas esquecem-se que os reformados que antes recebiam pelo correio, passaram a invadir os balcões da cidade e um dos piores dias é o dia 10 de cada mês. os Correios depois de privatizados deixaram de querer lá os velhos e deixaram de receber os pagamentos de telefone, água, luz, etc. Até retiraram os bancos das novas instalações. E os reformados muitos deles com cartões de débito agora vão confraternizar para as dependências da CGD. Muitos até vão acompanhados com familiares para lhes sacarem logo o dinheiro. A minha avó paterna que morreu com 96 anos, a pensão sempre lhe foi creditada na conta. Ainda não havia cartões, mas só iam à Caixa (quem tinha autorização) com a caderneta, quando era preciso e nem iam todos os meses.

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  3. Aqui na minha vila até há três luxuosas agências algumas, feitas não há muito tempo, que até já fecham à hora de almoço, porque não têm movimento, nem pessoal. Falando de luxo vale a pena pensar no luxo e esbanjamento que foi a construção da sua sede na Av. João XXI, aliás abrange quase um quarteirão. Quem promoveu e adjudicou aquela obra devia ser responsabilizado criminalmente. E mais triste ainda é que aquele edifício já não pertence à CGD, pertence ao Fundo de pensões dos seus trabalhadores para garantia as sus reformas, e que ainda hoje se fartam de esbanjar dinheiro com tantas regalias. Não falo da Culturgest, que nem sei como é gerida nem as mais-valias que traz para a cultura, mas nas regalias extra que têm os seus trabalhadores e reformados, comparando com os outros. o BdP também dá muitas, mas a maioria também não sabe. São oásis no meio do deserto.

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    1. Não nego a importância da Culturgest, mas concordo consigo em relação à obra faraónica. INADMISSÍVEL!

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  4. Quando se passa a vida a olhar para o umbigo esquece-se o que se passa à volta, Carlos.
    E esquece-se que ainda há MUITA gente, arriscaria sobretudo os mais idosos e com menos habilitações literárias, que ainda se desloca aos balcões dos bancos.
    Mais, vai para falar com o senhor X ou Y que já conhece há muitos anos, em quem confia, e com quem trata de todos os assuntos.

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    1. E isso mesmo, Pedro. As pessoas encerradas em gabinetes não percebem a importância desse contacto pessoal, quase familiar.

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