sexta-feira, 3 de março de 2017

Esclarecimento sobre a Geração Ritalina



A  propósito do meu post "Geração R" recebi este comentário de um leitor ( médico psiquiatra) que é bastante esclarecedor e merece ser divulgado a todos os leitores. Assim, com o conhecimento do autor, transcrevo o comunicado e aproveito para agradecer aos atentos e colaborantes leitores que aportam a este Rochedo. Bem hajam! 

"Este tipo de medicamento só pode ser adquirido com receita médica e é utilizado em crianças com Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA).

Sobre este tema há três grandes correntes na classe médica:

1 - a que utiliza metilfenidato com frequência exagerada e abusa do diagnóstico.

2 - a que utiliza o metilfenidato com mais contenção e diagnostica com critério mais fechado.

3 - a que rejeita qualquer tipo de medicação e põem reservas ao diagnóstico (escola ligada à psicanálise), defendendo o tratamento psicológico exclusivo.

Só quem tem um filho com essa doença sabe avaliar, com adequação, este problema.
Conheço famílias que se desfizeram, crianças que foram bombos da festa, que abandonaram a escola, por falta de diagnóstico e tratamentos correctos.

Para escrever este comentário conversei com uma amiga, médica especialista na área, reformada, que trabalhou mais de 30 anos na área do desenvolvimento e seguiu dezenas de casos, sendo muito criteriosa no diagnóstico, ela própria fazia e avaliava os vários testes necessários, (para os poder aplicar teve de tirar cursos específicos), e medicava de forma comedida, só a partir dos seis (6) anos.

Para se fazer o diagnóstico correcto é necessário que os professores e famílias preencham um questionário próprio, o médico faça a história clínica exaustiva, uma observação prolongada e vários testes específicos. Conjugando toda esta informação é que se chega ao diagnóstico.
O diagnóstico não se faz em 10 minutos de consulta.
Se for hiperactiva só na escola, ou só em casa, não pode ser diagnosticada de PHDA.
Muitas crianças irrequietas, mal-educadas ou mimadas poderão ser erradamente catalogadas.

Não calcula quanta melhoria na aprendizagem, na harmonia familiar e no bem-estar da criança se consegue quando correctamente ajudada.
Como em tudo, sensibilidade e bom senso são necessários.

Quanto a esse psiquiatra seria conveniente que ele tivesse dito a que escola pertencia...

Voltando aos pais que dão metilfenidato aos filhos de 2 ou 3 anos: isto é um profundo erro, mas pode ser fruto de ignorância, de facilitismo, ou de erro médico.

Em tempos, estes medicamentos só podiam ser receitados por Psiquiatras, Pediatras do Desenvolvimento e Neurologistas (Neuropediatras). 
As receitas eram requisitadas em nome pessoal, ficavam registadas na DGS, e cada receita tinha uma cópia que ficava em poder do médico, para futuro controlo.

Presentemente qualquer médico os pode receitar, levando aos erros descritos.

Em última análise o erro também foi dos governantes que “liberalizaram” a prescrição destes medicamentos (e outros).

Declaração de interesses: sou psiquiatra de adultos, reformado, e nunca tratei crianças com PHDA. Segui clinicamente adultos com vida desestruturada, tendência a acidentes, consumos de drogas ilícitas (álcool e outras), mudança constante de empregos, comportamentos impulsivos, que tinham provável PHDA em criança.
Se tratados correctamente em devida altura, poderiam estes comportamentos ser grandemente minoradas ou inexistentes.
Não devemos esquecer que a medicina é uma ciência empírica, em constante evolução.
Hoje já podemos comer um ovo por dia, há uns 2 ou 3 anos era um por semana.
Amanhã como será?"

3 comentários:

  1. Se os clínicos, comprovadamente, não resistem a receitar a ritalina a garotos vivaços de mais e sem patologia que se saliente, talvez o governo devesse voltar atrás na legislação. Acredito piamente que a medicação resulte em casos de doença comprovada. Ouvi relatar casos de distúrbios comportamentais perturbantes e que com a dita substancia se suavizaram.
    Um obrigada ao psiquiatra que nos esclareceu e ao Carlos que postou a resposta. Então, não a lera.

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  2. Muitos dos casos que relataram surgiram de pais que se viram obrigados a dar a medicação aos filhos porque caso contrários eram expulsos das escolas porque davam muito trabalho. Eu resolvi calar-me sobre este assunto porque conheço vários casos em que não se justificava a medicação. E não foram efectuados testes nenhuns para receitarem os medicamentos. Por outro lado estes medicamentos podem ser obtidos com a maior facilidade na net. eu também era muito activa, jogava os lápis para o chão para a professora não me ver rir, mas podia jogar à macaca, saltar à corda, correr pular paredes, partir a cabeça, andar de bicicleta sem travões. não estou a falar de casos realmente considerados patológicos. Sempre os houve. não é a vitalidade duma criança, não medicamentada, que a transforma num adulto que precisa de ir ao psiquiatra para ele lhe dar um antidepressivo e uma benzodiazepina, ao mesmo tempo, para ficar tudo na mesma. Por outro lado as farmácias querem é vender, mesmo sem receita. Até conheço quem pedia que lhe trouxessem medicamentos só fornecidos nos hospitais porque ficavam de borla. E fico-me por aqui.

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  3. Ainda assim acho uma violência tratar crianças com calmantes.

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