sexta-feira, 31 de março de 2017

Caderneta de Cromos (59)



Meu caro Rentes de Carvalho. Você tem a honra de ser o primeiro escritor a entrar para esta caderneta. Aviso-o, no entanto, que a sua admissão não se deve ao facto de você ser um crápula, mas sim por ter despertado uma gigantesca onda de indignação nas redes sociais.
Não sei se era essa a sua intenção quando, numa entrevista, disse que ia votar na extrema direita holandesa, porque eles nunca poderiam formar governo e era preciso agitar as águas para  sair do marasmo em que a Europa está mergulhada.
Eu percebo o seu ponto de vista, mas permita-me dizer-lhe que considerei essa afirmação deplorável e muito naif. 
Não alinho com os que insinuam ser a sua afirmação fruto da senilidade. Pelo contrário, acredito que sabia muito bem a alhada em que se iria meter. Não sei se conseguiu o efeito pretendido mas devo dizer-lhe que não tinha necessidade de ser tão radical. Pôs-se a jeito e a turba não lhe perdoou
Numa coisa, porém, estou consigo. A onda de impropérios que lhe dirigiram nas redes sociais, o rasgar de vestes e a quase unanimidade sobre a falta de qualidade dos seus livros ( aposto que muitos nem sequer sabem o título de um dos seus livros, quanto mais lê-los...) demonstra que a esquerda tuga usa consigo exactamente os mesmos critérios de "saneamento"  com que a direita colocou Saramago no Index.
Quero dizer-lhe que o descobri apenas há meia dúzia de anos e só li quatro dos seus livros. Bastava no entanto ter lido "Ernestina" para  nunca o colocar no Index dos escritores proscritos. Já passei a idade dos radicalismos ideológicos e sinto-me bem assim. Então por que raio o coloco nesta caderneta? perguntarão os leitores.
Porque um escritor consagrado  ( mesmo que seja de direita, mas não extremista) nunca pode proferir publicamente o seu apoio a um grupo fascista, nem esquecer a sua condição de emigrante. Logo, que é um alvo da extrema-direita.
Por outro lado, devia saber que o país onde vive é, juntamente com a Alemanha, um dos que mais detesta Portugal e não admite sequer a ideia de que os portugueses possam ser um povo feliz.
Os seus leitores portugueses mereciam um pouco de solidariedade.

8 comentários:

  1. Muito bem dito. Melhor seria fazer chegar ao escritor português esta sua crónica. Para que refletisse. Bom fim de semana e votos de continuação do seu mais que pertinente espaço de crítica. Felicidades

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  2. "Crápula", Carlos?
    Desculpe, mas não havia necessidade. :(

    Uma coisa é o Carlos manifestar o seu desagrado, outra é chamar à colação a opinião e as injurias, contra o escritor, daquela sanha que grassa nas redes sociais, nomeadamente, no facebook. Basta erguer-se uma voz discordante e vai tudo atrás, como se fossem todos supra sumos dos assuntos em questão.
    Gosto do escritor J. Rentes de Carvalho, não posso dizer se gosto ou não do cidadão, por desconhecimento do seu carácter. Ditos infelizes? Quem os não tem?

    Um abraço, Carlos.
    Bom fim-de-semana.

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    1. Leu bem, Janita? Eu escrevi exactamente o contrário do que a Janita leu. Ora leia lá outra vez : "Aviso-o, no entanto, que a sua admissão não se deve ao facto de você ser um crápula, mas sim por ter despertado uma gigantesca onda de indignação nas redes sociais"
      E, tal como a Jnaita também eu gosto do escritor e critico as redes sociais pela forma como o trataram. Vá, faça-me o favor de ler outra vez com mais atenção e conclua que foi precipitada.
      Abraço e bom FdS.

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    2. Voltei a ler; agora com a atenção e o tempo que estes escritos requerem, e acabo por constatar que dei o adjectivo, expressado de uma forma afirmativa, Carlos. Peço desculpa.

      Como nota de rodapé, e embora saiba que isso não lhe interessa minimamente :) o meu filho também vai viver definitivamente, para a Holanda...:)

      Outro abraço.




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  3. A aproximação de Rentes de Carvalho a Geert Wilders não me surpreende.
    Porque será?

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  4. Assertivo postal. Não admito que as pessoas brinquem com o seu voto para pôr em perigo a vida dos outros. Se calhar ainda virá a Fátima, no 13.05, de mão dada com a Zita Seabra.

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  5. penso que algumas pessoas puseram Saramago no Índex talvez porque, como eu é-me muito difícil separar a obra do criador. E muita gente não esquece que ele deixou sem pão, dum dia para o outro, 15 jornalistas do Diário de Notícias. sabe que a dona Pillar del Rio agora também é administradora da "media Capital"? Eles nunca olharam aos meios para conseguir os objectivos.

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  6. Nunca ligo as palavras e os romances ou outros escritos à vida pessoal e aos princípios e leis que orientam a acção de um escritor. Gosto do escritor Rentes de Carvalho e digo-o porque já li uma meia dúzia de livros dele e conto ler os restantes se a vida me deixe. E sim, também li "Ernestina"
    As opiniões particulares do senhor podem ser infelizes, não foram, essas especificamente, as que eu gostaria, mas entendo que um homem que escreve e tem a idade dele pode dar-se ao luxo de dizer como sente e o que pensa fazer. Afinal, até Sartre, na sua última entrevista, desdenhou da angústia existencial e de princípios filosóficos que sempre defendeu. Significa que caiu por terra tudo o que fez? Que estava senil? Nada disso. Sobretudo acho que se divertiu a baralhar as massas. Quanto a Rentes de Carvalho, julgo que apenas foi honesto e, como ele mesmo disse, não pensou nos leitores. Pensa nos leitores quando escreve para eles. É um ponto de vista. Não comungo dele. Mas não sei se não deveria ter escrito, "não comungo, ainda, dele".
    E Deus dê vida ao escritor que os escribas de FB depressa esquecem e apeitam outro assunto. Indignação de FB é manteiga em focinho de cão.
    Tenha um dia BOM. Um Domingo dos eleitos.

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