segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Venha a nós o Vosso Reino



Fui surpreendido por uma polémica em torno de um livro de Valter Hugo Mãe recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para estudantes do 3º ciclo.
Nunca li o livro ( devo mesmo confessar que desconhecia a sua existência) mas os telejornais deram-me a conhecer algumas palavras e expressões vernáculas usadas pelo autor. Claro que não tiveram a preocupação de contextualizar, para que percebêssemos melhor como (porque) tais palavras e expressões foram utilizadas. Se o fizessem, talvez a peça"informativa" perdesse impacto e o importante no jornalismo hodierno é CHOCAR!
Fiquei também a saber que os pais dos alunos ficaram indignados com a recomendação de um livro que recorre ao palavrão para explicar a nossa História e exigiram a sua retirada imediata do Plano Nacional de Leitura.
Face ao que ouvi/li nos telejornais concordo que a linguagem utilizada é bastante ordinária mas, de imediato, me apeteceu perguntar aos pais se eles alguma vez tinham entrado no recreio da escola, ou ouvido uma conversa dos filhos com os amigos. É que todas aquelas expressões e palavrões que vi/li no telejornal da noite são não só conhecidas, como frequentemente usadas por jovens daquela idade. 
Antes de formular a questão neste post fui esclarecido. Afinal os pais sabem que os filhos conhecem aquelas palavras e expressões. A sua indignação não se deve ao facto de Valter Hugo Mãe as ter usado no seu livro mas sim porque consideram errado que os filhos tenham de responder a um professor que lhes pergunte o significado de palavras como “rata” ou “pic..”.Fiquei esclarecido.
Entretanto, o  PNL  "corrigiu o erro" e o livro “O Nosso Reino”  passou a estar incluído apenas na lista dos livros recomendados para o secundário. Não era preciso tanto alarido por causa de um livro, mas Valter Hugo Mãe deve estar  muito agradecido pela publicidade gratuita que fizeram ao livro. Quanto aos jornalistas  que descontextualizaram as palavras e expressões, devem estar muito satisfeitos com o impacto que a notícia teve nas audiências.

Só me apetece dizer, utilizando o mesmo método:
"Estrelinha que os guie, ca§£i#h0 que os f€§a"

17 comentários:

  1. Está cada vez mais difícil acreditar nas notícias sejam elas quais for!
    A manchete de segunda é desmentida na terça e por aí vai...mentem-nos em todas as frentes e ainda se admiram com o resultado das eleições!!!!
    Sinto que nos querem e por vezes conseguem, manipular: nojento.
    bjs

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  2. Este assunto foi debatido neste programa http://www.rtp.pt/play/p3046/e272079/o-ultimo-apaga-a-luz .Este foi o primeiro livro publicado por VHM. Sá a Inês Pedrosa levava o livro e fez a contextualização. Até o seu amigo Joaquim Vieira não esteve de acordo.
    A hipocrisia cada vez é maior e se calhar são poucas as crianças que não conhecem este palavreado e algumas não façam coisas aqui referidas. É caso para dizer que estes pais não passam de uma cambada de pute...

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    1. Mas a questão é se as crianças conhecem ou não os palavrões?! Oh com franqueza.

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  3. Este caso fez-me lembrar uma vez em que eu teria mais ou menos esta idade e tive a ousadia de pedir ao sr. da
    Biblioteca itinerante da Gulbenkian se tinha o livro "Loira Dolicocéfala2 de Pitigrilli. O homem ia tendo um desmaio e "obrigou-me a mentir" e dizer que o livro não era para mim. Claro que a primeira coisa que fiz foi comprar o livro mal pude. Outra vez, já no superior estavam uns meus amigos na sala de Associaçõ, todos na galhofa a passar de mão em mão o Livro "Um Equívoco de cem dólares". Pedi para ver e não me deixaram porque não era próprio para mim. Pouco tempo depois, ia eu na Rua da Rosa, quando vejo na montra dum alfarrabista o tal livro. Claro que comprei e li logo. Achei bastante interessante pois tratava-se apenas do relato dum episódio, feito por uma prostituta e um universitário, sobre uma relação que houve entre eles. Apenas mostra a diferença de classes e as maneiras de pensar.

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  4. Vou só dizer uma coisinha porque para esse peditório já dei. Concordo que o livro seja recomendado apenas a alunos do secundário. Mas a coisinha que quero dizer nem é esta. É apenas: em questão não está se os alunos sabem ou não os palavrões. Porque os sabem. Nem se os pais ou os próximos os dizem (que dizem e também não deveriam). O que julgo é que há idades para um livro escolar os apresentar. E ainda concordo mais se não os apresente. E tanto me dá que se fale do realismo do texto, do contexto e do que for. Sou por princípio contra palavrões e baixo nível e não me parece que sejam necessária leitura educativa.
    E li O nosso Reino.

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    1. Bea, Eu sei que tem lido muito na vida e que escreve muito bem, mas tenho a certeza que o "Seu reino não é deste mundo". Acho que sempre andou a flutuar "sobre um manto diáfano da fantasia". Para mim dizer uma palavra a que chamam palavrão é a coisa mais natural deste mundo. Se eu disser a uma pessoa"ai és tão querida!" é porque me apetecia chamar-lhe FdP. Dizer uma asneira é uma forma de expressar um sentimento, que pode ser de alegria ou de tristeza. Comigo não há hipocrisias nem falsos moralismos. Quem assim age para mim é um sacana. Não digo mais nada porque o blogue não é meu. A coisa que mais me irrita é ouvir um bip, no lugar de uma palavra.
      Como disse a Raquel Varela os pais não se importam de ligar a tv de manhã cedo, aos fins-de- semana, para os filhos estarem entretidos a ver bonecos animados violentíssimos para eles dormirem mais um bocadinho. Este mundo é mesmo um mundo imundo, até nas cabeças mais limpas e assépticas.

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    2. Na minha cabeça o que os pais fazem de mal não desculpa o mal de um livro em algumas idades e nem tem a ver. Ou só tem porque se eles erram, a escola deve errar menos porque tem a seu cargo um universo maior. São coisas distintas. Não é porque os pais agem mal ou as crianças conhecem os palavrões que os livros escolares ou aconselhados os devem repetir, eles ensinam a correcção da escrita e do pensamento e têm uma vertente também formativa que não podem perder de vista. Tal como não é porque se mente ou se rouba que livros escolares devam fazer a sua apologia. A escola forma o carácter e não é porque o vernáculo existe que algum dia concordarei em que seja dado como exemplo de linguagem a quem ainda aprende a construí-la no que se pretende seja rigor e respeito pela língua.
      Não há autoridade que me faça mudar de ideias seja ela quem seja que venha em defesa desse livro do sétimo ao nono ano.
      E cabeças limpas não são assépticas isso só existe em meios laboratoriais e muito dados a artificialidade, os homens são outra coisa. Também não me considero assépticas. Mas há transigências que em instituições educativas como a escola, não são admissíveis.

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  5. Anfitrite tem razão. São termos que os jovens conhecem e usam entre eles não vindo daí mal ao mundo. Faz parte do seu crescimento e aprendizagem da vida. Mas há pais que assim não o entendem e preferem ter os filhos numa redoma de vidro, talvez.

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    1. Filhos esses que são capazes de ser estuprados e os pais nem dão por isso, ou nem lhe dão abertura para eles falarem dum problema que tenham.

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    2. Mas que coisa. Continuam a misturar alhos com bugalhos. Por mim está o assunto encerrado.

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    3. Apesar do assunto para si estar encerrado eu juro que ainda não desisti de perceber porque razão sempre que se trata de crianças a bea fica sempre fora de si. Há ai um trauma que eu ainda não consegui descortinar. Mas não compreendo porque se preocupa mais com uma criança sã, saudável e protegida do que com um idoso incapaz de se manter a si próprio. Não há ninguém que não goste duma criança ranhosa, mas os velhos por mais que se, ou os lavem cheiram sempre mal. Ainda hoje soube que morreu a mãe duma amiga minha, que estava num lar, que ela considerava bastante bom, a mãe parecia estar confortável todos os fins- de-semana que ela lá ia, mas afinal nos últimos tempos foi parar ao hospital além de problemas de respiração e de feridas no corpo que no hospital detectaram que era sarna. A neta que meteu baixa para tratar dela, teve de ir comprar um manipulado na farmácia indicado pelo médico assim como teve de ferver toda a roupa que usou e desinfectar tudo para se poder aproximar dos três filhos que tem. Sabia que ainda existia sarna nos lares de idosos? eu estive num onde tiveram de desinfectar todas as camaratas, com um produto tóxico que na altura ainda se vendia, que era usado para desinfectar entre outras coisa cavalariças. E, até tinha um problema: é que tornava o pavimento muito escorregadio, o que aumentava o risco de quedas...

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    4. Deixe-se dessa tralha de traumas, Anphy. Atire fora que me dou mal com a linguagem que me faz vítima.
      As crianças são o futuro e temos o dever de as proteger, se não bem, o melhor que pudermos e soubermos. E não as ponho em redomas nem me preocupo mais com elas que com os velhos, cujos, em geral, acho bem injustiçados. A velhice, nas suas componentes várias, já é uma injustiça. Não precisam os homens de, por suas mãos, tornar esta fase da vida ainda mais humilhante.
      Desconheço lares de idosos com camaratas. Têm quartos. Mas já dormi em camaratas infantis e de jovens. O que não havia era sarna.
      Bom. No lar que conhece ou conheceu foi uma mortandade daquelas. Quem não morreu de morte natural morreu de sarna ou de escorregar e partir um osso qualquer.

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  6. Ai estes paizinhos, armados aos cucos e aos bem educadinhos... Calhando, esses paizinhos dizem esses e outros impropérios... E são desinformados porque estes livros NÃO SÃO DE LEITURA OBRIGATÓRIA!! Há uma lista de livros recomendados para os alunos escolherem um que apresentam à turma em 3 a 5 minutos. Não dá para «terem de explicar ao professor» o significado das palavras. Nem dessas, nem de outras!! Ai, ai!!!

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  7. Explicar o nosso reino em 3 a 5 minutos é não dizer quase nada. Mas exige que se leia. E a questão não é ter de explicar ao professor as palavras. Ao contrário, é o perigo de lê-las sem aperceber o verdadeiro valor de ali estarem.

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  8. O autor agradece a publicidade.
    Siga para bingo!!!

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  9. Mas que chatice! estas coisas vêm sempre cair-me nas mãos. Não é que eu já não soubesse: http://www.huffpostbrasil.com/2016/03/14/palavroes-vocabulario-estudo_n_9459962.html

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