quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Geração "R" ( mas não é rasca...)



Tem sido notícia nos últimos dias:
"Há cada vez mais jovens a consumir Ritalina"
Sinceramente não foi notícia que me preocupasse. Habitado que estou a  ver miúdos de 14, 15 e 16 anos a cair de bêbados ou pedrados com coca em madrugadas de fim de semana ( que começam à quinta-feira), não estranho minimamente que também consumam drogas  legalizadas como a Ritalina. Alegadamente, fazem-no para se concentrarem e conseguirem "absorver" melhor  o tempo de estudo.
Quando era estudante, a Ritalina já era usada em vésperas de exames, ou como "droga dos pobres", por isso, a única coisa que me espantou, inicialmente, foi que os jovens de hoje ainda não tivessem descoberto um sucedâneo, porventura mais potente.
Passei da indiferença à indignação, quando vi um psiquiatra dizer que há pais a administrarem Ritalina a crianças com 2 e 3 anos de idade.  É que isso já  me parece quase crime. 
Hoje, quando falava sobre o assunto com uns amigos, houve um que lembrou que a Ritalina substituía as sopas de cavalo cansado que, noutros tempos, famílias pobres e davam às crianças antes de irem para a escola.
A comparação é extremamente infeliz. 
Com efeito, as crianças que iam para a escola com sopas de vinho eram pobres e os pais. além de serem analfabetos ou pouco instruídos, não tinham mais nada para lhes dar. 
As crianças de 2 e 3  anos que hoje em dia consomem Ritalina, são filhas de pais com poder de compra que não estão para aturar a sua hiperactividade, as suas perguntas e a sua criatividade. Nada melhor, por isso, do que enfiar-lhes uma droga que os deixa como zombies, calminhos e livra os pais de perguntas "chatas" e incómodas. É um sossego.
Gostaria de perguntar a quem de direito,se pais que agem desta forma com os seus filhos não deviam ser inibidos do poder paternal por estarem a criar monstros telecomandados que, atingida a idade adulta, terão certamente comportamentos atípicos
Será que os pais de Donald Trump lhe terão dado Ritalina quando era miúdo?

5 comentários:

  1. Na verdade não sei responder às suas perguntas. Mas garanto-lhe que fui ouvir um médico muito convicto do poder da substância. Suponho que não a distribua com esse à vontade que descreve. Pergunto: os pais podem dar tal coisa a um filho sem receita médica?

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  2. Crianças com 2 e 3 anos?! Essa gente nao devia poder ter filhos, deviam adoptar um cão... E de preferencia um daqueles que nao requerem muita atenção nem são muito enérgicos... Talvez uma planta, seja melhor opção.

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  3. Que pais (????) são esses??
    Fdp é isso que são!
    Não lhes chame pais.
    Progenitores, espermatozóide e óvulo.
    Pais?
    Não, isso não!

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  4. Os pais e a Ritalina (metilfenidato).

    Este tipo de medicamento só pode ser adquirido com receita médica, e é utilizado em crianças com Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA).

    Sobre este tema há três grandes correntes na classe médica:

    1 - a que utiliza metilfenidato com frequência exagerada e abusa do diagnóstico.

    2 - a que utiliza o metilfenidato com mais contenção e diagnostica com critério mais fechado.

    3 - a que rejeita qualquer tipo de medicação e põem reservas ao diagnóstico (escola ligada à psicanálise), defendendo o tratamento psicológico exclusivo.

    Só quem tem um filho com essa doença sabe avaliar, com adequação, este problema.
    Conheço famílias que se desfizeram, crianças que foram bombos da festa, que abandonaram a escola, por falta de diagnóstico e tratamentos correctos.

    Para escrever este comentário conversei com uma amiga, médica especialista na área, reformada, que trabalhou mais de 30 anos na área do desenvolvimento e seguiu dezenas de casos, sendo muito criteriosa no diagnóstico, ela própria fazia e avaliava os vários testes necessários, (para os poder aplicar teve de tirar cursos específicos), e medicava de forma comedida, só a partir dos seis (6) anos.

    Para se fazer o diagnóstico correcto é necessário que os professores e famílias preencham um questionário próprio, o médico faça a história clínica exaustiva, uma observação prolongada e vários testes específicos. Conjugando toda esta informação é que se chega ao diagnóstico.
    O diagnóstico não se faz em 10 minutos de consulta.
    Se for hiperactiva só na escola, ou só em casa, não pode ser diagnosticada de PHDA.
    Muitas crianças irrequietas, mal-educadas ou mimadas poderão ser erradamente catalogadas.

    Não calcula quanta melhoria na aprendizagem, na harmonia familiar e no bem-estar da criança se consegue quando correctamente ajudada.
    Como em tudo, sensibilidade e bom senso são necessários.

    Quanto a esse psiquiatra seria conveniente que ele tivesse dito a que escola pertencia...

    Voltando aos pais que dão metilfenidato aos filhos de 2 ou 3 anos: isto é um profundo erro, mas pode ser fruto de ignorância, de facilitismo, ou de erro médico.

    Em tempos, estes medicamentos só podiam ser receitados por Psiquiatras, Pediatras do Desenvolvimento e Neurologistas (Neuropediatras).
    As receitas eram requisitadas em nome pessoal, ficavam registadas na DGS, e cada receita tinha uma cópia que ficava em poder do médico, para futuro controlo.

    Presentemente qualquer médico os pode receitar, levando aos erros descritos.

    Em última análise o erro também foi dos governantes que “liberalizaram” a prescrição destes medicamentos (e outros).

    Declaração de interesses: sou psiquiatra de adultos, reformado, e nunca tratei crianças com PHDA. Segui clinicamente adultos com vida desestruturada, tendência a acidentes, consumos de drogas ilícitas (álcool e outras), mudança constante de empregos, comportamentos impulsivos, que tinham provável PHDA em criança.
    Se tratados correctamente em devida altura, poderiam estes comportamentos ser grandemente minoradas ou inexistentes.
    Não devemos esquecer que a medicina é uma ciência empírica, em constante evolução.
    Hoje já podemos comer um ovo por dia, há uns 2 ou 3 anos era um por semana.
    Amanhã como será?

    Um seu leitor atento e quase sempre concordante. E sim, Zeca Afonso, sempre!

    outeiro

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    Respostas
    1. Muito obrigado pelo seu esclarecedor comentário que, se me permitir, transformarei em post. Pelo seu teor e conteúdo merece ser do conhecimento dos meus leitores.
      Lamento é que o psiquiatra que no programa de tv alertou para a administração de Ritalina a crianças de 2 e 3 anos não tenha sido tão esclarecedor. Ou então foi mas cortaram-lhe a explicação.
      Mais uma vez, muito obrigado.

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