terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Teresa



Na promoção de um programa sobre violência doméstica, na Antena 1, ouve-se o testemunho de uma mulher. Chama-se Teresa. A sua história é igual à de muitas outras mulheres: aguentou estoicamente, em silêncio, durante 30 anos a brutalidade do marido. Até que um dia foi pedir ajuda.
Há muitos casos assim, como sabemos. Mulheres que alegando a defesa do interesse dos filhos, ou outro motivo qualquer, aceitam em silêncio a brutalidade dos maridos ou companheiros.
A história de Teresa, porém, tem algo de insólito. Ela não sofreu maus tratos do marido durante 30 anos, porque não está casada há tanto tempo. Ela começou a ser vítima de violência durante o namoro, aceitou a situação, terá acreditado que o namorado se acalmava depois de casar e passar a ser marido ( mas por amor de quê, ou de quem,  iria alterar o seu comportamento após dizer um Sim na Igreja  ou assinar um papel na Conservatória?)
Teresa acreditou que o namorado mudava, mas não devia. E quem fez  o spot de promoção devia ter incluído este depoimento?
Não devo ser o único que, depois de ouvir a história de Teresa, se desinteressou do programa. Afinal o que leva uma mulher, vítima de violência durante anos de namoro, a casar com um bruto? Amor? Só se for cego. Fé? Em matéria de amor, a Fé é má conselheira. Masoquismo? Talvez. Há sempre quem acredite na máxima do "quanto mais me bates mais gosto de ti".
Há, no entanto, uma virtude nesta promoção. Alertar as jovens que um namorado violento será um marido violento. O problema é que as jovens não ouvem rádio. Ou, pelo menos, este tipo de programas. 

5 comentários:

  1. Não vi o programa, mas na minha vida assisti a muitas mulheres vitimas de violência doméstica. No século passado ouvi muitas mulheres dizerem que "quem se obriga a amar, obriga-se a padecer"
    Nunca entendi isto bem, mas enfim. Depois, também existem mulheres, que pensam, erradamente que são capazes de mudar o homem com quem namoram depois de casadas. E depois caem na violência.

    ResponderEliminar
  2. Mas acontece constantemente. Elas apanham durante o namoro, mas casar é tão bonito! Faz parte do trajeto da mulher. E depois, com o nascimento dos filhos talvez as coisas mudem... Fazem o «curso de noivos»; o senhor prior diz que o amor e o perdão e mais não sei o quê e depois pronto! Somos um povinho ainda muito pouco instruído, pouco educado, de vistas muito curtas e agarrado ao ram-ram das situações, sem vontade de evolução e de mudança...

    ResponderEliminar
  3. E note que a violência no namoro é hoje mais frequente. Mas não acredito que, com a igreja no descrédito em que está, seja responsável por casamentos em que a violência já existia no namoro. Se afirmarmos que a mentalidade portuguesa foi muito moldada pela igreja, isso é em absoluto verdade. Mas é a de todos os portugueses e não apenas a de algumas mulheres.

    ResponderEliminar
  4. "Há, no entanto, uma virtude nesta promoção. Alertar as jovens que um namorado violento será um marido violento."
    Vale por isso, Carlos.
    A brutalidade não desaparece no altar ou na Conservatória.

    ResponderEliminar
  5. Na minha opinião, os números da violência nao mudaram, nao há hoje menos violência do que havia no tempo da ditadura, em que as mulheres ocupavam um estatuto menor do que hoje ocupam, e mais dependente. Mas, embora os números nao tenham mudado, parece-me que mudou a natureza da justificação que as vitimas dão a si próprias e aos outros. Antes era a dependência (financeira, social) que tinham do agressor. Hoje é "se ele fica assim cego de emoções, é porque deve gostar de mim mesmo de loucura!"? É o que se ouve das jovens de hoje. E é tao triste.

    ResponderEliminar