quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sim, eu também já tive 15 anos

E felizmente tive uma educação austera que me foi muito útil quando aos 18 vim para Lisboa e comecei a viver sozinho.
Se teria  gostado de  passar noites ao relento para ver a Françoise Hardy? Não, não teria. Já faltar dois ou três dias às aulas para a ver, como fazem os putos de hoje aos 13 ou 14 anos, com a concordância dos pais, não teria desdenhado.
Só que quando eu era puto chumbava-se por faltas, os meus pais nunca me deixariam faltar às aulas para ver um concerto e aplicar-me-iam um correctivo se eu faltasse. E quanto a dormir ao relento, nem sequer era hipótese a considerar. A primeira vez que o fiz foi no festival de Vilar de Mouros, já era quase adulto (naquele tempo não havia jovens de 35 anos).
Sim, eu também já tive 15 anos. E fumei haxixe. Uma vez ou duas, até algo mais forte. Felizmente, aos 15 anos, tinha pai e mãe e revoltei-me muitas vezes contra eles por não me deixarem ir a uma festa, por me obrigarem a estar todos os dias à mesa às 8 horas para jantar, por me obrigarem a deitar às horas  que me impunham ( apesar de eu ir para a cama ouvir às escondidas a 23ª hora, num minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar) e a comer aquilo que havia no prato e não o que eu desejava - que naquela idade era só bifes.
Sim, eu já tive 15 anos. Tinha uns pais austeros que me mantinham a rédea curta, aos quais eu agradeço terem tido a coragem de me dizer muitas vezes não. Foi assim que aprendi a responsabilizar-me e a perceber que a vida não é feita de exigências e chantagens na mira de obter o consentimento dos pais para a satisfação dos desejos mais descabelados.   
Sim, já tive 15 anos. E se tivesse hoje um  filho com essa idade dar-lhe-ia a mesma educação que os meus pais me deram. Se quisesse ir ver o Justin Bieber, deixava-o ir, mas de certeza que não o deixaria  dormir ao relento, nem faltar às aulas.  Sabem porquê? Precisamente porque já tive 15 anos e não me importo absolutamente nada que me chamem bota de elástico.
Isso até é  uma G'anda cena, meu!

15 comentários:

  1. ah ah ah! Voltamos ao dormir ao relento... para o qual tenho sempre algo a dizer.

    Os seus 15 anos, fizeram-me recordar os meus. Nunca passaria pela cabeça dos meus pais autorizarem-me a permanecer ao relento! : ) Um dia, estava a falar com um rapazinho da minha idade em frente da porta de casa. A porta estava aberta. O meu pai, depois de o miúdo se ter ido embora, disse-me “nas calmas” que para a próxima vez seria melhor mandá-lo entrar (desde que estivessem em casa, evidentemente) porque não ficava bem. Também me disse um dia que (aos 11 ou 12 anos) era demasiado nova para pintar as unhas. : ))) Hoje, as meninas da Kindergarten (pré-primária) têm unhas pintadas!!
    O “ficar bem” ou “ficar mal” teve sempre um grande impacto à medida que fui crescendo. Nunca usei esta forma de educar os meus filhos. E continuei a ser uma menina bem comportadinha, estudiosa e que passou todos os anos... para o orgulho dos papás!!!
    A propósito das faltas; deve saber que no Canadá os estudantes das escolas elementares nunca chumbam. Passam sempre de ano porque é detrimente para uma criança estar numa turma onde é a mais velha e não há qualquer benefício em repetir o ano e ser lecionado da mesma forma, provavelmente, pela mesma professora. Mas este é outro tema.
    “Naquele tempo”, não havia instituições educativas pós-liceais, ou melhor, pós-secundárias no Algarve. Tínhamos de ir para Lisboa. Na altura, algumas das minhas colegas já alugavam apartamentos. Eu, uma colega do Algarve, hoje advogada conceituada, uma amiga de Alcobaça e outra do Porto (filha do presidente da Cãmara, cujo nome não me recordo) ficámos “hospedadas” na casa de alguém de confiança. O nosso “curfew” era 21h durante a semana e meia-noite durante o fim de semana. : ))
    Mas isto vem a propósito de quê?! : ) Ah do relento... Na semana passada, quando fui à AGO com o meu sobrinho mais novo, perguntei-lhe se, se tivesse filhos, os deixaria passar horas ao relento. Disse-me que sim, desde que fosse num ambiente controlado, se estivesse lá a acompanhar os filhos, por exemplo. E que faltar uma tarde à escola não causaria qualquer problema. Seria uma experiência “that they would cherish”.
    Acredito em normas/regras bem definidas, em ambientes familiares estruturados, mas que permita o poder de escolha por parte das crianças para que aprendam a distinguir as boas e as más opções.
    Este deve ser o mais longo comentário que jamais escrevi num blogue. As minhas desculpas. : ))

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    1. Desde que haja confiança no comportamento dos filhos e o ambiente seja seguro (o meu sobrinho até comentou que é um mito pensar-se que acontecessem sempre “coisas más” durante os concertos), não vejo qualquer problema se um aluno faltar um dia ou uma tarde à escola para assistir a um concerto. Acrescento que compreendo a opinião do Carlos. Há crianças que são educadas de uma forma pouco aconselhável, sem limites e sem a constante presença parental.

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    2. É também um excelente comentário, Catarina. Vou tentar responder:
      Tenho uns amigos que têm uma filha com 17 anos que também curtia essa de dormir ao relento. O pai disse-lhe que não via problema nenhum, desde que ele ou a Mãe estivessem por perto. A miúda ia morrendo de vergonha e preferiu dormir em casa.
      Compreendo muito bem quando diz " ficar bem ou ficar mal". Muitas das minhas amigas ouviam as mesmas coisas, mas não é disso que se trata. O problema é que eu não acredito que crianças de 12, 13 ou 15 anos tenham discernimento para fazer essas escolhas. Não tenho filhos, mas lido muito com miúdos e constato que, na generalidade, são muito mais infantis do que eu era naquela idade.
      Quando vim para Lx, dias antes de completar 18 anos (passe a publicidade, leia amanhã o meu post "Nas entrelinhas do 7") amigas minhas que estavam em Lares tinham o mesmo patamar de exigências em relação a horários e até já aqui escrevi um post a dizer como contornavam essa imposição ao fim de semana.
      Não digo que a educação de hoje seja pior que a do meu tempo. O que acontece é que a maioria das famílias são monoparentais e as crianças fazem muita chantagem com ambos os progenitores.
      Fui a muitos concertos, mas nunca faltei às aulas nem dormi ao relento e, sinceramente, não percebo a necessidade de o fazer.
      Só mais uma coisa, porque a resposta também já vai longa: comparo a educação dos filhos e netos de amigos que vivem em Lisboa e aqui no Estoril e constato que por aqui as famílias são mais rígidas. Mas como também são mais estruturadas e sólidas, talvez seja essa a explicação.
      Vamos ter oportunidade de trocar mais opiniões sobre este tema, porque tenho vários posts para publicar. Só não sei se terei coragem para publicar o video que corre por aí com as agrssões de miúdos de 15 anos a outro miúdo da mesma idade. Desfizeram-no com pancada, enquanto riam à gargalhada e filmavam. tiveram o cuidado de afastar um miúdo mais velho porque " tu já tens 16 anos, já és adulto, não podes ser visto".
      Ver cenas destas magoa-me muito, Catarina.

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    3. O “ficar bem ou mal” foi apenas um elemento de comparação entre a austeridade dos seus pais e dos meus.
      Como me podia ter esquecido?!!! – Quando os Backstreet Boys vieram a Toronto, a minha filha ainda na escola elementar pediu-me se poderia acompanhá-la ao concerto. Que era muito importante para ela. Ambas tirámos a tarde. Fui considerada durante uns tempos a “very cool mom”! Uma mãe muito fixe. A sua assiduidade escolar não sofreu por isso.
      Há casos e casos! : )) Neste caso, não foi um concerto ao relento. : )
      O vídeo de Chicago transmitido pela CNN hoje tirou-me o apetite, Carlos. Como é que alguns jovens podem ser tão cruéis.

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    4. Pois, Catarina, mas isso não me parece nada mal. Bem pelo contrário. Aquilo a que me refiro é acrianças que passam noites sozinhas oa relento ( apenas com outras crianças das idades delas) para guardarem lugar para um conceto que, no caso a que me refiro, até era num pavilhão fechado ( Meo Arena)
      O video a que me refiro foi feito aqui na Amadora, Catarina. Esse de Chicago (ainda) não vi.

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  2. Não concordo com a condescendência dos pais de hoje (não todos) em permitir que os filhos durmam ao relento só para verem e ouvirem, ao vivo, o seu ídolo, claro que não. Muito menos que faltem às aulas por causa disso. Mas, lembro-lhe, Carlos, que os seus 15 anos foram há cerca de 50 e, desde então, muita coisa mudou. Isto, em resposta à rigidez de princípios com que os seus pais o educaram.
    Já da loucura colectiva, em relação às multidões de jovens que entravam em estado de completa histeria, lembremo-nos das cenas que aconteceram nos anos 60, quando os Beatles faziam desmaiar as tenagers, lembra-se? :)
    Hoje, há uma outra espécie de loucura juvenil...:)
    E não, o Carlos não é , de forma alguma, o tipo de pessoa que se possa considerar "bota de elástico".
    É um homem culto, viajado e conhecedor de tudo o que acontece pelo mundo, porém, com o passar do tempo, tornou-se pouco permissivo e um pouquinho intolerante, será? :)

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    1. Antes de mais, Janita, pedia-lhe que lesse a minha resposta aos omentários da Catarina, para não me repetir.Tem toda a razão quanto aos concertos ( eu também gostava de ir, também histeriava um pouco e acho que sempre foi assim. O mal não está nos concertos, mas sim nas dormidas ao relento e nas faltas às aulas. Por muito que me esforce, não compreendo. Sim, tornei-me um bocado intolerante e hoje, particularmente, depois de ver o video das agressões de miúdos de 15 anos. Tanta barbaridade e violência naquela idade assusta-me. Estamos a criar monstros.

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  3. Eu também já tive 15 anos. Há mais de 50 anos. Nessa altura já trabalhava no duro, às vezes começava às seis da manhã até às 10 da noite. Não sirvo de referência para ninguém já que nem rádio tínhamos, sabia lá eu o que era concertos. Dois anos mais tarde fui trabalhar para Lisboa e então foram descobertas atrás de descobertas. Mas nunca fui a um concerto. Há 50/60 anos, a educação era rigorosa e pouco permissiva. Atualmente é exatamente o contrário. Os pais são muito benévolos e permissivos. Nos nossos tempos, respeitavam-se os idosos. Agora
    às vezes pouco falta para lhe baterem. O ano passado, o meu marido que tem 74 anos, vinha num autocarro sentado no banco de trás que é de 5 pessoas. Entraram 5 gaiatos 14/15 anos e sentaram-se 4 ficando o outro de pé. Pois fizeram a cabeça em água ao meu marido, chamando-lhe nomes, dizendo que ele já devia uns quantos anos à cova, e que andava a tirar o lugar aos novos, tudo para que ele se levantasse para o outro se sentar.
    O marido chegou-me a casa, feito uma pilha de nervos. Alguma vez isto seria possível na nossa juventude? Passou-se do oito para o oitenta, na educação em Portugal.

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    1. Já fui vítima de uma cena idêntica à vivida pelo seu marido, Elvira. Era mais novo, mas estava doentíssimo e a recuperar de uma cirurgia de risco. Apeteceu-me matá-los. Se tivesse uma arma acho que o tinha feito.

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  4. Também por isso tudo que relata. E fiz as minhas filhas «passarem» (quase) pelo mesmo... Não lhes fez mal nenhum.

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    1. De certeza que hoje, mesmo fazendo críticas, lhe agradecem por isso. Com muitas gargalhadas à mistura e histórias que hoje lhes parecem inverosímeis. Eu fazia o mesmo com a minha Mãe :-)

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  5. meu amigo, já ninguém usa a expressão "bota de elástico"; isso era no seu tempo.

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  6. Tenho 52 anos, Carlos.
    Ainda hoje o meu pai só precisa de olhar para mim de uma certa maneira para eu perceber que estou a pisar o risco.
    A minha mãe é mais chamar-me João Pedro.
    Há borrasca.

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    1. Tocou no ponto certo, Pedro. Não é preciso fazer reprimendas em público, nem dar açoites. O importante é educar com respeito. Mas, pelo que vou vendo por aí hoje em dia, os filhos já não respeitam os pais nem têm essa cumplicidade. Abraço e bom FdS

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