quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Geringonça 2.0 : há vida para além da economia



Repostos os salários e pensões cortados pelo governo anterior e actualizado o salário mínimo, seria salutar se a geringonça  incluísse no seu   caderno de encargos a máxima "Há vida para além da economia".
Com efeito, pese embora a importância da melhoria das condições económicas das famílias, os seus efeitos só serão rentabilizados se a geringonça apostar em medidas que fomentem a cidadania e a consciência social, mais valias que não se contabilizam  no imediato, mas têm forte impacto na melhoria das condições de vida das gerações futuras.
Desde final do século XX,  quando a globalização definitivamente assentou arraiais e foi  assimilada acriticamente, como  uma inevitabilidade benfazeja que resolveria todos os problemas sociais, tem-se assistido a um desinvestimento perigoso na formação e informação em áreas importantes para a cidadania.
Poderia citar os exemplos da educação alimentar e para a saúde, dos direitos humanos, da igualdade, das condições de trabalho e outros, mas atenho-me aos temas com que estou mais familiarizado, porque trabalhei nessas áreas durante décadas: a defesa do consumidor e a protecção do ambiente.
Até ao governo Sócrates, estas áreas estiveram na alçada do mesmo ministério. Parecia lógico, até porque a protecção do ambiente está intimamente ligada ao consumo sustentável. Em 2005, porém, Sócrates ( que até emergiu na política quando foi secretário de estado do ambiente) entregou a defesa do consumidor à tutela da economia e, a partir daí, o tema passou a ser tratado (quase) exclusivamente no âmbito das relações de litigância entre consumidor e produtor/prestador de serviços.
Reduzir a defesa do consumidor a questões financeiras e à aplicação de mecanismos que visem apenas a protecção jurídica de direitos foi um erro clamoroso. Não só porque é uma visão redutora da defesa do consumidor, mas também  porque  esquece os deveres dos consumidores, igualmente importantes para o desenvolvimento sustentável.
Ora acontece que os consumidores conhecem os seus direitos, mas ignoram os seus deveres. Para além de separarem os resíduos e, eventualmente, pouparem energia e água por razões meramente financeiras, os consumidores desconhecem o impacto ambiental das suas escolhas.
Desinvestiu-se na informação e formação dos consumidores ( nos últimos anos apenas a formação em matéria financeira teve algum desenvolvimento) e, por consequência, a pouca formação que é feita em matéria ambiental, perde eficácia por estar normalmente desarticulada com a temática do consumo.
Não se pode exigir aos consumidores comportamentos responsáveis, se  não conhecerem, por exemplo, o impacto do sobreendividamento das famílias na economia do país, ou  do automóvel no ambiente.
Não se pode exigir que façam boas escolhas se desconhecerem os produtos que têm incorporado trabalho infantil e trabalho escravo,  o impacto ambiental dos transportes de mercadorias, as  consequências do endividamento excessivo das famílias, ou os efeitos das opções alimentares na preservação das florestas.
As pessoas olham para a Internet como um oráculo infalível e fiável, onde podem obter a informação de que necessitam. Muitos decisores pensam ( ou fingem pensar, porque lhes dá jeito para justificar o desinvestimento na informação) do mesmo modo. No entanto, todos sabemos que a Internet é uma difusora de mentiras  que rapidamente se tornam verdades irrefutáveis, por força de manipulações de grupos económicos ( e outros) interessados em expandir o seu negócio.
Há mais de 40 anos ligado a estas temáticas, não me lembro de uma época em que os produtos - milagre tenham tido uma difusão tão massiva e tão impune como hoje. Bastam dois ou três artigos criteriosamente difundidos, anunciando as vantagens milagrosas de uma determinada semente ou fruto na cura de uma doença, para que o consumo desse produto dispare. Muitas vezes com prejuízo para a saúde dos consumidores e não para seu benefício.
O mesmo acontece com a divulgação de medicamentos de efeitos prodigiosos, que não são mais do que banha da cobra vendida por feirantes "licenciados" em manipulação internáutica.
Se queremos uma sociedade saudável, temos de garantir uma boa informação/formação aos cidadãos. Isso é (quase) tão importante como garantir a sustentabilidade económica das famílias.



4 comentários:

  1. Carlos, se se quiser "divertir" vá um dia para a saída dum supermercado e pergunte às pessoas o país de origem dum produto que tragam. Ninguém quer saber. Eu, ainda há pouco tempo, meti-me com uma senhora, que estava ao meu lado a comprar laranjas e levava das espanholas e perguntei-lhe: Porque é que leva espanholas, se tem aqui algarvias, que são ao mesmo preço e são bem melhores? E até evita a saída de divisas. Via-se que não era nenhuma pessoa empedernida. "Ah, nem ligo a isso!" A semana passada com outro artigo noutro lugar, outra senhora com ar bem, também nem sabia sequer o preço. Com pais com filhos também já me tenho metido por causa das birras das crianças. E também me aconteceu uma gira: no super andava uma senhora com uma criança que andava aos pulos e mexia em tudo, por isso reparei nisso. Quando chego à caixa (eu que faço compras para uma eternidade porque detesto aturar imbecilidades), eis senão quando passa à minha frente uma senhora com uma criança ao colo (a mesma dos pulos), pela simples razão que não quis ir para a caixa que poderia estar-lhe atribuída (se a criança tivesse menos de dois anos) ter uma fila bastante grande. Aqui foi ela que prevaricou. Diga lá se não é para uma pessoa ficar danada. O tuga é assim, não tem emenda. Já várias vezes tenho dito porque raio a televisão que é paga por todos nós, não dá programas informativos, como aquele que havia "Cuidado com a língua"? Mas qual quê? O que interessa são as audiências. Até via um programa interessante, sobre Economia, com o Peres Metelo, porque tinha lá o RPM, agora puseram o André Macedo a dizer que tudo é economia, mas é uma chachada, sem interesse nenhum, apesar do RPM também lá ir, mas é só no fim para falar dum assunto que ele escolhe, que só tem interesse porque é ele a falar, mas para isso temos de aturar as bobagens anteriores todas.
    Não se preocupe porque agora temos o presidente da maior potência que vai obrigar os mexicanos a construir o muro, com armas apontadas, como se fossem trabalhos forçados. Este pormenor foi acrescentado hoje. Não sei se o Carlos sabe que há pessoas tão desprotegidas da sorte, que, como não têm dinheiro para o transporte vão receber o RSInsersão e gastam-no todo no táxi. E não é por luxo é porque são incapazes de gerir a sua vida. Você sabe que do fundo ninguém cai, mas também ninguém sobe.
    Hoje já há alguns filhos que ensinam os pais a atravessar a estrada, porque lhes ensinaram na escola. Pode ser que quando os carros começarem a voar os peões saibam atravessar nas passadeiras que restem.

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    1. Já fiz isso e não só à porta de hipermercados, Anfitrite. Uma diversão no momento mas, depois de cair na real e quando começo a escrever sobre o assunto dá-me cá uma neura!

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  2. A geringonça vai andando.
    Mas o caminho ainda é longo e penoso.
    Nada de euforias.

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    1. Euforias, Pedro? Mas há alguém que ande eufórico? Aliviado, sim, compreendo. Depois da experiência traumática do anterior governo, quem não suspira de alívio só pode ser idiota. Talvez sejam esses que andem eufóricos.

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