terça-feira, 10 de janeiro de 2017

E depois do adeus



Agora que as cerimónias fúnebres terminaram e os indignados com as muitas páginas de jornais ou   longas horas de rádios e televisões dedicadas a Mário Soares já podem voltar a rebolar-se de prazer com os arruaceiros  debates desportivos, as purgantes telenovelas, ou os edificantes Big Brothers,   é tempo para enaltecer a comunicação social.
Apesar da falta de profissionalismo  gritante, traduzida em erros de palmatória próprios de principiantes, ( desde confundir o Colégio Moderno com  o Colégio Militar a chamar carroça ao armão, ouvi de tudo), é de sublinhar a forma como a esmagadora maioria da comunicação social prestou uma última homenagem a Mário Soares.
É certo que as televisões ( especialmente a RTP 3) não se cansou de salientar a reduzida ( na opinião deles) presença de populares durante o cortejo fúnebre, mas perdoem-se estas diatribes a quem chegou ao jornalismo  movido pela única intenção de aparecer na televisão para fazer inveja aos amigos.
A o fazerem esse reparo, naquelas cabeças  estava a comparação com o funeral de Eusébio ou a trasladação de Amália para o Panteão.

Pessoalmente, devo muito mais a Soares do que a Eusébio ou a Amália, mas desde há muito sei que para a maioria dos portugueses é muito mais importante um homem que marca golos, ou uma mulher que canta as nossas mágoas, levando ao êxtase o nosso providencial apego ao miserabilismo e à desgraça, do que um Homem que lutou, (pagando por isso alto preço) pela nossa liberdade e restituiu ao país a dignidade de ser respeitado no mundo.

Afinal, se assim não fosse, as telenovelas não teriam tantas audiências e os canais de informação não dedicariam o horário nobre a programas de debate desportivo, onde a falta de educação e os ataques pessoais são a regra.

Prefiro homenagear e manifestar a minha gratidão a quem lutou para que eu fosse LIVRE e tivesse uma vida melhor.
Por isso confesso que me emocionei muito durante a cerimónia, especialmente com as palavras dos filhos João e Isabel, quando ouvia a Lacrimosa de Mozart pelo coro de S. Carlos,  enquanto estive na fila à espera de poder parar uns segundos diante da urna para agradecer a Mário Soares tudo o que fez por mim e pelo meu país e, MUITO ESPECIALMENTE, quando comecei a ouvir a voz de Maria Barroso a declamar dois sonetos de Álvaro Feijó. 
Como já aqui escrevi, discordei muitas vezes de Mário Soares, mas acabei sempre por reconhecer que a razão estava do lado dele.   Os tributos que lhe foram prestados por todos os quadrantes políticos,  engrandecem-no.  As palavras de Jerónimo de Sousa exprimem-no de uma forma sublime, porque não foram meras palavras de circunstância. Foram o reconhecimento da grandeza de Mário Soares.
Ninguém é santo nem diabo, não há pessoas puras. Como já aqui escrevi, Soares tinha muitos defeitos. Felizmente. Isso não invalida que tenha sido o português mais importante do século XX.
Ignorar que lhe devemos a Liberdade, o Europeísmo , a recuperação da dignidade e  o reconhecimento de Portugal pelo mundo é pura ignorância ou ingratidão. Sem Mário Soares, Portugal não seria o país que é hoje. Razões suficientes para justificar a minha homenagem ao grande Homem que ele foi Mário. E eu, que tenho em Mário Soares a última referência do socialismo democrático, nem sequer fui um seu indefectível. Sou apenas um português que ama a LIBERDADE e está MUITO grato a MS por ter lutado por ela.
Quanto aos que continuam a propagandear mentiras sobre Mário Soares e não vêem razões para os portugueses lhe estarem gratos, dou o conselho que ouvi a Miguel Sousa Tavares: Leiam (para ver se aprendem alguma coisa!)



4 comentários:

  1. Amigo, concordo totalmente contigo .

    Tudo de bom

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  2. Tiro o chapéu a este seu post:)Disse tudo o que eu penso!!

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  3. Convido-o a ler o que escrevi, Carlos.
    Andamos muito perto um do outro apesar de estarmos a grande distância geográfica.

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  4. Obrigada por dizer tão bem aquilo que eu penso. Ele não errou, apenas pode não ter tomado as melhores opções, quando o caminho era estreito. Mas só quem não se mexe é que não tem de se desviar dos escolhos. Mas tudo quanto fez foi para bem dos portugueses e não só. Para ele não precisava de se ter lutado e sofrido tanto. Outros houve que dizem que lutaram, mas eram apenas uns fanáticos que só cumpriam ordens. Como pessoas inteligentes tinham obrigação de pensar e ver o que seria e podia ser melhor para o povo. Houve tanta gente que viveu à custa do seu passado antifascista, mas por nunca lá andaram. Outros foram dogmáticos e fizeram mais mal do que bem. Depois dos anos 50 era ver gente inteligente a afastar-se de tanta crueldade, mas outros seguiram em frente e até os nossos arquivos destruíram, para não dizer outras coisas. Segundo dizem o discurso de jerónimo não era esse. Mas para não se criarem mais brechas, saiu esse. E acho que só lhe ficou bem. Mas este SG tem outra origem e uma maneira já mais moderada de ver as coisas, até porque os tempos estão bem difíceis.
    (Ontem tinha escrito um comentário inspirado, só que o W resolveu fazer a actualização nesse momento e perdeu-se tudo).
    o caminho faz-se caminhamdo e quando morrerem todos os resquícios de ódio, por interesses perdidos e por ignorância, espero que sejamos melhores, porque a ignorância não justifica tudo. Já tanta gente nestes 40 anos teve acesso à instrução esperemos que outros abram a mente e reciclem também o nosso ensino.Boa semana!

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