terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Dos jornalistas e do jornalismo

A realização do 4º Congresso de Jornalistas e a forma abnegada como os organizadores se entregaram à tarefa, são a prova de que ainda há jornalistas empenhados e orgulhosos da sua profissão . Ainda é possível fazer bom jornalismo e oferecer ao público bons jornais. Como acontece em todas as profissões,o problema não é a falta de matéria prima, mas sim o facto de os órgãos de comunicação social, na sua esmagadora maioria, não estarem em boas mãos.
E isso foi notório no último painel, onde estiveram os empresários do sector a justificar porque não apostam num jornalismo de qualidade. O eterno problema das receitas. De publicidade, claro. Pergunto eu: serão as receitas que justificam  noticiários  tão indigentes como aqueles a que normalmente assistimos na televisão em horário nobre?
Serão as receitas que justificam que durante vários dias os "telejornais" das 20 horas abram com uma peça de 20m sobre  Pedro Dias ( o fugitivo que pôs Aguiar da Beira no mapa noticioso nacional) e logo a seguir surja o intervalo publicitário?  Não só o tempo dedicado ao assunto foi demasiado, como a qualidade da reportagens era fracota porque ao fim do segundo dia já não havia nada para noticiar e os jornalistas foram obrigados a encher chouriços. O mesmo se pode dizer do caso de Ponte de Sor. Ou  recuando alguns anos ( porque a infantilização dos noticiários, a mediatização  do crime e a especulação à sua volta já vêm de longe) ocorre-me a cobertura do caso Maddie. Ou da fuga daquela jovem austríaca  que esteve anos raptada.  Sempre que há casos "picantes" lá fora , logo aparece dinheiro para enviar um jornalista, que lá permanece vários dias.  Claro que não falta quem defenda que é isso que o "povo" gosta. Daí que seja notícia a senhora que deixou o casaco nas costas da cadeira, durante o jantar de recepção aos reis de Espanha. Ou as "gaffes" de um ministro ou figura pública, apanhado em conversa privada por um microfone indiscreto, ao serviço de um jornalista que desconhece a ÉTICA. Ou que se veiculem nos jornais  infâmia scom notícias truncadas. por vezes deliberadamente, para atingir pessoas previamente escolhidas. Ou que se plantem nos jornais notícias falsas, sopradas por  um político para lhe agradar e o ajudar a destruir a credibilidade de um outro. Ou ainda que se especule sobre as causas de uma fuga de gás que provocou uma explosão no prédio onde vivia uma actriz de telenovela, criando nos espetadores a ideia de que o acidente teria sido provocado por  tentativa de suicídio da actriz.
O gosto do público não justifica a Lei da Selva. Já o interesse em agradar a determinado quadrante político...
Por outro lado, quando o que se coloca o ênfase  na precariedade,   para  justificar a má qualidade do jornalismo , corre-se o risco de os jornalistas serem acusados de se comportarem como  a avestruz . 
Não pretendo fulanizar, mas o  caso das escutas a Cavaco, "fabricado" por JMF ( então director de "O Público" ) e o ex -jornalista Fernando Lima, assessor de Cavaco, foi um caso de jornalismo de esgoto, produzido por dois jornalistas experientes e sem problemas de precariedade.  Vendido como notícia, tinha  como intuito manipular a opinião pública. Ou, pelo menos, foi essa a sensação que  ficou. 
Lidas as conclusões, concordo que a precariedade é uma das causas da falta de bom jornalismo, mas sejamos rigorosos, olhemos para dentro e não escamoteemos as responsabilidades dos jornalistas  no estado a que chegou o jornalismo. A principal é a promiscuidade das relações entre jornalistas , fontes e poder político. 
Quando os jornalistas acabam "deitados na cama" dos governante ( não é para interpretar à letra, ok?)  e se deixam se deixam pelas mordomias que o poder lhes oferece, não pode haver jornalismo sério e independente. As eleições de 2011 foram uma prova dessa promiscuidadea. Quantos jornalistas que andaram ao lado de Passos Coelho na  campanha eleitoral,  abandonaram o jornalismo eacabaram em gabinetes ministeriais e empresas públicas
Não vejo inconveniente  de um jornalista  integrar um gabinete ministerial. Eu também estive num durante dois anos. Só que antes de ir para esse gabinete não estava a exercer jornalismo há dois anos e só voltei a exercer cinco anos depois de ter abandonado o lugar.  Como sabemos, não é o que se passa na maioria dos casos.
O jornalismo  também não é uma profissão de vedetas, mas muitos jovens  encaram-no  como uma forma de se tornarem conhecidos e respeitados. (Um inquérito realizado há uns anos concluiu que a esmagadora maioria dos candidatos a jornalista pretendia fazer televisão). 
 Há, finalmente, uma  outra  questão  que deve ser salientada e está nas mãos dos jornalistas resolver. Só há bons  jornais e bom jornalismo  com bons empresários, que conheçam a fundo a profissão. 
Talvez tenha chegado o momento de os jornalistas voltarem a demonstrar que é possível fazer bons jornais, boa rádio e até boa informação televisiva.  Para isso é fundamental haver iniciativa ( ou empreendedorismo se preferirem) para criar jornais que sejam propriedade de jornalistas, para que possam ser eles, exclusivamente, a fazer as opções editoriais. 
Enquanto os jornalistas não conseguirem demonstrar que são capazes de gerir um título independente,  imune às influências do poder político e económio,que renuncie ao sensacionalismo  e à tentação de ir ao encontro daquilo que os jornalistas pensam ser o interesse dos leitores, o bom jornalismo continuará a ser engolido pela voracidade do sensacionalismo.
Dir-me-ão que as experiências cooperativas  tentadas em Portugal acabaram de forma inglória. Eu sei. Mas também não desconheço que poderiam ter tido outro destino.
Porque o texto já vai longo, termino com uma apreciação do que fui lendo sobre o Congresso
Li muitos artigos escritos por camaradas meus. Não tenho a pretensão de ler tido tudo, obviamente, mas entre os artigos que li, destaco este do Pedro Tadeu. Porque põe o dedo numa outra ferida que mina a classe há muitos anos, todos discutem, mas fingem ignorar.

3 comentários:

  1. Ouvi as notícias acerca do Congresso aqui na Rádio Macau e li algumas coisas nos jornais e nos blogues.

    ResponderEliminar
  2. Caríssimo:
    Eu sou da opinião que o público não escolhe NADA.
    Por isso não é o «público» o responsável. É somente o bode expiatório (se a expressão estiver correta).

    Já nos meus idos tempos em que estudei a questão em debate, não me pareceu correcto assumir que as TVs, jornais e demais órgãos de comunicação social «davam» aquilo que o público quer ver. Isso não é verdade. Podem lhes dar lixo, que lixo o público engole. Não é que queira - é o que têm. E assim sendo, podem e devem dar filet mignon, que assim o público também aprende a gostar. Mesmo os menos chegados ao «prato», acabarão por assimilar algum nutriente. Não se ficam pelas calorias vazias.

    Existe uma responsabilidade que os media têm para com o público (cultural, informativa, social etc) e essa não está a ser cumprida nos requisitos mínimos.

    ResponderEliminar
  3. Caríssimo:
    Eu sou da opinião que o público não escolhe NADA.
    Por isso não é o «público» o responsável. É somente o bode expiatório (se a expressão estiver correta).

    Já nos meus idos tempos em que estudei a questão em debate, não me pareceu correcto assumir que as TVs, jornais e demais órgãos de comunicação social «davam» aquilo que o público quer ver. Isso não é verdade. Podem lhes dar lixo, que lixo o público engole. Não é que queira - é o que têm. E assim sendo, podem e devem dar filet mignon, que assim o público também aprende a gostar. Mesmo os menos chegados ao «prato», acabarão por assimilar algum nutriente. Não se ficam pelas calorias vazias.

    Existe uma responsabilidade que os media têm para com o público (cultural, informativa, social etc) e essa não está a ser cumprida nos requisitos mínimos.

    ResponderEliminar