quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Adelina



Tinha prometido a mim mesmo, após a morte de Mário Soares, só escrever um post a agradecer-lhe. Escrevi-o no sábado, logo que soube a notícia.
Entretanto, o que nas horas e dias seguintes fui lendo  nas redes sociais provocou-me tamanha indignação, que não cumpri. Gente que escreveu comentários insultuosos na página de FB de João Soares, ou que escreveu no livro de condolências “ Já vais tarde” provocou-me enorme repulsa  e decidi responder “à letra”.
Fiz mal. Reagi como um daqueles energúmenos que escrevem no "Blasfémias"
Tenho a certeza que Mário Soares seria o primeiro a criticar algumas coisas  que escrevi, mas eu nunca tive a sua sabedoria, nem fui ungido com a sua  tolerância.
Agora, mais a frio, reconheço que talvez me tenha excedido em algumas palavras, mas resta-me a consolação de não ter banido do FB pessoas que, sendo "amigas" me surpreenderam pela sua incapacidade em reconhecer a felicidade de Portugal ter  tido um político como Mário Soares, depois do 25 de Abril.
Uma cena a que ontem assisti num dos canais de televisão, obriga-me a escrever um último post sobre Mário Soares.
Entre muitas pessoas vindas de diversos pontos do país para prestar um último tributo a Mário Soares, a jornalista interpelou uma septuagenária de Famalicão, pedindo-lhe que lhe explicasse as razões de ter vindo de tão longe
Adelina não se fez rogada. Começou por declarar a sua gratidão a Mário Soares e rematou desta forma exemplar:
“Eu tinha 35 anos no 25 de Abril. Os pais que expliquem aos filhos quem ele foi e como vivíamos antes do 25 de Abril
Nós, crianças, éramos obrigadas a trabalhar. Se os jovens de hoje tivessem conhecido aqueles tempos, saberiam que vivem no paraíso”.

Esta declaração de Adelina emocionou-me, também pela credulidade. Ela acredita que homens e mulheres, hoje com 40 e 50 anos, que desconhecem o que foi o Estado Novo, reproduzem barbaridades sobre Soares que ouviram nas redes sociais e lamentam a perda das colónias ensinem aos filhos quem foi Mário Soares.
Já muito bom seria que a escola o fizesse com a isenção requerida mas, pelo que tenho visto,
nem isso é possível. É que há professores cuja interpretação do 25 de Abril roça a ignorância e a indigência intelectual.

5 comentários:

  1. Há quem interprete o 25 de Abril com ignorância e indigência intelectual mas há também quem o faça conforme as suas conveniências. Muitas delas a roçar o patético.
    O que também li no Facebook enojou-me. Se eu tivesse a capacidade da omnipresença, decerto me aproximava dos energúmenos e lhes pregava um bom par de estalos, além de os atirar para o local mais longínquo possível.

    Abençoada Adelina. Alguém terá aprendido a sua lição?

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  2. Ouvi o testemunho da Adelina e comoveu-me bastante, ou reforçou a minha emoção ao assistir à cerimónia na TV.
    Desde sempre eu e o meu falecido marido transmitimos às minhas filhas o valor e significado do 25 de Abril, também lhes demos a conhecer como lutávamos na clandestinidade, alem de muito jovens que éramos, em 28 de Outubro de 1973 eu com 16 anos já casada e gravida de 8 meses levei tanta pancada à bastonada e pontapé da policia de choque, continuo eu a passar para os meus netos acontecimentos que eles ficam pasmados.

    Sobre Mário Soares li e ouvi coisas horríveis, da maior baixaria, não há respeito,eu conheço pessoalmente quem comprou foguetes antes do fim do ano, não para festejar o ano, mas sim a morte de MS e que se gabou disso.

    Beijinho Carlos

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  3. Há montões de Adelinas pelo país. Pode crer. Mas que as gerações cresçam sem conhecimento do mundo em que se vivia, é bárbaro. O reconhecimento ajuda-nos a formar a identidade pessoal e nacional e forma o carácter.

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  4. A propósito de tudo e de nada as pessoas vomitam venenos, são ordinárias e sobretudo muito violentas.
    Com a maior das facilidades desejam a morte aos filhos ou aos pais dos autores de qualquer tipo de texto.
    É terrível.
    bjs

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  5. São as Adelinas que têm que prestar vivo testemunho do que sofreram para ver se acordam uma juventude adormecida e embrutecida, Carlos.

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