terça-feira, 22 de novembro de 2016

Memórias em vinil (2)


Este foi o primeiro disco que comprei com o meu dinheiro. Ou seja, com o dinheiro que poupei das semanadas que o meu pai me dava. 
O disco é de 1962, mas devo-o ter comprado só em 1964, pois foi nesse ano que conheci Françoise Hardy durante as férias de Verão.
Todos ( com excepção talvez da Teresa) conhecem o grande sucesso "Tous Les Garçons et les Filles" a  canção que lançou Françoise para os tops e inspirou gente famosa como Mick Jaegger e Bob Dylan. (De salientar que era ela quem escrevia a maioria das suas canções).

Tenho todos os discos de Françoise Hardy e é natural que ainda volte a trazer aqui mais algum disco dela mas hoje só tenho ouvidos para este grande sucesso da música francesa.

Caderneta de cromos (51)




Uma vez que não tenho  uma Caderneta de Cromos dos Pequeninos, vejo-me na obrigação de colocar Luís Montenegro, putativo candidato a herdeiro de Passos Coelho, nesta colectânea dedicada a adultos.
Depois desta conferência de imprensa onde Mário Centeno não respondeu à pergunta que ele queria, recorreu a um método muito popular entre os putos:
Ou o governo desmentia até ao final de sexta feira, a existência de um acordo secreto, escrito, com a administração da CGD, ou então o PSD concluia que esse documento existia mesmo.
Eu não sei se na Santana à Lapa brincam muito ao Verdade ou Consequência, jogam berlinde,  lançam o pião, ou fazem concursos de io-ios luminosos. Sei é que está na altura de alguém crescidinho  dizer a Montenegro que   a sede do PSD não é um jardim infantil.
E já agora, em vez de andarem a brincar aos políticos e jornalistas, seria melhor que mantivessem a tradição de brincar aos médicos e enfermeiras. De preferência com preservativos, porque já há laranjas a mais na vida portuguesa a feder de podres.

Erros meus, má fortuna...?






Ontem, na Áustria, assistimos ao primeiro episódio de uma  tragédia que aqui anunciei no di
Vivemos um tempo terrível. O tempo do medo que O’Neill vaticinou um dia tomar conta de todos nós.
Primeiro foi o medo do desemprego. Depois o medo da miséria. Agora o medo da guerra e de que o edifício europeu, com uma estrutura social que demorou décadas a construir, desabe.
A eleição de Trump deixou-nos boquiabertos e quase sem capacidade de reacção, mas não me apanhou desprevenido. Surpresa, mesmo, é ver toda a gente estupefacta e petrificada, perante o consumar de uma tragédia anunciada.
As reacções em cadeia podem ser terríveis. Já no próximo mês, se Matteo Renzi perder o referendo, é elevado o risco de Beppe Grilo vencer eleições antecipadas em Itália.
Ainda em Dezembro, as eleições na Áustria devem confirmar a eleição de um presidente de extrema direita. 
Já em 2017, em Março/Abril, a extrema direita pode vencer as eleições na Holanda e em Maio, seja quem for o candidato vencedor nas presidenciais, França terá um presidente anti-europeu.
Até ontem todos temiam que fosse Marine Le Pen, pelo que muitos já admitiam que Sarkozy seria um mal menor.   Só que ontem Fillon ganhou as primárias da direita francesa e será o candidato ao Eliseu.
A avaliar pelo que leio nas redes sociais, a maioria dos portugueses preferia Juppé mas como Fillon, apesar de ser um reacionário do piorio, é considerado melhor do que Sarkozy, alguns respiram de alívio. E pronto, lá estou eu outra vez a lembrar-me de Houellebecq e da teoria do mal menor. Mas nem vale a pena perder tempo com estas considerações porque, se a vitória de um candidato anti-europeu em França é certa, a UE começará a desmoronar-se em Maio de 2017.
Apesar de ver com muita  preocupação e incerteza os próximos tempos, encaro o futuro com optimismo. (Não vejam aqui uma contradição). Apenas lamento que a idade me impeça de viver, na máxima plenitude, os tempos de mudança que se anunciam. Tenho a certeza de que caminhamos para algo novo. Não sei o que será, mas não será obrigatoriamente pior do que este mundo de alucinados em que vivemos.
A vitória do capitalismo sobre os “amanhãs que cantam” já se deu há muito. Diria que começou a desenhar-se quando a UE se reduziu a uma união económica e financeira e prosseguiu, há mais de duas décadas, quando o mundo financeiro nos impingiu a globalização como algo de mirífico que diminuiria as desigualdades e aproximaria os povos.
Desde sempre chamei a atenção para a mentira do mundo global que nos estavam a impingir, mas as pessoas compraram a ideia da globalização  com entusiasmo. A leveza com que a maioria criticou os que chamaram a atenção para os riscos que o mundo estava  a correr ao embarcar no conto de fadas que o mundo financeiro com sede em Wall Street e nas grandes praças mundiais lhes vendia, foi para mim descoroçoante.  
A futilidade que tomou conta dos cérebros, ligados à máquina pelo desfrute sem critérios das novas tecnologias ( não me refiro, obviamente, apenas às redes sociais) levou muita gente a desistir de pensar e, mais preocupante, tornou as pessoas abúlicas e sem capacidade de reacção.
Quem pensa é olhado com alguma desconfiança, porque deve é desfrutar das coisas boas da vida e deixar a política para os políticos, mas quem pensa  fora da caixa é considerado um indivíduo excêntrico. E mesmo perigoso!
 A sociedade do entretenimento foi útil a quem a engendrou, para satisfazer os objectivos que pretendia.
Em 2016 parece que muita gente que andou adormecida pela sociedade circense que o mundo financeiro criou, está a despertar para a realidade. Espero que nos próximos meses sejam muitos milhões a fazê-lo. Precisamos todos de voltar a preocupar-nos com o mundo em que vivemos. Ter deixado essa tarefa ao grande capital, foi um erro clamoroso. Quando despertámos, percebemos que ele nos deu uma sociedade de entretenimento, com uma parafernália de brinquedos, mas a que a maioria só tinha acesso com recurso ao crédito. E quem concedia o crédito? Os donos do parque de diversões, também conhecidos por banqueiros. No dia em que deixaram de poder emprestar dinheiro, obrigaram toda a sociedade a pagar os seus empréstimos/roubo. E a sociedade de entretenimento passou a ser um circo.
Chegou a altura de não nos conformarmos com este estado de coisas. E de ver o mal menor com um suspiro de alívio. Hillary era má, mas seria melhor do que Trump? Ganhou Trump.
Sarkozy era melhor que Le Pen? Mas Sarkozy nem sequer conseguiu ser candidato e Fillon é uma Le Pen  que urina de pé. Seja qual for o vencedor, todos nós sairemos perdedores.
Não foi por falta de avisos que chegámos aqui. Foi por displicência. Porque acreditamos que a sociedade do “Bem estar” era um dado adquirido e ninguém no-la podia roubar. Porque nos deslumbramos com os brinquedos que o capitalismo criou para nos entreter, distrair e…ADORMECER. Agora, ou a reconquistamos, ou morremos.
Os tempos de ouro não voltarão tão cedo, mas vale  a pena acreditar que este período de mudança não terá o fim inexorável que a maioria prevê. Pelo contrário. Poderemos estar a ter o privilégio de viver um período de mudança, pautado pela riqueza do que é incerto. Daí que veja este período como um desafio para uma mudança que nos proporcione um mundo melhor. Há é que lutar por isso, porque se continuarmos a pensar que alguém fará o trabalho por nós, então adivinho dias sombrios e uma sociedade sem Lei onde não quero viver.