quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Como interpretar as sondagens

Eu bem tinha avisado para terem cuidado com as sondagens...
Depois do que aconteceu com o Brexit e com as eleições americanas, o melhor é mesmo lermos as sondagens às avessas. 
Ganha sempre quem as sondagens diz que vai perder. 

O sonho americano

Lamento, mas não consigo compreender a histeria que por aí vai com a vitória de Trump.  Para a maioria dos americanos, ele é o homem certo para concretizar o  "american  dream": um país fechado sobre si próprio, imune ao que se passa além fronteiras. Foi das ilhas ( Irlanda, Cuba, Grã Bretanha, Açores, etc) que veio a maioria do povo americano que votou Trump e é com esse espírito que os americanos olham para os Estados Unidos e para o mundo.
Andamos sempre a elogiar o povo. Democraticamente, o povo escolheu um tipo perigoso para liderar os Estados Unidos e o povo passou a ser estúpido e ignorante para a esquerda bem falante.
Há 80 anos, os alemães também escolheram democraticamente Hitler, que se veio a revelar um pesadelo para a Europa e para o mundo.
Em 2017, talvez os franceses elejam Le Pen. E daí?
Continuaremos a fazer como a avestruz e a culpar o povo ignorante e inculto de fazer más escolhas?
Se o povo está sempre a escolher mal, mas não o podemos eliminar, será melhor impedi-lo de votar e reduzi-lo a figura decorativa da democracia?
Não me parecendo esta hipótese nada democrática, sugiro que paremos para reflectir, para percebermos que além da manipulação dos media, há uma sociedade doente, que se deixou embalar pelos mecanismos e cultura das redes sociais e, abúlica, se deixou adormecer para não pensar no que se passa à sua volta. Vai sendo altura de acordar.

Pedimos desculpa por esta interrupção

Pausa só para dizer que, apesar das notícias pouco auspiciosas que vêm do lado de lá do Atlântico, neste cantinho à beira mar temos razões para sorrir.
Soube-se hoje que o desemprego desceu para 10,5%. A CE não vai aplicar sanções a Portugal e o OE para 2017 não levantou objecções de Bruxelas.
Apesar destas boas notícias, a comunicação social tuga  apenas está a dar destaque às previsões  pessimistas da UTAO e à revisão em baixa das previsões de crescimento económico  para este ano e o próximo. Pouco importa que a revisão em baixa seja feita à escala global. Para a nossa comunicação social, o importante mesmo é destruir a nossa auto estima.

Era Uma Vez na América

Em 2015 estive na Rússia. Aproveitando uma pausa na visita à Praça Vermelha, conversei um pouco com a guia, para tentar perceber se Putin era popular.
A resposta foi muito pragmática:
"No início dos anos 90, o desmembramento da URSS foi um período dramático para milhões de famílias que, de um dia para o outro, se viram separadas, a viver em países diferentes. Muitos perderam tudo o que tinham, incluindo a sua identidade, sentiram-se apátridas e com o orgulho ferido. Depois desse período os russos precisavam de um presidente que devolvesse à Rússia o seu prestígio e impedisse que o Ocidente a moldasse aos seus interesses. Quando  Putin se candidatou, os russos apenas sabiam 3 coisas sobre ele:
- Tinha sido chefe da KGB
-Não bebia
- Era cinturão negro
Estas três características  criaram nos russos a imagem de uma pessoa com mão forte, capaz de impôr a sua voz  nas instâncias internacionais e fazer com que a Rússia voltasse a ser respeitada no mundo. Por isso o elegeram e continuam a apoiar. A maioria das pessoas que o critica são manipuladas pelo ocidente, através da comunicação social. Putin não é um ídolo, mas as pessoas gostam dele e estão-lhe gratas pelo que fez pela Rússia". 
Lembrei-me desta conversa em Moscovo, logo que  foi confirmada a vitória de Trump e Putin confirmou o seu regozijo pela escolha.
O discurso de campanha de Trump foi dominado, sempre, pela preocupação em ir de encontro ao que os americanos pretendem.  Quem viveu nos Estados Unidos sabe bem que quem falava naqueles discursos era o sentimento e a forma de estar na vida da maioria do povo americano. Por isso, Trump ganhou tão folgadamente.
Com sinceridade vos digo: não acredito que ele cumpra a maioria das baboseiras que anunciou durante a campanha eleitoral. Mas, se por acaso isso acontecer e Trump, num ataque de loucura, carregar no botão, teremos de admitir que foi isso que o povo americano quis e Hillary Clinton não conseguiu contrariar com o seu discurso gasto e cansativo, em torno de temas que já não empolgam ninguém. Pior ainda...em que as pessoas não acreditam, ou nos quais não se revêem. Um exemplo?Os americanos querem comprar armas à vontade. Ah... e são machistas ao ponto de muitos considerarem uma afronta ver uma mulher na Casa Branca.E é bom não esquecer que o racismo não só está entranhado na alma americana, como os sentimentos xenófobos estão a recrudescer.  Finalmente, um discurso virado para dentro, como o de Trump, é o que mais agrada à maioria dos americanos. Para eles, o mundo começa na Costa Leste e acaba na Califórnia. O resto são "peanuts".

Porque conheço razoavelmente bem os EUA e os americanos, devo dizer que mais surpreendente do que a eleição de Trump, é para mim a escolha que os franceses se preparam para fazer em Maio de 2017. Colocar Marine Le Pen no Eliseu era algo que me parecia  do domínio da ficção há duas décadas. A verdade é que isso pode acontecer, por vontade do povo, dentro de seis meses. Porquê? A seu tempo escreverei sobre isso mas, por agora, recomendo-vos que estejam atentos às tendências de voto que vão sendo conhecidas.

KEEP CALM!




Vejamos a eleição de Trump pelo lado positivo:
1- Para começar, sejamos politicamente correctos e reconheçamos que  o povo é soberano, pelo que a vitória de Trump foi a vitória da democracia, ou a democracia a funcionar;
2- Lembremo-nos que Putin sempre se mostrou apoiante de Trump. Ora, saber que os presidentes dos EUA e da Rússia são amigos, é uma boa notícia!;  
3- Agora pensemos friamente:  a extrema direita festejou a eleição de Trump. Como está a crescer nos principais países europeus e Le Pen deverá ser a próxima inqulina do Eliseu, podemos estar tranquilos porque vão todos dar-se muito bem e viveremos todos em paz;

4- Finalmente, sejamos coerentes: se vivemos em democracia e o povo escolheu conscientemente Trump e quer eleger Marine Le Pen e outros ditadores para gerir os seus destinos, temos de reconhecer que às tantas a democracia não era assim tão boa para o povo como pensávamos. 


Olha, afinal o Trump ganhou!

Então bom dia!
Seguiram o meu conselho e dormiram tranquilos?
Fizeram bem, porque há que aproveitar enquanto podem.
O homem laranja será o novo inquilino da Casa Branca a partir de 20 de Janeiro e o seu discurso de vitória até foi fofinho.
Não tarda nada, muitos do que diabolizaram Trump vão dizer que afinal o homem até não é tão mau como o pintam. 
Reparem que as primeiras reacções à vitória de Trump não foram no sentido de o homem ser um perigo para o mundo. Os analistas temem muito mais a reacção dos mercados, sempre muito nervosos, que podem provocar uma nova catástrofe económica e financeira.
Ninguém está preocupado com a possibilidade de Trump carregar no botão e fazer o mundo explodir. Na verdade, nunca ninguém esteve preocupado com isso. O diabo são mesmo os mercados. É isso que move o mundo.
Trump será o 45º presidente dos Estados Unidos. Parece uma aberração, mas é apenas o resultado da sociedade nihilista que todos nós construímos. Na verdade, não foram os americanos que elegeram Trump. Fomos todos nós, apesar de não termos votado. Como se verá dentro de alguns meses, os europeus escolherão amigos de Trump para governar os seus países. Mas isso, fica para um próximo post, lá mais para o fim da manhã.