quinta-feira, 13 de outubro de 2016

E eles a vê-los passar...



Os mais chateados com a atribuição do Nobel a Bob Dylan são os livreiros. Já tinham preparadas resmas de Murakamis e Roths para por nas montras e sai-lhes o Dylan. 
Verdade, verdadinha, é que Murakami há muito merece o Nobel mas, como expliquei em post anterior, a Academia não gosta muito de escritores de sucesso. 

E se fosse Ary dos Santos, podia?



Ainda sou do tempo em que autores portugueses defendiam(ainda que timidamente) a atribuição do Nobel a José Carlos Ary dos Santos.
Ary  escreveu os poemas de muitas das mais belas canções portuguesas do século XX e tem frases publicitárias que fizeram história.
Agora, que o vencedor foi Bob Dylan, Alice Vieira diz que estão a gozar com ela e propõe candidatar Quim Barreiros no próximo ano. 

Presumo que ainda hoje venha alguém dizer que afinal o Saraiva pode ter hipóteses.
Aguardo, fremente de  ansiedade, as opiniões do grande Rodrigues dos Santos e do Saraiva do buraco da fechadura. 

Lá por fora, o vírus anti Dylan também entrou no mundo dos autores. Irvine Welsh, por exemplo, não está com meias tintas e opina sobre a atribuição do Prémio Nobel a Bob Dylan : um prémio marcado pela nostalgia, arrancado das "próstatas râncidas de hippies senis e sem sentido".
Esta malta da escrita está a ficar rançosa e com um aguçado espírito corporativo. No fundo não diferem muito dos taxistas em relação à Uber. O Nobel não pode ser atribuído a um cantautor, porque é concorrência desleal.
Para esta tenebrosa trupe, poesia com música é heresia. Já poesia sem ritmo nem  musicalidade, (estilo Fui à janela. Era meia noite. Vi passar um autocarro vazio. E chovia) é literatura da mais requintada. 

Times they are a changin'




Soube, há minutos,  que o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a Bob Dylan.
Além de espanto, a minha reacção foi de enorme regozijo. Bob Dylan é um dos meus ( ou dos nossos) é como se o Nobel tivesse sido atribuído a um vizinho ou amigo.
Compreendo agora que o atraso na divulgação não se terá devido a uma discordância do júri relativamente aos nomes de Murakami ( O Lobo Antunes japonês, pois todos os anos é referido como nomeado) Adónis ( o sírio seria um premiado politicamente incorrecto) o queniano Thiong'O ( provavelmente o mais politicamente correcto)  ou o americano Philip Roth ( demasiado mediático  para uma Academia que gosta de galardoar autores mais recatados e menos conhecidos do grande público).
Entre os 20 "favoritos" das principais casas de apostas, nunca surgiu o nome de Bob Dylan,  mais conhecido como o cantor de uma geração, do que pelos seus livros de poesia. A distinção é ainda mais surpreendente por se tratar de um compositor (músico) e pela justificação do júri "por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana". Apetece dizer:importa-se de repetir?
Adivinho a relutância de alguns dos membros do júri em aceitar a nomeação de Dylan, mas passo por cima disso e prefiro pensar que a justificação para o Nobel se encontra nas palavras de uma canção do poeta do beatnik:
"Times they are a changin"

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'


The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.


Num tempo em que a Guerra Fria volta a ser uma ameaça, as pessoas já perceberam o embuste da globalização  e os povos desistem da democracia, o Nobel da Literatura a Bob Dylan poderá não despertar consciências, mas pode ser um sinal que a Academia Sueca percebeu que vivemos um tempo de mudança.