quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os turistas são uns malandros(2)

Porque destruíram as nossa praias do Algarve.
Dando de barato que a culpa é do turismo ( o que não corresponde  inteiramente a verdade) lembro que os portugueses que se insurgem contra esse
"turismo selvagem" não tiveram as mesmas preocupações quando invadiram as praias do Nordeste brasileiro, das Caraíbas ou do sudeste asiático, contribuindo para a sua descaracterização. 

Foi então que senti a revolta a crescer dentro do peito

A outra entrevista- a que me referia ontem no post sobre o SNS - foi publicada na revista Visão da semana passada. A entrevistada, Fátima Cardoso, dirige o programa de investigação do cancro da mama na Fundação Champalimaud.
Nasceu em Moçambique de onde saiu com 8 anos e, ao contráriodeste fenómeno da natureza, não tem memórias de África porque- diz- teve amnésia pós traumática.
Bem presente na memória de Fátima Cardoso estão outros momentos que nos dão sobejos motivos para questionar o que andamos por cá a fazer além de caçar Pokemons, esperar  em longas filas para comprar uma fartura, o livro do Harry Potter ou a última novidade tecnológica ( porque queremos ser os primeiros) sem um protesto, ou acusar o  governo e os calhordas dos funcionários públicos que nos obrigam a esperar uma hora na repartição de finanças para pagar uma multa por não termos sido diligentes e conscienciosos na  declaração do IRS.
Entre as memórias bem presentes de Fátima Cardoso está a dificuldade no recurso à quimioterapia oral, por questões meramente burocráticas, ou a administração de um número exagerado de sessões de radioterapia, porque esse é o interesse ( económico) dos hospitais.
Outro momento digno de registo na entrevista é quando Fátima Cardoso alerta para a dificuldade em aceder a medicamentos  antigos,  baratos e muito eficazes no combate ao cancro, em detrimento de medicamentos novos, muitíssimo caros e que só funcionam associados aos medicamentos antigos. A continuar assim, alerta, “deixamos de poder tratar cancros, porque os medicamentos inovadores e caros são para um grupo limitado de doentes”.
A médica lembra que esteve mais de um ano sem acesso a um corticoide indispensável para o tratamento de metásteses cerebrais. O medicamento até estava a ser produzido pela indústria, mas em quantidades reduzidas e o que se produzia era desviado pelas distribuidoras para a Alemanha que paga  cinco vezes mais.  Esta aberração  explica-se porque as distribuidoras invocam o mercado livre, essa  maravilha tão sedutora que, em nome do lucro, dá carta de alforria para deixar morrer pessoas.
A entrevista a Fátima Cardoso permite perceber, de uma forma muito clara,  os interesses que se movem por detrás de quem pretende destruir o SNS. No futuro, vale a pena estar atento e tirar as devidas conclusões, quando um ex governante for contratado por uma farmacêutica…
É cada vez mais notório que caminhamos para uma Medicina a duas velocidades, onde quem tem dinheiro para pagar tem acesso a medicamentos e quem não tem morre. Continuando assim, um dia destes havemos de querer SNS, mas não o vamos ter- como já alertava a minha mãe.
Se outros factores supravenientes  não anteciparem a necessidade de o fazer, quando a extinção do SNS ( ou a sua redução a serviço para pobres) for uma realidade, muitos perguntarão se valeu a pena o esforço para aumentar a esperança de vida. 


Não será uma conquista reservada apenas a quem tem dinheiro, cujo investimento científico foi  custeado pelo Zé  Contribuinte ( que dele não irá beneficiar), porque os ricos não só não pagaram a crise, como também fogem aos impostos?