terça-feira, 5 de julho de 2016

Passa-me aí o anão, s.f.f.




Trinta anos depois de se ter tornado moda nos EUA, chegou a Portugal o passatempo "Arremesso do Anão", um dos episódios mais marcantes do filme "  O Lobo de Wall Street", protagonizado por Leonardo di Caprio.
Fazendo jus ao espírito empreendedor que caracteriza os  portugueses, uma empresa com o sugestivo nome de Mundial Eventos disponibiliza anões em despedidas de solteiro, ou festas de empresa. Pela módica quantia de 994 euros, qualquer grupo de cidadãos pode dispor de um anão ao seu serviço durante 15 minutos, para se divertir e competir, já que o objectivo é lançar o anão o mais longe possível.
Eu não sei que raio de gente se diverte a arremessar um anão, utilizando-o como mero objecto, para satisfação de prazeres lúdicos. Estava até disposto a lançar uma petição, no sentido de proibir este tipo de "brincadeiras" que, na minha santa inocência, pensava  serem uma  afronta à dignidade e aos direitos de um ser humano.
Pura ilusão!
Ao ler há semanas na revista Visão um acalorado debate entre juristas e advogados, fiquei a saber que é um direito que assiste a qualquer anão  (ou outro qualquer ser humano, depreendo) deixar-se alugar para satisfazer as apetências lúdicas de outros seres humanos. Mais me esclareceu um  advogado(certamente profundo conhecedor da matéria), que proibir o "arremesso do anão" ofenderia gravemente a Constituição e a liberdade de iniciativa.
Eu sei que os advogados e juristas são aquela espécie humana que pensa dentro de paralelepípedos a que chamam Códigos, mas doeu-me de tal maneira  percepcionar a indiferença com que alguns encaram a vida humana, que logo me preparei para esgrimir com os argumentos dos anões em sua defesa.
Surpresa! Não é que os anões defendem acerrimamente o seu direito a ser objecto de diversão, com o argumento de que está em causa o seu direito ao trabalho?
Desisti de lutar pela defesa dos direitos dos anões e, receio, dentro em breve talvez deixe de lutar pelos direitos de outros que, penso eu, estão a ser vítimas de uma sociedade perversa e doente. Até porque me lembrei de outra cena ocorrida há dias junto a Almaraz, a que tive o desprazer de assistir.
Os manifestantes alertavam para os riscos de manter a funcionar  uma central nuclear cujo prazo de validade já expirou há quase uma década. Exigem, por isso, o encerramento da central e avisam que estão em risco milhares de vidas de portugueses e espanhóis, no caso de haver um acidente.
Bem perto, um grupo de trabalhadores da central fazia-se ouvir, exigindo a continuidade da laboração, porque estão em casa muitos postos de trabalho e o sustento de muitas famílias.
Compreendo as suas razões. Como compreendo a de licenciados que aceitam empregos a receber o salário mínimo, sem contratos e à jorna, porque precisam de sobreviver.
Esta é a realidade do nosso país, ( de boa parte do mundo, na verdade...) apenas uma das vítimas do grande sucesso que foi a globalização. Pergunto apenas: até quando irão as pessoas aceitar estas condições  de vida e de trabalho, sem uma revolta?
Enquanto não obtiver reposta, passem-me aí um anão, se faz favor!
É só para libertar o stress...