quarta-feira, 29 de junho de 2016

Vamos contar mentiras

Há cerca de dois meses, a comunicação espalhou a notícia de que o TIPP ( Tratado Transatlântico  para o Comércio e Investimento) estava a ser negociado às escondidas.
Durante uns dias foi uma indignação  geral mas, de repente, ninguém mais falou nisso.
Uma vez que as negociações começam em Julho, pareceu-me oportuno  voltar ao assunto, começando por esclarecer que é mentira que o TIPP ande a ser negociado às escondidas.
O grande problema é ser demasiado transparente...
Em 2014 participei numa sessão de esclarecimento do ministério da economia sobre o TIPP. Fiz as perguntas que quis, mas não recebi as  respostas desejadas. Apenas fiquei com mais  dúvidas, que tentei esclarecer com recurso a outras fontes. Obtive alguma informação complementar e escrevi um artigo sobre o assunto que ofereci a dois jornais. Nenhum deles manifestou interesse na sua publicação. Alegaram ser um assunto que não estava na ordem do dia.
Compreende-se. Sempre é mais fácil, mais barato  e vistoso, pegar num artigo de um jornal com prestígio e, a partir dele, fazer  um artigo "corta e cose", como se tivesse sido elaborado depois de aprofundada investigação.
A nossa comunicação social foi "apanhada com as calças na mão" em matéria de TIPP, porque anda distraída com as intrigazinhas internas e não deu ouvidos aos que alertaram em diversos fóruns para os perigos que se escondiam por detrás do TIPP. Vai daí, para se desculpabilizarem da sua preguiça, optaram por dizer que  o acordo estava a ser negociado nas costas das pessoas. É verdade, mas a denúncia é muito tardia.
Por outro lado, o grande problema do TIPP não é falta de transparência...é ser claro demais e não deixar dúvidas sobre a sua falta de democraticidade, o atropelo à justiça, o retrocesso civilizacional e os efeitos desastrosos para trabalhadores, consumidores e produtores.
Modelos  de produção e investigação que se mantêm diferenciados dos dois lados do Atlântico;  desinvestimento na informação ao consumidor, nomeadamente pela simplificação da rotulagem, que permite, por exemplo, ocultar dos consumidores a  inclusão de produtos transgénicos na produção ( nomeadamente alimentar);  alteração da etiquetagem, eliminando a denominação de origem ou recurso a testes com animais em laboratório, são algumas das questões preocupantes para os consumidores e produtores europeus.  
Preocupante é a intenção de fazer  tábua rasa dos acordos ambientais, ignorando não só os acordos de Paris ( eu tinha avisado na altura...) mas permitindo o regresso a métodos de fabrico e utilização de produtos altamente poluentes. 
A desregulação da actividade bancária e  a flexibilização laboral, são outros temas em cima da mesa, mas nenhum  deve causar grandes problemas a um grupo de bandidos que, sem mandato para isso, estão a negociar com os EUA um acordo selvático que empobrecerá a Europa e representa um retrocesso civilizacional de várias décadas.
Os pontos de maior fricção  durante as negociações deverão centrar-se  na salvaguarda de produtos europeus  protegidos, de modo a garantir a origem do produto  e a proibição de utilizar a mesma denominação quando produzida noutros locais ( Ex: vinho do Porto, Champagne, queijo Roquefort, etc só poderão ser comercializados com esse nome, desde que produzidos nas regiões demarcadas).
 A lista inicial tem vindo a encolher, estando agora reduzida a 150 produtos, dos quais 20 são de produção portuguesa ( Vinhos do Porto e da Madeira; Ameixas de Elvas, Pera Rocha  e Ananás dos Açores; Azeites de Moura, Alentejo Interior, Beira Baixa, Trás os Montes e Ribatejo; Queijos de Niza, S. Jorge, Serra da Estrela, Serpa e Castelo Branco. Finalmente, em matéria de enchidos, Chouriça de Carne, Salpicão e Linguiça de Vinhais, Chouriço de Portalegre e Presunto de Barrancos).
Há ainda questões relacionadas com produtos farmacêuticos,  medicamentos, uso de animais em testes laboratoriais  cujas divergências não domino, mas que prometem fazer subir a temperatura nas salas de reuniões dos diversos grupos de trabalho.
Todas estas questões são conhecidas desde há muito e têm sido alvo de debate aprofundado na comunicação social americana e em alguns países europeus. Foi mesmo debatido no âmbito do Parlamento Europeu, com fortes críticas dos deputados que, numa fase inicial, tiveram dificuldade de aceder a toda a informação. Por cá, os jornais acordaram há dois meses e voltaram a adormecer. Um dia destes acordam estremunhados e vai ser um fartote de primeiras páginas e debates televisivos.