terça-feira, 28 de junho de 2016

Encalhado numa tarte de maçã





-Então hoje não leva maçãs reineta?
- Não.
-Porquê?
- Porque as últimas vezes que levei maçãs daqui estavam todas bichadas por dentro.
- Coitados dos bichinhos, também têm direito a comer maçãs.
- Pois têm mas o PAN que pague as maçãs deles, porque eu não tenho dinheiro para alimentar os meus vícios, quanto mais os dos animais.
- E continua a gostar de tarte de maçã?
- Sim. Como sabe?
- Servi-o  muitas vezes, durante vários anos, num restaurante ao pé da AR. Sempre que o senhor  chegava eu já sabia o que queria: hambúrguer com batata assada e, de sobremesa, tarte de maçã. Era sempre eu que o servia e nunca mais me esqueci da sua cara!
- E lembra-se quando foi isso?
- Claro que lembro. Trabalhei naquele restaurante entre 89 e 94!
- Muito bem. Boa memória!
- O senhor não se lembra de mim, pois não?
- Não. Peço desculpa, mas nunca fui muito bom a fixar nomes e caras. É um problema, porque às vezes faço figura de malcriado…
- Não tem mal. Eu compreendo…
( Momentos depois, já na rua)
- Então ias àquele restaurante e não te lembras da rapariga? Ao menos podias ter dito “ai, agora que fala estou a reconhecê-la…”- Mas como é que eu podia dizer isso se nem sequer vivia em Portugal naqueles anos?
- Então porque é que não desfizeste o engano?
- Viste o sorriso de felicidade dela por me ter reconhecido?
- Vi…
- Achas que tinha o direito de lhe dizer “ olhe, deve estar enganada, não era eu, deve estar a confundir-me com outra pessoa…”