terça-feira, 31 de maio de 2016

Cães de Palha


Não comento este vídeo. Só digo que depois de ver isto e de assistir à reacção escabrosa nas redes sociais, a uma entrevista de José Cid a Nuno Markl, realizada em 2010, sinto uma enorme vergonha.
Um país com tanta coisa boa para se ver e desfrutar, merecia melhor do que um povo de autómatos que reage como cães de palha depravados a uma qualquer campainha pavloviana, accionada nas redes sociais.

Don't cry for me Argentina



Um dia percebi que me tinha tornado colecionador de marcadores de livros. Não foi programado.  Foi mesmo mero acaso Comecei a guardar os marcadores que vêm com os livros e, às tantas, descobri que tinha algumas centenas. A partir desse momento, passei a dar-lhes mais atenção. Separei-os em categorias e tentei pôr alguma ordem na anarquia em que eles estavam. Não é tarefa fácil. Principalmente quando se insiste em não separar os marcadores, dos livros onde vinham inseridos. Mas lá me vou entendendo no meu caos que só eu sei decifrar.
Esclareço, desde já, que apesar de me ter tornado colecionador não entrei na febre de andar à procura de marcadores em tudo quanto é sítio. Procuro respeitar um princípio: só fazem parte da colecção, aqueles marcadores que vierem ter comigo inseridos em livros. Raramente comprei marcadores. As vezes que o fiz foi em lojas de museus, mas não lhes dei a honra de  integrar a minha colecção. Não gosto de promiscuidades. Faço também questão de pedir aos meus amigos que sabem desta minha tara, para não me oferecerem marcadores. Quando alguém desrespeita o meu pedido, recolho o marcador e coloco-o numa espécie de limbo, até decidir se vão integrar a colecção de museus, ou ficam numa colecção autónoma.
Desde que consciencializei que me tornara colecionador, não me lembro de ter alguma vez perdido algum. No entanto, há sempre uma primeira vez. Aconteceu recentemente com o marcador  do livro da Helena Ferro Gouveia, cuja apresentação decorreu na Livraria Ferin.
O marcador faz a promoção de uma viagem literária a Buenos Aires, promovida pela própria livraria, se não estou em erro.
Chamou-me particularmente a atenção, pois fazer o percurso da Buenos Aires de Borges, foi um primeiro passo para  me  apaixonar pela capital Argentina.
Quem me segue há mais tempo sabe da minha ligação ao país das Pampas, que percorri de lés a lés  numa aventura fascinante  entre Ushuaia a La Quiaca. Não fora o problema de saúde que me afectou e a esta hora estaria a gozar a reforma algures na Patagónia, entre Esquel e Cafayate. O destino trocou-me as voltas, mas não tinha perdido a esperança de uma última viagem à Argentina (pelo menos a Buenos Aires, Pinamar e Ushuaia) para me despedir. Perdi-a agora, quando o meu marcador de Buenos Aires se escafedeu por entre pedras da calçada ou um inconveniente esmero da empregada doméstica que, vendo-o abandonado em cima de algum móvel, o confundiu com lixo e o encaminhou para o ecoponto.
Não é a perda do marcador que me atormenta (se fosse à Ferin pedir um, certamente  não mo recusavam). O problema é a premonição que eu vislumbro por detrás desta perda. Interpretei-a como um sinal de que não voltarei à Argentina e isso tem-me atormentado os dias.

De degrau em degrau