terça-feira, 24 de maio de 2016

Como as cerejas


Os posts são como as conversas que, por sua vez, são como as cerejas.  Foi assim que, a propósito deste post, me lembrei deste outro escrito em 2008, relacionado com a crendice e ingenuidade dos consumidores.

Estava o país a ser invadido por uma avassaladora onda de empresas de venda de colchões ortopédicos, a que cada uma juntava as propriedades adequadas aos consumidores que pretendiam iludir. Um casal, de idade já avançada, foi atraído a um desses locais de venda pelos processos já sobejamente conhecidos, mas mantinha-se irredutível em desembolsar uns milhares de euros para comprar o colchão. O vendedor, perspicaz, mas sem sucesso no recurso aos habituais argumentos, invocou um novo: aquele colchão produzia efeitos iguais aos do Viagra!. O casal entreolhou-se, trocou em recato algumas palavras e passado algum tempo decidiu-se. Negócio fechado, a troco de cerca de 3 mil euros a pagar em prestações suaves, com recurso ao crédito. O problema surgiu quando o casal constatou que fora enganado e, invocando o prazo de reflexão de 14 dias, pretendeu anular o negócio!...

Em tempo: e  já agora, ainda a propósito de cerejas... alguém as viu por aí?

Momento Boca Doce



Para as /os apaixonadas/os dos éclairs, tenho o prazer de informar que no próximo mês de Julho abre, em Lisboa, a Leitaria da Quinta do Paço.
Agora, quando forem ao Porto, já podem dispensar o tempo para comer o mais famoso éclair do país e aproveitá-lo para conhecer outras especialidades doceiras em que o Porto é muito rico.

Porto Sentido ( um post para perder alguns amigos)



No bar do Hotel D. Henrique


Ontem, à hora do almoço, fui confrontado por pessoa amiga com o post que escrevi sobre o livro de Henrique Raposo, "Alentejo Prometido".
Quem me acompanhava na amesendagem  interpelou-me directamente:
- Se alguém  nascido tripeiro escrevesse um livro sobre o teu tão amado Porto, denegrindo a cidade, reagirias com a mesma fleuma?
A resposta saiu-me espontânea, rápida e sem rodeios:
Sem dúvida que sim. Depois de ler o livro e antes de escrever o post, coloquei-me nessa posição e não demorei muito tempo até encontrar a resposta. Se escrevesse um dia um livro sobre a minha infância e juventude no Porto, não seria meigo.
A minha rejeição à cidade começou aos 12 ou 13 anos. Foi com essa idade que percebi que me tinha de pirar de lá. Apesar dos amigos, da vida feliz que aparentemente levava, sentia-me amarrado a um colete de forças. Sem espaço para respirar e poder ganhar asas para voar.
 Escolhi Direito para vir para Lisboa, porque detestava a claustrofobia do Porto, mais parecido com um bairro grande onde todos se conheciam e intrometiam na vida uns dos outros. Sempre adorei a história e a arquitectura do Porto mas, socialmente, o Porto era uma cidade detestável. Não suportava o bairrismo , a auto contemplação e aquela imagem superlativa que as pessoas   projectavam de si próprias para o exterior, que tresandava a provincianismo- versão pobre de bairrismo bacoco. Como se para além das fronteiras do Porto não existisse vida, ou a cidade fosse o centro de um mundinho onde as pessoas se sentiam estrelas bizarras de uma companhia provinciana.
O Porto visto por CBO
Nos jardins do Palácio de Cristal

 Tive momentos muito felizes na cidade, sem dúvida, mas quando vim para Lisboa suspirei de alívio- apesar das saudades dos amigos.Foi como se me libertasse de um colete de forças e sentisse finalmente a vida a oferecer-se, desnuda, à minha frente. Sabia que Lisboa seria apenas uma etapa. O meu objectivo era saltar além fronteiras e correr mundo como, felizmente, veio a acontecer.
Não é certamente por acaso que hoje em dia os meus melhores amigos do Porto sejam os que tal como eu saíram de lá para estudar, ou logo que terminaram os estudos. Rumaram aos Estados Unidos ou à Europa e só regressaram décadas depois. Alguns estiveram em Macau numa terceira ou quarta experiência além fronteiras.  Como eu.
Alguns reencontraram-se com o Porto depois de uma passagem prolongada por Macau. Foi esse também o meu caso. Apaixonei-me pelo Porto aos 50 anos, mas não pelo Porto que conheci na adolescência. Esse está bem morto e enterrado e se por vezes o recordo neste Rochedo, é para lembrar as reminiscências de coisas boas.
Da varanda do meu quarto no Hotel D. Henrique

A cidade hoje está muito mudada.Para melhor, obviamente. Cosmopolita, aberta, moderna e descomplexada ( apesar de alguns resquícios de bairrismo que se reflectem em notas picarescas). Isso não impediria, obviamente, que escrevesse o que pensava ( e penso) do Porto dos anos 50/60/70. Tal como as pessoas, as cidades também mudam com a idade. Umas pioram, outras tornam-se melhores. Rejeitar isso é iludirmo-nos, ou mesmo mentir. Estás satisfeita com a resposta?
- Estou, mas creio que se escrevesses um post no teu Rochedo ou no FB a relatar esta conversa, ias arranjar alguns inimigos...
- Talvez tenhas razão, mas prefiro ter inimigos a falsos amigos. A frontalidade é uma característica que eu aprecio muito nos tripeiros genuínos.