quinta-feira, 5 de maio de 2016

Era uma vez na América

Depois de ser  noticiada como irreversível a escolha de Donald  Trump como candidato dos conservadores, após a vitória no Indiana  e a desistência de Ted Cruz,  as sondagens estão a dar a vitória de Donald Trump sobre  Hillary Clinton nas presidenciais americanas de novembro próximo.
Eu sei que são apensa sondagens, mas há um ano ninguém vaticinava que Trump fosse candidato à Casa Branca e, muito menos, que pudesse vencer a corrida. 
Hoje a tendência é outra e é caso para dizer: tenham medo. Muito medo. Se Trump for o próximo  +presidente dos Estados Unidos, o  mundo não vais ser um sítio nada agradável para se viver.

Será um negócio da China?


O post anterior fez-me  recordar este outro, escrito no CR em 2008, após uma romagem de saudade à China, para recordar tempos em que fui muito feliz. A cena passou-se em Cantão, não sei se as adopções ainda se processam assim, mas estou certo que o Pedro Coimbra nos dará informações actualizadas sobre este tema.


Na China há 100 milhões de filhos únicos, devido ao controlo de nascimentos imposto pelo governo desde final dos anos 70, que sanciona os casais com mais de um filho com multas pesadas. A excepção são os gémeos.
Apesar de algumas medidas de controlo serem próprias de barbárie, não cabe aqui tecer críticas à medida adoptada nos anos 70, mas peço aos leitores um momento de reflexão e pensem como seria o planeta sem o controlo de natalidade na China.
A redução da natalidade – agora aceite por muitos casais jovens- trará a breve prazo outro tipo de problemas, como o envelhecimento da população e a desproporção entre os dois sexos. É que é muito comum os pais que têm uma filha darem-na para adopção ( já no tempo em que vivi em Macau ouvia dizer, mas nunca pude confirmar, que muitos matam o primeiro bebé se for menina) a famílias estrangeiras. Dentro de alguns anos, haverá milhões de chineses condenados ao celibato, por não terem mulheres chinesas com quem casar
A política do filho único também fez aumentar o individualismo e o egoísmo, criando uma geração cheia de problemas. Tudo isto está a contribuir para um certo abrandamento na aplicação da lei, mas é ainda cedo para se poderem tirar conclusões.
Cantão é um entreposto chinês para adopção de crianças.
Aumenta de forma acelerada o número de casais europeus , americanos e australianos que aí vão , com o intuito de adoptar crianças chinesas. O processo de adopção é bastante fácil - existem muitas bébés à espera de serem adoptadas- mas obriga a que um casal permaneça um mínimo de duas semanas na cidade. É por isso frequente ver dezenas de casais passeando com bebés chinesas ao colo ou dentro de carrinhos. Os centros comerciais são um dos locais privilegiados por estes casais para passar o tempo. Foi num desses locais que ouvi esta conversa entre duas portuguesas carregadas de sacos e frenéticas na azáfama das compras:
- São tão giros estas bebés chinoquinhas, que parecem mesmo um brinquedo.... Se fosse mais nova ainda convencia o meu marido a levar uma!
-
Cala-te lá, filha! E depois quando ela crescesse? Não a podias abandonar na rua como fazes com os cães...




PS: Para quem duvidar, afianço que há testemunhas desta conversa

A adopção é um negócio? Yes, Minister!







O caso de uma emigrante portuguesa em Inglaterra, a quem foi retirada pelos serviços sociais de Sua Majestade uma criança com nove dias de vida, imediatamente entregue para adopção, trouxe-me de imediato à memória os tempos da ditadura argentina, em que mães eram raptadas pelos militares e separadas dos filhos à nascença, sendo posteriormente entregues a famílias abastadas com influência junto do poder.


Mas como foi em Inglaterra que o caso se passou e por estes  dias o caso Maddie ,  voltou a ser notícia, resisti à tentação da comparação e centro-me no que se passa em Inglaterra com a adopção.
Lembro que na altura muita gente opinou que os pais eram irresponsáveis e sentenciou como pena aplicável a tanta negligência a retirada dos restantes irmãos da tutela do casal Mc Cann.
Tive oportunidade de reagir- um pouco à bruta como é meu hábito-  contra os que decretavam tal sentença mas, anos volvidos e perante o caso da criança com 9 dias retirada pelos serviços sociais a uma emigrante portuguesa em Inglaterra, estou em vias de dar razão aos mais virulentos na análise do caso Maddie.  Se a lei, em Inglaterra, fosse aplicada de igual modo a imigrantes e súbditos  próximos dos primeiros ministros britânicos, os Mc Cann neste momento não teriam qualquer filho à sua guarda. Mas – todos sabemos- seja em Inglaterra, em Portugal ou na China, a lei é iníqua e mais pesada para quem trabalha e não tem relações privilegiadas com o poder.


É verdade que a mãe da criança portuguesa  entregue para adopção pelas autoridades  de Sua Majestade violou a lei inglesa ao recusar abrir a porta à polícia e ao médico. Igualmente verdade é  o pai já andar debaixo de olho das autoridades, por causa de uns produtos que vendia na Internet, mas…  retirar uma criança com 9 dias da tutela da mãe e entregá-la para adopção  é defender os interesses da criança?


Qualquer pessoa de bom senso sabe que não portanto, o importante é perceber a razão porque nos vendem essa ideia. A resposta parece demasiado simples, quando analisamos os números:


- Todos os anos, em Inglaterra, cerca de 700 mil crianças são retiradas aos pais e entregues para a adopção;


- Entre 15 a 25 por cento destas crianças são filhas de casais imigrantes;


- O governo britânico gasta anualmente cerca de  2 biliões de libras com instituições de adopção e famílias de acolhimento;


- As famílias de acolhimento recebem cerca de 600€ semanais, por cada criança que acolhem.


Creio não restarem dúvidas sobre o negócio  que está por detrás da adopção mas, atenção, porque dizem os especialistas que não é um negócio que se limite a terras de Sua Majestade. É um negócio em grande expansão que, inclusivamente, já terá chegado a Portugal.


E já que falo em Portugal, urge perguntar:


- A criança retirada à mãe portuguesa terá nacionalidade inglesa, portuguesa, ou ambas? Não poderão as autoridades portuguesas intervir para resgatar a criança? Mas, mesmo que isso seja possível, que males irreversíveis terão já sido causados à criança, quando houver uma decisão judicial?


Palpita-me que entre o negócio da adopção que floresce na democrática Inglaterra e as adopções forçadas durante a ditadura militar Argentina, as diferenças residem na moeda. Mas é extremamente preocupante que se invoque a democracia para legitimar um negócio imoral.