quarta-feira, 27 de abril de 2016

Antes que me esqueça..




( Continuação do post anterior)

Ah, é verdade, já me esquecia... Os CTT agora têm um banco.  Ontem fui ao posto  de correios de uma área de residência que não é a minha, para saber o que tinha o banco para me oferecer.    A minha senha era a número 03, mas no ecrã aparecia em atendimento a senha nº09.
Como não estava ninguém a ser atendido,  nem a atender, nos guichets do banco, dirigi-me a um balcão de atendimento geral e chamei a atenção para aquela situação estranha. A senhora ( simpática) que ouviu a minha queixa, disse que ia chamar a colega. Esperei 15 minutos até que uma funcionária ocupasse o seu posto no balcão do banco. Perguntei-lhe  quais eram os serviços financeiros que o banco disponibilizava aos clientes, nomeadamente poupança/investimento.
A senhora deu-me um flyer publicitando o banco, os depósitos à ordem e um depósito a prazo a uma taxa igual à praticada pela Caixa Geral de Depósitos.
Ainda pensei perguntar para que servia o banco dos CTT , mas o ar aflito da funcionária, temendo não saber responder a uma pergunta que eu lhe fizesse, demoveu-me. Temi que, ao fazer alguma pergunta sobre a utilidade  do banco, pudesse vir a ser confrontado, posteriormente, com um inquérito à qualidade dos serviços.
Como a avaliação não poderia ser boa, mas isso não era culpa da funcionária, receei que a sequência de uma má avaliação fosse o despedimento sumário de uma senhora que ali está a receber o seu ganha pão.
Agradeci o flyer, despedi-me com um sorriso forçado e encaminhei-me para a estação do Metro a pensar "Ainda bem que privatizaram os CTT e há um banco novo em Portugal para aumentar a  oferta."
Quando entrei no Metro, ia a cantarolar a canção dos Rio Grande (que podem escutar clicando na imagem acima) e tive saudades dos CTT. 

Viva a privatização dos CTT!


Quando Os CTT eram públicos, se  o carteiro trazia uma encomenda registada, tocava à campainha para saber se estava alguém em casa antes de deixar um postalzinho a avisar que devia passar pelo posto do correio para a levantar. Agora, o carteiro não perde tempo com essa minudência. Deixa o postalzinho e eu que vá ao posto levantar.
Quando os CTT eram públicos ia ao posto dos CTT da minha área de residência, tirava uma senha e esperava a minha vez num lugar sentado e protegido. Agora, que os CTT foram privatizados, as pessoas chegam ao posto e, se lá estiverem mais de 3 pessoas têm de esperar em pé, na rua, à chuva ou à torreira do sol. Sem senhas, numa base "first to come, first to go" que alguns chicos espertos aproveitam para boicotar.
Quando os CTT eram públicos, o posto da minha área de residência tratava de assuntos postais, vendia produtos financeiros de poupança, livros e a lotaria.
Agora, que integra esse maravilhoso mundo da iniciativa privada, o posto dos CTT da minha área de residência parece a loja do "Tem Tudo". Chamam-lhe posto multifunções, ou multisserviços, os funcionários que  estão no front desk parecem extraterrestres acabados de aterrar num planeta onde tudo lhes é estranho. Até a simples tarefa de verificar um documento, ou fazer um simples registo, é algo de sobrenatural que torna uma ida àquele serviço público explorado por privados, uma aventura irrepetível.
Só uma coisa não mudou substancialmente, excepto num pequeno pormenor. Quando eram públicos, os CTT  davam lucro. Agora, que são privados, dão ainda mais lucro. Quando eram públicos, os lucros revertiam ( supostamente) para os contribuintes. Agora, que são privados, os lucros são distribuídos lelos acionistas e pelas chefias mais eficientes ( leia-se: aquelas que conseguem despedir mais pessoal). É apenas um pequeno pormenor, mas faz toda a diferença!

Sobre a dificuldade de dar



Há tempos contei aqui a dificuldade que tive em oferecer uma boa parte dos meus livros. Pretendia oferecê-los a bibliotecas municipais, mas as dificuldades que me colocaram para os receber e o facto de só poderem recebe 5 ou 10 livros de cada vez, levaram-me a optar por outra solução que  em breve será posta em prática e irá servir a comunidade onde me insiro com mais proveito do que nas bibliotecas. Pelo menos assim o espero…
Vem este  introito a propósito  de um caso divulgado recentemente pelo Sexta às 9. O tema era  a “caridade enganosa” trouxe-me à memória  um episódio  mais recente,  que ilustra a dificuldade que é dar neste país.
Após o falecimento da minha Mãe pus à venda a minha casa no Porto. O recheio foi vendido antecipadamente mas, para além de algumas peças que ofereci, ficaram as roupas da minha mãe e de casa que, por estarem em muito bom estado, decidi oferecer a instituições.
A primeira instituição que contactei foi a Caritas, pois a minha Mãe foi lá voluntária durante mais de duas décadas e sei que as roupas são entregues a quem precisa. A responsável com quem falei foi simpatiquíssima e ficou muito entusiasmada com a oferta, pois conhecia a minha Mãe. Havia, no entanto, um problema. Eles não podiam ir buscar as roupas, porque não tinham meio de transporte, pelo que teria de ser eu a  empacotar tudo e transportar até à sede da Caritas. Expliquei que eram muitas dezenas de peças de vestuário e ainda sapatos, carteiras, roupas de cama, cobertores e colchões que gostaria de oferecer, mas o meu estado de saúde não me permitia estar a empacotar tudo. Pedi, por isso, que alguém fosse lá a casa empacotar e prontifiquei-me a contratar uma empresa que garantisse o transporte.
A senhora agradeceu muito a minha disponibilidade, mas confirmou a impossibilidade de a Caritas deslocar alguém lá a casa para ajudar a empacotar as coisas que eu pretendia oferecer.  A única coisa que poderia fazer era indicar-me uma instituição que, garantidamente, daria bom uso e destino adequado ao que eu pretendia oferecer.
Agradeci e fiquei com o contacto.
Entretanto, telefonei a  pessoa amiga da minha Mãe a perguntar se sabia de alguma instituição que precisasse do que eu tinha para oferecer. De pronto me indicou o nome de uma ,instituição que, pretensamente, apoiaria sem abrigo.
Contactei-os de imediato. Manifestaram interesse e, no dia seguinte, pela manhã lá estava uma carrinha com quatro homens para fazer a recolha. Quando lhes mostrei as roupas, aquele que devia ser o encarregado disse-me:
- Não queremos nada disto, obrigado. Isto são roupas que não interessam aos nossos associados. Ninguém vai pegar nisto, porque estão fora de moda.
Olhei para várias peças que nem sequer tinham sido estreadas, engoli em seco e perguntei:
- Então e os cobertores ( a maioria em estado impecável) e os colchões, não vos interessam para os sem abrigo ?
- Não. O melhor que tem a fazer é queimar isso ou levar para uma lixeira. Nós só recolhemos material que tenha valor comercial para vender.
 Compungido, telefonei aos Companheiros de Emaús, a instituição que me tinha sido indicada pela Caritas.  Nessa mesma tarde apareceram  quatro homens e um padre que me contou a história da  Comunidade.  Levaram tudo quanto eu tinha para oferecer e, ao verem uns sacos com restos de tecidos que eu pensava deitar fora, perguntaram-me se também os poderiam levar. Obviamente acedi.
Quando iam de saída, um dos homens perguntou-me:
- O senhor desculpe, mas o que vai fazer às cortinas que aqui tem?
- Vão ficar aí. As pessoas que compraram a casa dar-lhe-ão o destino que entenderem
- O senhor importava-se se nós levássemos umas duas ou três? É que faziam imenso jeito para as nossas casas.
- Podem levar tudo o que quiserem- respondi
E levaram. Estiveram a tarde inteira e a manhã do dia seguinte a desmontar cortinas. Partiram com a felicidade estampada no rosto e deixaram-me de bem comigo. 
Resumindo: até para dar é preciso sabermos bater à porta certa.