terça-feira, 12 de abril de 2016

Esperem só mais um bocadinho, s.f.f.


O prometido é devido





Meu caro presidente Obama:
O prometido é devido e aqui estou eu a cumprir a promessa que fiz no post anterior.  Então aqui vai:
Assim que eclodiram os movimentos de contestação, a Europa rapidamente os apoiou e baptizou de Primavera Árabe.
Só que o padre era um pecador incorrigível e não tardou a perceber-se que a Primavera se iria transformar num Inverno sangrento.
 Ben Ali caiu de podre. Mubarak precisou de um empurrãozinho dos americanos. Kadhaffi ripostou e resistiu, porque tinha um trunfo. Se a ONU autorizasse uma operação militar na Líbia, franquearia as portas da Europa aos africanos que pretendessem vir para a Europa. Portas que estavam fechadas- recorde-se!- porque a UE pagava milhões de dólares anuais a Kadhaffi para que exercesse o papel de porteiro.
A UE deve ter pensado que, com a intervenção na Líbia, seria rápida e facilmente encontrado um substituto para Kadhaffi, disposto a exercer as mesmas funções e a receber as mesmas mordomias financeiras compensatórias. Mais uma vez se enganou …
Cinco anos depois, com a pressão  dos refugiados a dividir a Europa e a  tornar-se insustentável, a única coisa que a liderança europeia soube fazer foi mudar a porta de entrada na Europa da Líbia  para a Turquia e contratar um novo porteiro: Erdogan.
Os traficantes de seres humanos não gostaram muito da mudança de porteiro, mas logo arranjaram uma solução: voltaram à rota de Lampedusa.
Palpita-me que os líderes europeus já perceberam que cometeram um grande erro ao despedir Kadhaffi. O problema é que ainda não perceberam o erro de entregar as chaves da porta da Europa a Erdogan.  Quando isso acontecer, talvez seja demasiado tarde e em seu lugar, na Casa Branca, esteja um tipo que incite ainda mais ao ódio aos refugiados.

O erro de Obama



Em entrevista à Fox, durante o fim de semana,Obama admitiu ter cometido um erro na Líbia, por não ter planeado o “day after”.
Sinceramente, as declarações de Obama surpreendem-me. Não ouviu os seus conselheiros, ou foi mal aconselhado?
Agora não adianta chorar sobre o leite derramado mas, para que evite novo erro, aconselho-o a vir ao Rochedo antes de tomar decisões.
Talvez seja oportuno lembrar-lhe que no meio da refrega que culminou na morte de Kadhaffi ao mais belo estilo da barbárie, desapareceram cinco mil mísseis terra-ar e a Líbia é hoje um gigantesco supermercado de venda de armamento, onde terroristas da Al Qaeda do Magrebe Islâmico se abastecem livremente. E isso era tão previsível, que até eu o escrevia aqui em 9 de Maio de 2011
Parece-me também oportuno lembrar-lhe, presidente Obama que
 “Durante muitos anos a Europa não só tolerou as ditaduras de Ben Ali, Mubarak e Kadhaffi ( para não falar de muitas outras…) como as apoiou. E ganhou muito dinheiro com elas. Só em 2010, vendeu aos ditadores africanos quase 400 milhões de euros em armamento! O problema é que Kadhaffi sabia demais e tinha de ser morto".
Quais os principais interessados? Os países europeus, seus aliados, que o convenceram a entrar nessa aventura.
E qual era o interesse deles?
Dou-lhe apenas um exemplo,  senhor presidente:
"Kadhaffi financiou as campanhas eleitorais de alguns líderes da direita europeia que hoje estão no poder. Por isso Sarkozy foi tão entusiasta na defesa da intervenção da NATO na Líbia. Kadhaffi morreu às mãos dos líbios? Mentira! Morreu às ordens de líderes que ele ajudou a chegar ao poder e por isso se sente perpassar um suspiro de alívio no mundo ocidental, por quem tem as mãos manchadas de sangue".
Já agora, lembro-lhe o que escrevi em 7 de Abril do mesmo ano:
“Acreditar que o derrube de um ditador conduz inexoravelmente à democracia, não é apenas optimismo, é desconhecimento da História recente. Não se combate uma ditadura, sem ter a certeza de que está afastada a hipótese de lhe suceder outra ainda mais retrógrada e, quiçá, mais sanguinária. Muito menos se entregam armas a rebeldes que deixaram infiltrar nas suas hostes, elementos da Al-Qaeda”.
Bastava-lhe pensar no exemplo do Afeganistão, para perceber  que acreditar em democracias impostas à força de balas é uma estratégia condenada ao fracasso. E, se fosse um bocadinho mais perspicaz, teria  percebido que  não tinha garantias de que o petróleo existente na Líbia lhe fosse entregue de mão beijada, para repartir com os seus aliados europeus.
Como adivinhar qual  dos 114 grupos que integram os rebeldes líbios , conseguiria  impôr-se aos restantes ficando com o melhor quinhão? Hoje, sabe-se que caiu nas piores mãos, mas não há grande surpresa nisso, pois não, senhor Presidente?
Acredito que depois de ler isto, esteja a precisar de um pouco de conforto. Eu dou-lho. O senhor não é  o único culpado do que aconteceu na Líbia. Os seus aliados europeus também têm culpas no cartório. Passe por aqui lá mais para o final da tarde, que eu conto-lhe.