terça-feira, 5 de abril de 2016

Olá prima! Está tudo bem consigo?



Olá prima, mas que grande surpresa! Entre, sente-se e ponha-se à vontade…
Ai a prima está toda molhada… dê-me a sua gabardina para eu a pôr a secar.
Olhe, prima, hoje de manhã ia ali à mercearia comprar umas coisinhas para ter em casa quando a prima chegasse mas como “chovia que Deus a dava” e eu só contava com a prima amanhã, pensei com os meus botões “vou logo à tarde, pode ser que o tempo amaine”. Vai-me desculpar, mas hoje ao almoço vai ter que contentar-se com umas favitas com entrecosto. Eu sei que não é muito do seu agrado, a prima gosta mais de coisas leves e frescas, umas saladinhas eu sei, mas o tempo está tão invernoso que nem me tem apetecido dessas coisas e não tenho nada em casa para lhe satisfazer a pretensão. Se quiser, posso arranjar uma canjinha mas...
Ó prima, agora reparo, está com uma cor tão esquisita, assim p´ró  cinzentinho, a prima desculpe a pergunta, mas sente-se bem? Tem estado bem de saúde?    Às tantas está cansada. Quer deitar-se e descansar um bocadinho, enquanto eu faço o almoço?
( A prima aceita a sugestão. Estende-se no sofá da sala e adormece de imediato)
Duas horas depois…
Então prima, sente-se melhor? Parece-me que está com melhores cores…
A prima deve estar a estranhar eu não ter flores cá em casa, como é habitual quando cá vem, mas este ano não tenho flores no jardim. Tive em Fevereiro e até em Janeiro, que estavam uns dias de sol que era uma beleza, mas agora só chove, só chove…. A prima deve ter uma explicação, não é verdade?
Vamos ao almocinho?
Diga-me lá  então, prima, está tudo bem consigo? Vem tão agasalhada e em tons tão escuros…não estou habituado a vê-la assim vestida. Mas eu compreendo, prima. Também eu ando ainda tão agasalhado, que às vezes penso que já estamos no Inverno.  O que eu não gosto é dessa tristeza que traz estampada no rosto, prima.
Olhe, se não se importa, faço uma sugestão. Enquanto eu  vou ali à mercearia comprar umas coisinhas para o jantar a prima deita-se a dormir a sesta e quando eu chegar vai estar mais alegre. Isso deve ser cansaço. Muito trabalho não é, prima?
Nem imagina, primo, o trabalho que os homens me dão.  Estou realmente exausta da viagem. Vou dormir um bocadinho. Se ainda estiver a dormir quando o primo voltar, por favor não me acorde. Se não jantar, não faz mal. Tenho de acordar por mim própria, para ficar boa. Promete que se eu adormecer não me acorda?
Claro que prometo, prima.  Se é esse o seu desejo… mas pelo sim pelo não, quando chegar a casa arranjo uma saladinha como a prima gosta e ponho-a no frigorífico. Se durante a noite tiver fome é só ir lá buscar.
Desculpe só mais uma pergunta, prima. Mudou de perfume? É que o seu perfume costuma provocar-me alergias, mas já está aqui desde manhã e ainda não espirrei, os meus olhos ainda não comicham e a minha respiração é normal, sem uma pontinha de asma. Não foi por minha causa que trocou de perfume, pois não? Que pergunta tão disparatada... já nos conhecemos há tantos anos, a prima sabe das minhas alergias desde sempre e nunca mudou de perfume, por que raio haveria de ter mudado este ano? 
Quinze dias depois
Bom dia, prima! Desculpe, mas já não aguento mais. A prima chegou cá a casa há quinze dias e ainda não fez nada a  não ser dormir. Levanta-se de noite, come o que eu lhe deixo no frigorífico, volta para a cama e dorme o dia todo. Que me lembre, só  houve um dia que esteve acordada de manhã à noite. Nesse dia estava com boas cores e até sorriu bastante mas nos outros, levanta-se um bocadinho, sorri um sorriso esforçado e passado um bocado volta para o quarto. Eu bem vejo que vai triste, de lágrimas nos olhos. Meia hora depois de a prima adormecer, começa a chover. Isto não pode continuar assim, prima! Seja franca comigo e diga lá o que se passa. Está com uma depressão, ou é o anticiclone dos Açores que a anda a chatear? Deixe-me ser franco consigo. Se eu a convido todos os anos para vir passar três meses cá a casa, não é para a ver sempre carrancuda. Eu preciso de ser contagiado pela sua alegria, não é pela sua tristeza! Se quer iluminar a minha casa com a alegria das cores que sempre costumava trazer consigo, muito bem. Se é para continuar assim com a telha e a deixar-me inquieto e mal disposto, o melhor é a prima Vera zarpar e deixar vir o Verão.
-Pois do Verão é que o primo gosta, não é? Passear de prancha na mão, praia, férias, boa vida. Já sabe que isso não é do meu agrado. Sou moderada. Venho aqui todos os anos para preparar para essa orgia do Verão e fazer esquecer a amargura do Inverno, não sou para muitas folias. Já sabe que eu sou um bocado neurótica e este ano estou pior.  Os nossos amigos  Humanos nos últimos anos não têm ajudado nada a  minha tarefa. Deram cabo do buraco de ozono, poluem cada vez mais, encheram o litoral de cimento, o mar de lixo e a atmosfera de dióxido de carbono e querem que eu ande por aí bem disposta, é? A paciência tem limites! Diga aos seus amigos Humanos para terem juízo, antes que eu me zangue de vez. E quando isso acontecer, não volto a vir cá anunciar-me. Reformo-me e eles que se aguentem. Ficam só com Verão, Inverno e o primo Outono.
- Olhe, prima, vou ser sincero e dizer-lhe uma coisa. Eu cá também ando farto de aturar estes Humanos. Eu sei que há muitos que até gostam mais de mim do que de si, mas se a prima decidir reformar-se, eu faço o mesmo. Os Humanos que se amanhem…
- … e continuem a dizer que a culpa é das alterações climáticas e do anticiclone dos Açores. Como se eles nada tivessem a ver com  isso e não fossem os causadores desta bagunça climatérica que nos deixa loucos aos dois. Tratam mal o nosso ambiente e depois querem que eu traga flores!
- E eu que faça as vindimas, traga o vinho, as  castanhas,  e cubra as árvores de tons dourados para eles tirarem fotografias...
- Selfies, primo. É como agora chamam. São tão ridículos estes humanos! Como é que posso andar bem disposta e folgazona, com gente que não se enxerga. Qualquer dia ainda me pedem para fazer striptease...
- Esse é mais o meu pelouro, prima. Nem imagina o trabalho que tenho a despir as árvores todas, quando chega a minha vez de entrar em cena...
- E eu depois é que tenho de as vestir, já viu? O  que é que os Humanos querem? Estações sempre bem dispostas para não lhes alterar os planos das férias?
- E que os tipos da meteorologia acertem nas previsões...
Olhe, primo, amanhã vamos falar com eles. Vamos pedir-lhes para convencerem os políticos a tomarem medidas e convencerem os Humanos que têm de aceitar uma mudança nos seus hábitos de vida, se não quiserem acabar mal.
Eles não se importam, prima! O que eles querem é telemóveis, computadores  e carros topo de gama. O resto não lhes importa.