segunda-feira, 4 de abril de 2016

Vender Mossak(a) por lebre



Eu cá não sou de intrigas, mas tenho a sensação de que a notícia que há 24 horas abre os noticiários, inundou as redes sociais e está a motivar debates em todos os canais televisivos é um grande embuste.
Não quero dizer que seja falsa, apenas que nos estão a dar música  para desviar as atenções.
 Dito por outras palavras, estão a vender-nos Mossak(a) por lebre. Ou, se preferirem, a impingir-nos como notícia uma telenovela série B.
Não sei se já repararam que os implicados são quase todos de pequenos países, não há americanos nem europeus envolvidos, mas lá estão Putin, Bashar Al Assad e uns quantos trutas brasileiros.
Confesso que ainda não percebi bem qual é o escândalo numa notícia envolvendo offshores. Então as off shores não foram criadas para proteger os ricos e poderosos, legalizando a lavagem de dinheiro e a fuga aos impostos?
Todos sabemos que as off shores são  um excelente instrumento para aumentar as desigualdades porque são apenas acessíveis aos mais ricos. Os que vivem do seu trabalho pagam impostos e não piam. ( Neste caso o silêncio não é bom conselheiro, mas que se há-de fazer?)
Também não é novidade que as offshores muitas vezes estão associadas ao mundo do crime. Qual é, então, o espanto?  
Ninguém me tira da cabeça que este trabalho de investigação jornalística, traz água no bico.
 A divulgação dos documentos do Panama Leaks , ou Mossak Fonseca, ou seja lá o que for tem o objectivo de "incriminar" alvos criteriosamente escolhidos.  Por outro lado, como não sou ingénuo, não engulo essa história de fuga de informação "acidental".   Cheira-me mais a um ajuste de contas, ou um aviso ao peixe graúdo, de que pode chegar a sua vez... E se a telenovela chegar a esse capítulo, então sim, vou gostar de ver!
A única coisa certa é que durante uns tempos vamos ser intoxicados com notícias sobre esta "investigação jornalística", as pessoas vão andar muito excitadas e escandalizadas, mas no final vão ter mais uma decepção porque, ao contrário do que acontece nas telenovelas, os maus serão premiados e escaparão à justiça. Ao fim e ao cabo, como já sabíamos antes de a telenovela começar,  tudo o que eles fizeram é legal e só moral e eticamente condenável.  Assim sendo, siga a rusga e fiquemos à espera da excitação provocada pelo próximo escândalo. O importante é que haja muitas notícias embrulhadas no rótulo de jornalismo de investigação, que nos desviem a atenção do que é essencial.  E se forem servidas ao público em episódios diários, até que esteja pronta outra telenovela, ainda melhor.

Uma canadiana do Mundo




Em Março de 2011, o CR teve uma rubrica  diária dedicada a mulheres, denominada Mulheres do Mundo.
Hoje, uma delas volta a ser notícia, porque publicou mais um livro onde expressa, sem rodriguinhos, a sua opinião sobre as causas do desastre ambiental para que caminhamos alegremente. Distraídos com a Internet e as novas tecnologias, preferimos ignorar que estamos a condenar os nossos netos a  um futuro catastrófico, mas a escritora e  jornalista faz questão de nos alertar.
Refiro- me a Naomi Klein, a número  6 da minha lista de Mulheres do Mundo que, com o seu mais recente livro "Tudo Pode Mudar" volta a agitar a opinião pública mundial.
Rigorosa na análise, sem recorrer a linguagem panfletária, Naomi Klein coloca no modelo capitalista liberal e na arrogância e irresponsabilidade das empresas o ónus da ameaça ambiental que pode fazer colapsar o planeta.
Vale a pena, a propósito, ler a entrevista que dá esta semana, em exclusivo à Visão, para ficarmos  a perceber a hipocrisia de quem  governa e a sua cumplicidade com os atentados ambientais perpetrados pelas grandes empresas onde, sem surpresa para quem anda neste meio há décadas, se encontra uma das pioneiras dos crimes ambientais, dada a conhecer ao mundo com o acidente do Exxon Valdez. Uma entrevista que vale a pena ler.
Convido também os leitores a lerem o que então escrevi sobre Naomi Klein que conheci em 1997, quando era jornalista do diário canadiano" Globe and Mail" e preparava o seu primeiro livro (No Logo: a Tirania das Marcas) que resumi como " uma azeda crítica à sociedade de consumo e um feroz ataque à globalização".
O que escrevi sobre Naomi Klein, que justificou a minha escolha para uma das Mulheres do Mundo, pode ler aqui