sábado, 12 de março de 2016

As mulheres têm fios desligados


( Ainda no âmbito das comemorações do DIM)

"Há uns tempos a Joana,
 - Pai, acabei um namoro à homem.

Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
 -Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.

O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes.

Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra.

Em segundo lugar são incapazes de
 - Já não gosto de ti
 de
 - Não quero mais

chegam com discursos vagos, circulares
 - Preciso de tempo para pensar
 - Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas

ou declarações do género de
 - Tu mereces melhor do que eu
 - Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
 - Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta

e aos amigos
 - Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
 - Custou-me mas foi
 - Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
 - Chora um dia ou dois e passa-lhe

e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres.

Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça.

Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão.

Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
 (chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)

ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
 pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo?

Lembro-me de um sujeito que explicava
 - O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo

e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las.

O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
 - As mulheres têm fios desligados

e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez.

Meu Deus, que pena me dão as mulheres.

Se informam
 - Já não gosto de ti
 se informam
 -Não quero mais
 aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos.

A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham.

Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
 (para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
 - O problema não está em ti, está em mim
 a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre.

Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns.

Dos meus amigos.
 De Shubert.
 De Ovídio.
 De Horácio, de Virgílio.
 De Velásquez.
 De Rui Costa.
 De Einzenberger.

Razoável, a minha colecção.

Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres.

E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.

Fui
 (espero que não muitas vezes)
 rasca.

Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais.

Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim.

A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros.

O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta.

Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas?

Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
 - Mereces melhor que eu
 levou como resposta
 - Pois mereço. Rua.

Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda.

Nem uma lágrima para amostra. Rua.

A mesma lágrima para amostra. Rua.

A mesma amiga para uma amiga sua
 - O que faço às cartas de amor que me escreveu?
 e a amiga sua
 - Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.

Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome.

Perguntei à minha amiga
 - E depois de ele se ir embora?
 - Depois chorei um bocado e passou-me.

Ontem jantámos juntos.

Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto.

Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me.

Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.
(Crónica de António Lobo Antunes in Visão)