sexta-feira, 4 de março de 2016

Foi bonita a festa, pá!

Depois de um início muito conturbado, a segunda metade da primeira década deste século parecia indiciar uma grande viragem na América do Sul.  De coutada dos norte americanos, passava a um belo jardim onde florescia a esperança.
A eleição de Lula marcou o início da viragem, mas foi a Argentina de Kirchner, renascida após o Corralito que mergulhou o país numa crise sem precedentes, o alento que contagiou todos os países da região. Venezuela, Bolívia, Uruguai e Peru  foram governadas à esquerda e criaram a ideia de que um mundo diferente era possível.
Os leitores que acompanham o CR desde os primeiros tempos, sabem que fui um grande entusiasta da revolução bolivariana e acreditei sempre que ela triunfaria. Nem os sinais que se começaram a adensar-se depois da crise financeira mundial me tiraram a esperança de ver a América do Sul  finalmente libertada das leis do capitalismo selvagem que domina esta aldeia global.
O primeiro abalo na minha crença surgiu com a morte de Hugo Chavez. Apesar de todos os seus defeitos era um líder carismático que contagiava tudo à sua volta e era respeitado por todos os países sul americanos.
Facilmente se percebeu que Maduro não tinha estofo nem perfil para dar seguimento ao projecto de Chavez. Falta-lhe em carisma o que lhe sobra em arrogância, imbecilidade e falta de tacto, que fortaleceu a oposição. Como se tudo isso não bastasse, a queda do preço do petróleo mergulhou a Venezuela numa crise sem precedentes, pondo em causa as políticas sociais que Chavez empreendera  com grande sucesso e haviam merecido grandes elogios  das Nações Unidas e outras instâncias internacionais. A sua queda deverá estar iminente.
Na Argentina, Cristina Kirchner também não conseguiu dar seguimento à política económica do marido. Lentamente foi perdendo força política, deixou-se envolver em suspeitas de corrupção, tomou medidas muito polémicas, como a nacionalização da Repsol e a sua fragilidade  acabou por determinar a vitória  da direita nas legislativas.
No Brasil Dilma ainda conseguiu, no primeiro mandato, manter a esperança que  nascera com Lula, de tornar o país mais igualitário e menos injusto, mas os escândalos de corrupção no PT, uma direita profundamente retrógrada e fascizante, bem como  o desacelerar da economia na sequência da crise financeira global, deixam no ar a possibilidade de a direita regressar ao poder no palácio do Planalto, caso não surja uma personalidade à esquerda capaz de restituir a credibilidade perdida e - é bom não esquecer- muito abalada nas últimas eleições pela postura de Marina Silva.
Na Bolívia Evo Morales não vai poder recandidatar-se em 2018. A sua popularidade continua intacta, mas os bolivianos negaram-lhe, em referendo, a possibilidade de fazer uma reforma constitucional que lhe permitisse continuar no poder. A continuidade dos bolivarianos à frente do poder na Bolívia continuará, porém, a depender da vontade de Morales. Se ele mantiver os elevados níveis de popularidade ( quase 80% no final de 2015) e souber escolher  um sucessor credível, os bolivianos dar-lhe-ão o seu voto.
Finalmente, no Peru, as eleições de Abrilo poderão ditar o regresso ao poder da direita, caso a filha do ditador Fujimori confirme a preferência que lhe tem sido dada nas sondagens.
A confirmarem-se as piores previsões, o fim do sonho sul americano  será uma realidade. Durante uma década, as desigualdades diminuíram fortemente em todos estes países, mas isso parece não ser suficiente para manter a esquerda no poder em  países como o Brasil, Argentina, Venezuela ou Perú.
Conseguirão os resistentes Uruguai e- provavelmente- Bolívia, capaz de fazer ressurgir a esperança em toda a região?