terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Agora, o povo unido...

O dia 23 de Fevereiro de 2016 será uma data histórica para a democracia portuguesa. Pela primeira vez, PCP e BE votaram favoravelmente um OE do PS.
Para além deste facto inédito, os dois dias de debate sobre o OE 2016 não só permitiram concluir que PCP, PEV e BE perceberam o erro de 2011 - e não o querem repetir - como mostrou  uma esquerda unida contra a tralha da direita.
Será fundamental manter essa união, pelo menos até ao OE 2018. Sob pena de a direita voltar ao governo e cumprir a promessa de vingança sobre os trabalhadores. Se  os quatro anos e meio em que a direita esteve no poder foram terríveis, um eventual regresso de PSD e CDS ao poder seria absolutamente catastrófico para quem vive do seu trabalho.
Espero que Jerónimo de Sousa consiga meter na cabeça de uns irredutíveis mamutes militantes, que atacar o PS e pedir a queda do actual governo é, neste momento, uma irresponsabilidade que prejudicará irremediavelmente centenas de milhares de trabalhadores portugueses.

Spotlight: o lado B




Fui ver Spotlight, no dia em que se ficou a saber que o Papa João Paulo II manteve, durante décadas, correspondência  com uma filósofa polaca.
Abstenho-me de comentar alguns títulos que apareceram na comunicação social a propósito dessas cartas, com sobejas referências ao facto de a mulher ser casada. Ao chamar o filme à colação, poderiam os leitores pensar que iria aqui  dissertar sobre os amores do Papa e a hipocrisia da Igreja, quando mantém o celibato e faz tudo para ocultar casos de cariz sexual que se passam no seu seio.
Ou na importância do jornalismo de investigação numa democracia e lamentar a falta de condições que os jornalistas portugueses têm para investigar. Nada disso. São dois temas demasiado gastos, vistos sempre sob a mesma perspectiva, normalmente limitada, de que a culpa é exclusivamente dos agentes.  
Não é!
 Se a pedofilia na Igreja persiste e, aparentemente, até está a aumentar, é porque as vítimas se calam, ou são obrigadas a calar-se pelos seus progenitores. Isso é tão mais claro, quanto mais católico é o palco da actuação dos agentes da Igreja. Não é por acaso que na Europa a Irlanda tem sido o paraíso dos  padres pedófilos, nem foi mera casualidade que, nos EUA, a conservadoríssima  Boston tenha servido de cenário  a um dos maiores escândalos da Igreja.
Por outro lado, é bom não esquecer que o caso Spotlight só foi divulgado em 2002 porque, antes, o mesmo jornal não avançou com a investigação, apesar de estar na posse de todos os elementos. Foi a falta de profissionalismo de um conceituado jornalista, que impediu que a investigação avançasse muitos anos antes. A falta de coragem de um jornalista que silenciou os factos, com medo das consequências, permitiu que muitas crianças fossem molestadas por padres paranóicos. A mesma responsabilidade tiveram agentes da justiça e pais e familiares das crianças abusadas. Em nome da Igreja calaram-se e tornaram-se coniventes de milhares de crimes contra crianças ocorridos durante décadas. Dir-se-á que o poder da Igreja é enorme…mas se não houvesse conivência do poder, da justiça e da comunicação social, ou indiferença e temor reverencial da comunidade em relação à Igreja,  esta não teria sido desmascarada há muito mais tempo?
O caso (verídico) abordado em Spotlight é um libelo acusatório à Igreja Católica mas, em minha opinião, deixa muito maltratado o jornalismo e os cidadãos que se demitem de exercer o seu dever cívico, contribuindo assim para que os crimes fiquem impunes. Mas se Spotlight aborda um crime praticado pela Igreja  escondido por toda a gente com influência em Boston, ele serve também de alerta para o que se passa noutros sectores de actividade. Obviamente, logo me ocorreu o que se passa com o jornalismo económico e político.
Não precisamos de sair de Portugal para percebermos como ambos estão fortemente ligados  Quem não se lembra do inusitado número de jornalistas ( muitos deles do DN) que em 2011 fizeram campanha a  favor de Passos Coelho nos jornais onde trabalhavam e na blogosfera? Menos serão, no entanto, os que seguiram o rasto desses jornalistas depois das eleições.  Foram para gabinetes ministeriais, ou dirigentes de empresas públicas e administração pública. Alguns deles, a única credencial que tinham era mesmo o favorecimento do PSD/CDS, durante a  campanha eleitoral. Em alguns casos, a CRESAP evidenciou essa impreparação, mas o governo fez orelhas moucas e nomeou-os à mesma.
Já, em matéria económica, seria importante divulgar as ligações que alguns jornalistas têm a interesses e grupos económicos, para percebermos a razão de fazerem análises meramente ideológicas e/ou partidárias sobre determinados factos.
Recordo apenas um caso recente:
Quando Mario Draghi prometeu tudo fazer para salvar o €, a maioria dos jornalistas e comentadores da área económica não relacionou as medidas então tomadas pelo BCE com a evolução  do país para uma situação mais desafogada. Preferiu (essa maioria) enaltecer  o trabalho do governo e a coragem em tomar medidas de austeriodade.
Ora, há duas semanas, os juros da dívida pública dispararam, tendo chegado a atingir os 4,5%. A subida das taxas de juro atingiu todos os países periféricos, mas esses mesmos jornalistas apontaram o dedo ao governo, acusando-o de ser o responsável pelo nervosismo dos mercados, por ter feito um OE irrealista.
Esta semana, depois de Mario Draghi ter voltado a manifestar publicamente a intenção de tomar medidas para salvar o €, as taxas de juro começaram a baixar de imediato e esses mesmos jornalistas que acusavam o governo de ter elaborado um OE irresponsável, esqueceram a acusação e apressaram-se a escrever que a baixa das taxas de juro se deve apenas a Mario Draghi.
Eu pergunto-me apenas: estes jornalistas estão a soldo de quem? Há jornalistas que sabem a resposta mas, tal como no caso Spotlight, não a divulgam publicamente com medo de represálias.
Basta, porém, a qualquer cidadão mais atento lembrar-se quais eram os jornalistas que defendiam o BES com unhas e dentes, fazendo alarde da sua solidez e constatar por onde é que eles andam agora, para perceber o que se passa.
Outras ligações, a outros interesses, ainda estão camufladas, mas acredito que é apenas uma questão de tempo até serem desmascarados. É que são estes  jornalistas, ao serviço de partidos políticos e grupos económicos, que estão a matar os jornais, não é a Internet!




Dizer não ao desperdício!

Já muitas vezes me insurgi contra a política de contratações dos clubes portugueses, especialmente do meu FC do Porto cuja realidade melhor conheço.
Nunca concordei que se fossem buscar jogadores pagos a peso de ouro, sem historial no clube e se mandassem embora jogadores de qualidade com a marca FC do Porto inscrita no seu ADN.
Ontem, o excelente e emotivo jogo entre Braga e Guimarães ficou marcado por duas exibições de luxo, consideradas unanimemente, pela crítica, como  as melhores do jogo.
Um jogador de cada equipa destacou-se, contribuindo com a sua exibição para o espectáculo. Embora pertencendo aos dois grandes rivais do Minho, têm uma coisa em comum: ambos são jogadores do FC do Porto.
Josué,  a jogar no Sporting de Braga, andou pela Turquia e está agora nos arsenalistas. Octávio, brasileiro que terá vindo para o FC do Porto  a custo zero, ou a troco de 5 milhões ( ambas as versões correm por aí como verdadeiras) está emprestado aos vimaranenses.
 São apenas dois talentos  do meio campo ( a que poderia juntar nomes como Castro, na Turquia, Machado na Alemanha, ou os dispensados e agora regressados André ou Sérgio Oliveira) que o FC do Porto dispensou recentemente e que poderiam singrar no clube que pagou 20 milhões por  Imbula, um Ferrari que quase não jogou e comprometeu mesmo a continuidade dos azuis e brancos  na Liga dos Campeões.
Faço votos para que na próxima época, com Peseiro ou Vilas Boas, alguns dos talentos portistas que andam a espalhar o perfume do seu futebol pelo estrangeiro, ou em equipas adversárias, regressem a casa e contribuam para o renascimento de uma equipa que perdeu a sua identidade e o seu brio, porque os seus jogadores não sentem o brasão.