sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Tantas vezes vai o cântaro à fonte...

Ao fim de dois dias de negociações, Cameron vem cantar vitória e dizer que conseguiu tudo o que queria, para permanecer na UE.
E Portugal, Grécia, Hungria, Roménia, ou Bulgária  não receberam nada em troca? Hmmm.... então devem ser parvos!
Creio que só depois da reunião que Cameron terá amanhã com o governo britânico saberemos toda a verdade sobre o acordo mas,  se Cameron não estiver a fazer bluff, então é altura de anunciar que a UE acabou, mas os lideres europeus ainda não perceberam.
Bem, na realidade, a UE já acabou muito antes das ameaças de Cameron. Andam é todos a fingir que não sabem. E assim continuarão até à próxima ameaça de crise no seio da União, que vem já ali ao virar da esquina.

O Carnaval é quando um comentador ( ou paineleiro) quiser

Na última revista do "Expresso",que li na sala de espera de um consultório, Clara Ferreira Alves escreve sobre o Carnaval. Globalmente estou de acordo com ela excepto quando se insurge contra a tolerância de ponto, por considerar que isso é um privilégio de países ricos.
Eu encontro facilmente uma mão cheia  de  razões para que a terça feira de Carnaval não seja feriado obrigatório  e concordo que essa exigência do PCP é totalmente descabelada, mas nunca me passaria pela cabeça invocar o argumento de Clara Ferreira Alves.
Eu detesto tanto as manifestações carnavalescas como ela, mas reconheço o direito das pessoas se divertirem e  a importância do entrudo em determinadas regiões do país, pelo impacto que tem nas economias locais.
Interpreto a animosidade de CFA contra o Carnaval por três razões: envelhecimento, modismo e ignorância.
Se a primeira é  subjectiva e dependente da facilidade com que algumas pessoas de esquerda se adaptam às ideologias de direita, a partir de determinada idade em que a pintura do cabelo já não consegue disfarçar as cãs, as outras duas são comuns à classe dos comentadores e paineleiros das nossas rádios, televisões e imprensa.
Se dois ou três comentadores mais considerados pela opinião pública tomam determinada posição relativamente a um assunto, que agrada à direita, a maioria dos comentadores- seguidistas- tem tendência a replicar essa opinião que vira moda.
No entanto, isso não acontece espontaneamente. Os comentadores e paineleiros movimentam-se em círculos, em volta de copos de uísque, ou de chazinhos e torradas, que funcionam como tertúlias onde  discutem " o que está a dar". Acertado o tema, dois ou três encarregam-se de o testar e, se a opinião pública reagir favoravelmente, os restantes seguem a tendência, criando o "modismo". Até pode ser que as coisas não se passem assim mas,  quem conhece o meio, sabe onde e quando muitos deles se reúnem, o que discutem e os objectivos que traçam.
Indiscutível é que a maioria dos comentadores da nossa praça está completamente desfazada da realidade. São pessoas bem instaladas na vida ( ou assim ficaram, depois de se tornarem comentadores)  viajam muito de avião para o estrangeiro ou passam fins de semana em hotéis de luxo, mas  desconhecem o país onde vivem.
A maioria dos comentadores ganha, em 45/50 minutos, o que a maioria dos trabalhadores portugueses não ganha num mês. É por isso fácil para eles falarem do "seu" país, que nada tem a ver com o dos trabalhadores que labutam 8 horas por dia, gastam três horas por dia em transportes e se desunham para arranjar um biscate que lhes componha o salário, muitas vezes inferior ao salário mínimo.
Ao contrário dos comentadores, a maioria dos trabalhadores não consegue fazer ouvir a sua voz, está insatisfeito com o seu trabalho, precisa de escapes para se divertir, porque não tem direito a fins de semana prolongados sempre que lhe apetece.
A maioria dos trabalhadores portugueses, repito, ganha num mês menos do que um comentador encartado ganha em 45 minutos. Ou seja, muitos trabalhadores portugueses  viveriam desafogadamente se uma televisão lhes oferecesse um espaço de comentário semanal. E alguns, podem ter a certeza, diriam coisas mais acertadas do que certos comentadores.
Numa coisa CFA tem razão: mais do que uma diversão, o Carnaval contribui para a melancolia pecuniária de muitas famílias portuguesas.
Só que o raciocínio de CFA sofre de um pecado original insanável. É que, seguindo o mesmo raciocínio, todos os "Dias de..." que apelam ao consumismo deviam ser banidos. Quiçá, Natal incluído. Só que depois a economia ressentia-se e como é que a CFA and Friends resolviam o assunto?
É fácil ser-se contra os feriados quando se trabalha apenas quando nos apetece. Fossem os comentadores e paineleiros da nossa comunicação social obrigados durante um mês a uma jorna igual à da maioria dos trabalhadores, certamente mudariam de opinião.
É que isto de falar de cátedra, é muito fácil. Difícil, mesmo, é viver como a maioria dos trabalhadores portugueses.