domingo, 31 de janeiro de 2016

Bibó Porto (61) : um hotel com garra

Se a Rua de Santa Catarina é um ex-libris da cidade do Porto, ela própria alberga no seu percurso entre as Praças  da Batalha e do Marquês de Pombal, alguns edifícios que são também ex-libris.



Um deles é o Grande Hotel do Porto situado neste belo edifício recentemente remodelado. Construído para ser uma imagem de marca da hotelaria da cidade, abriu as portas ao público em 1880 com apenas 30 quartos, mas muitas mordomias pouco usuais para a época, como ginásio e piscina. Disponibilizava um serviço de transporte privado aos seus clientes e os seus salões de festas tornaram-se famosos  pela qualidade dos eventos  e pelo elevado nível das tertúlias  que aí se realizavam.



 Não é certo que Eduardo VIII, ainda príncipe de Gales, tenha participado nalgumas dessas festas, mas parece não existirem dúvidas que terá sido ele o primeiro a assinar o livro de honra do Grande Hotel do Porto e não o general Carmona, que assume esse protagonismo porque - segundo depoimentos de alguns empregados que ouvi de viva voz  na década de 60- a folha onde o príncipe de Gales fazia o seu elogio terá desaparecido. Algumas más línguas  contrapunham que a folha foi retirada porque, em vez de tecer elogios, fazia críticas ao serviço.


Se atentarmos na lista de hóspedes famosos que pernoitaram ou mesmo se instalaram por períodos mais ou menos longos no Grande Hotel do Porto, constatamos que a má língua não teve efeitos nefastos.
Na verdade, eeste hotel  se hospedavam as vedetas que visitavam o Porto, como o palhaço Popov ou Roberto Carlos, mas também figuras da política portuguesa como Ramalho Eanes, Mário Soares,Maria de Lourdes Pintassilgo ou Freitas do Amaral. Local de encontro de figuras da cultura como Aquilino Ribeiro, Eça de Queiroz, Manoel de Oliveira ou Assis Pacheco, foi também poiso de espiões especialmente durante a guerra
Alguns hóspedes não terão ficado com boas memórias da sua estadia. É o caso de Afonso Costa que lá foi preso por Sidónio Pais, ou do imperador do Brasil Pedro II, que ali ficou viúvo.



Quando comecei a ter idade para frequentar as festas e chás dançantes do Grande Hotel do Porto no final dos anos 60, já estavam em decadência. O mesmo aconteceu ao hotel que, já neste século, conheceu uma profunda remodelação alargando a sua oferta para 100 quartos em detrimento de áreas sociais e do tamanho dos quartos. 

Dizem-me, porém, que apesar de o brunch já não ter os méritos de outros tempos, o hotel continua a merecer uma visita. Seja para  relaxar num dos seus salões, ou tomar uma bebida  no solário, enquanto se deslumbra com a vista. E demore o olhar em alguns edifícios cercanos, pois nas próximas semanas vou continuar por esta conhecida  artéria do Porto que pode recordar aqui