segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A prenda

Cavaco Silva tinha uma prenda guardada para oferecer ao governo antes de se ir embora.

Rescaldo da noite eleitoral (2)

Um a um, eis como analiso os resultados dos candidatos

Marcelo Rebelo de Sousa ( 51,99%)- Era o vencedor anunciado, mesmo antes de apresentar a sua candidatura.  Sem surpresa, os resultados confirmaram-no como futuro inquilino de Belém à primeira volta mas, apesar de ter deixado Sampaio da Nóvoa a larga distância, a sua vitória não foi tão folgada como as sondagens previam. Não tivesse tido a colaboração de S. Pedro que nos presenteou com um belo dia de sol e talvez fosse obrigado a disputar uma segunda volta, onde tudo poderia acontecer. Mas- é de bom tom reconhecê-lo- foi um vencedor justo que ganhou sem batota. Bastou-lhe fazer-se de morto para vencer em todos os distritos e obter mais meio milhão de votos do que PSD e CDS nas legislativas. Quer isso dizer que não só foi buscar votos ao PS, como terá conseguido convencer muitos abstencionistas que não votaram no PaF em Outubro.
É quase certo que irá devolver o prestígio ao cargo de PR, mas é uma incógnita a forma como irá exercer o seu mandato. A sua imprevisibilidade e tentação para a intriga política podem ser nocivas num futuro próximo mas, se mantiver o equilíbrio e conquistar a confiança dos portugueses, poderemos muito bem vir a ver a sua fotografia nos lares dos portugueses, rendidos às suas " Conversas em Família".


António Sampaio da Nóvoa (22,9%)- Em certos momentos, Sampaio da Nóvoa fez-me lembrar Mário Soares em 1986. Partiu como um candidato desconhecido e  derrotado à partida mas, paulatinamente, foi-se impondo, tornando  conhecido e ganhando a admiração de muitos portugueses. Foi traído pela candidatura de Maria de Belém que, literalmente, se lhe atravessou no caminho. Apesar disso, mais uma semana de campanha e talvez hoje estivéssemos a falar da segunda volta. Mostrou ter perfil para estar em Belém e o país teria certamente muito a ganhar com a sua eleição, como ficou bem claro durante a campanha eleitoral e na grandeza do seu discurso de derrota.
Recolheu pouco mais de 1 milhão de votos, menos 700 mil do que o PS nas legislativas. Cerca de 200 mil foram directamente para Maria de Belém enquanto meio milhão se distribuiu por outros candidatos, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa. Foi o preço que teve de pagar por não poder ter o apoio do PS, depois de Maria de Belém se ter lançado na corrida, com o único intuito de atrapalhar.

Marisa Matias (10,13%)- Para muitos, o seu terceiro lugar terá sido uma surpresa, mas os mais atentos estavam à espera de um resultado assim. Poderia até ter obtido uma votação mais expressiva, se não tivesse dado um tiro no pé ao atacar o TC pela decisão de declarar inconstitucionais os cortes das subvenções vitalícias dos deputados.
Ao obter  quase meio milhão de votos, teve um resultado muito similar ao do BE nas legislativas e, se fizermos a ponderação com a abstenção, ultrapassou mesmo a votação do BE.
O seu resultado pode vir a provocar  problemas ao governo, se o BE cair na tentação de extrapolar os resultados para uma interpretação governativa.  

Maria de Belém( 4,24%)- Não chegou a obter 200 mil votos, o que significa que o seu pecúlio foi alcançado entre seguristas ou pessoas que se deixaram iludir pela sua postura de beata ao estilo Madre Teresa.
Maria de Belém teve um resultado vergonhoso, mas merecido. É um resultado à sua medida e à altura da sua campanha vazia, que demonstra à saciedade, que era uma candidata de facção. Prejudicou o país e o PS, ao apresentar a sua candidatura com o objectivo único de dificultar a vida a António Costa. Teve aquilo que mereceu: foi humilhada. Por outro lado, garantiu a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta, o que no fundo não lhe terá desagradado. O seu primeiro objectivo (impedir que o candidato preferido de António Costa e da maioria dos socialistas fosse eleito) foi conseguido, embora esse feito de que quis ser protagonista, tivesse significado o fim dos "seguristas".

Edgar Silva (3,95%)- A CDU obteve quase 450 mil votos nas legislativas de Outubro. Edgar Silva conseguiu apenas 180 mil. A pergunta óbvia é: para onde foram 270 mil votos tradicionalmente pertença do PCP(CDU)?
Edgar Silva foi um erro de casting e o seu resultado pode provocar um terramoto no PCP, confrontado com duas derrotas consecutivas face ao BE. A grande incógnita é saber como irá reagir o Comité Central a estes desastres e que efeitos poderá ter o terramoto eleitoral das presidenciais na sobrevivência de Jerónimo de Sousa e do próprio governo. É verdade que o próprio Jerónimo se apressou a dizer que o pior resultado de sempre de um candidato comunista nas presidenciais em nada alterará a posição do PCP face  ao governo, mas será isso suficiente para tranquilizar os dinossauros que ainda pululam na Soeiro Pereira Gomes?

Vitorino Silva (3,29%)- Tino de Rans foi a grande surpresa da noite. Obteve mais de 150 mil votos, conseguiu bater Edgar Silva e Maria de Belém em vários distritos.  Teve menos 30 mil votos que o candidato do PCP e 40 mil do que a candidata segurista. Como o próprio disse, foi o campeão dos pequeninos e esteve a um pequeno passo de subir à I Liga, intrometendo-se entre os tubarões. Segredo para o sucesso de um candidato sem programa, sem discurso, sem uma definição clara da interpretação que faz da melhor forma de exercer o cargo de PR? É tentador responder com a bacoquice do povo português mas, se analisarem os resultados distrito a distrito e mantiverem a mesma opinião, então é caso para dizer que há sobejas razões para nos preocuparmos em relação ao futuro.

Paulo Morais (2,15%)- Não conseguiu chegar aos cem mil votos, o que demonstra que não chega cavalgar a bandeira da luta contra a corrupção para cativar os votos dos portugueses. Um candidato a PR não pode ser monocórdico e confundir-se com um  realejo.

Henrique Neto (0,84%)- Foi o primeiro candidato a apresentar-se à corrida a Belém. A sua fama de empresário não concatenou com a sua estratégia para ganhar as presidenciais. Um discurso "à Medina Carreira", sem uma linha orientadora capaz de motivar os eleitores, rendeu-lhe apenas 38 mil votos.

Jorge Sequeira (0,3%) e Cândido Ferreira (0,23%)- Não tinham nada  a oferecer, também nada pediram além de algum tempo de antena. Alguns portugueses que propuseram as suas candidaturas lembraram-se de votar neles. Nada acrescentaram nesta campanha, a não ser alguns momentos de humor e de má língua.