quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O champagne ainda está no congelador

Fez ontem 27 anos que caiu o muro de Berlim. Em 2009, quando a blogosfera celebrava entusiasmada os 20 anos desse acontecimento, escrevi dois textos contra a corrente. Este, que hoje aqui reproduzo, escrito num blog colectivo em que então participava, valeu-me severas críticas.
O outro foi escrito aqui no CR e podem também lê-lo se seguirem o link no final deste texto. Se lerem os dois, talvez cheguem à mesma conclusão que eu: a vitória de Trump começou há 27 anos.

  


Não gosto de muros, seja qual for a sua origem ou a justificação esfarrapada para os erguer. Não fiquei por isso, indiferente, quando há 20 anos o muro de Berlim começou a ser derrubado. Mas, como antevi no próprio dia em que o muro de Berlim se começou a desmoronar,  outros se ergueram depois. Com o mesmo ódio e insensibilidade que levou a construir o de Berlim, separando famílias, matando sonhos, privando milhões de cidadãos da liberdade. Ergueram-se perante a indiferença dos que aplaudem a queda do muro de Berlim.
Não encontro, por isso, razões para festejar seja o que for, enquanto houver muros a servir de barreira à liberdade. Fá-lo-ia, se  a queda do muro de Berlim tivesse contribuído para a paz e segurança no mundo. Mas, se isso tivesse acontecido, as Twin Towers ainda estariam de pé, não teria havido a invasão do Iraque, os Balcãs não se teriam tornado num barril de pólvora, não estaríamos a assistir às chacinas diárias no Afeganistão, no Iraque ou no Paquistão. Arrisco mesmo dizer, que as democracias ocidentais talvez estivessem mais solidificadas, a corrupção não teria alastrado como um cancro e teríamos mais paz e estaríamos mais seguros, se o império soviético não se tivesse desmoronado como um baralho de cartas, deixando o ocidente de mãos livres para agir, sem a ameaça do inimigo de Leste.
Dir-me-ão alguns que os cidadãos de Leste vivem agora mais livres e mais felizes. Nos últimos dias, li vários testemunhos de cidadãos dos países de Leste na imprensa portuguesa e estrangeira, que o desmentem. Não se enxerga por lá tanto entusiasmo como no ocidente e entrevê-se, aqui e ali, algum saudosismo do passado. Todos os que foram capazes de olhar para o Muro dos dois lados, compreenderão porquê.. A maioria, porém, ficou do lado ocidental e guardou um bocadinho como “souvenir”. Inebriada com a queda, esqueceu-se que do outro lado também havia vidas. Foi isso que jornais como o “Público” ou o “El País”  quiseram mostrar. Que do lado de lá  nem todos comungam da euforia ocidental. Mesmo sem serem simpatizantes do comunismo, nem terem pertencido à Stasi, não apreciam um modelo social que aprofunda as desigualdades, e se baseia exclusivamente no poder do dinheiro.
Os muros têm sempre duas faces. Estive do "outro lado"antes e depois da queda do muro e do desmembramento  da URSS. A viajar e a trabalhar.
Dois anos depois da queda, os países de Leste eram invadidos por uma parafernália de produtos ocidentais, mas também de contrafacção feita na China, Tailândia ou Taiwan e pagavam custos sociais elevados.Na Polónia, Hungria e Checoslováquia o desemprego crescia assustadoramente ( 2 milhões na Polónia no final de 1991) o poder de compra descia 30 por cento e os mendigos começavam a invadir as ruas de Varsóvia, Budapeste  e de outras cidades do Leste Europeu.
Os preços dos bens essenciais duplicavam em 12 horas, a inflação  era galopante, registava-se  uma queda na produção (por dificuldades em exportar e pela reduzida procura interna) e  a descida vertiginosa do Produto Nacional Bruto, que atingia 28 por cento na Roménia e 30 na Bulgária. 
A queda do muro de Berlim, tão festejada no ocidente, não contribuiu para a queda dos  fundamentalismos, nem para a paz e cooperação entre os povos porque representou, apenas,
a vitória da Internacional Consumista, que edificou outros muros muito mais difíceis de derrubar.

4 comentários:

  1. Não tenho sabedoria suficiente sobre o tema para me bater consigo. Concordo que o consumismo desenfreado a que o ocidente e o mundo dito civilizado se entregou não é feito de ar puro e nos envenena. Mas a queda do muro, para mim e a maioria das pessoas, continua a ser vista como um bem.

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  2. Aqueles que já se consideram os Donos Disto Tudo (DDT's) - a alta finança (capital global) -... estão apostados em dividir/dissolver as Nações... terraplanar as Identidades... para assim melhor estabelecerem a Nova Ordem Mundial: uma nova ordem a seguir ao caos – uma ordem mercenária (um Neofeudalismo).
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    A construção de 'pontes' dos Hilários Clinton: NEGAR O DIREITO DE PROSPERAR AO SEU RITMO!
    Para os Hilários Clinton a sobrevivência de Identidades Autóctones é uma coisa que prejudica os mercados... mais, para os Hilários Clinton, quando um povo nativo economicamente pouco rentável é teimoso (isto é, ambiciona prosperar ao seu ritmo, isto é, ambiciona ter o SEU espaço no planeta)... deve levar com um Holocausto Massivo em cima!
    [nota: existem muitos Hilários Clinton a viver em territórios de povos nativos que foram alvo de um Holocausto Massivo]
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    Todos diferentes, todos iguais... isto é: todas as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta (nota: Inclusive as de pouco rendimento demográfico'... inclusive as economicamente pouco rentáveis).
    Os 'globalization-lovers', UE-lovers e afins... que fiquem na sua... desde que respeitem os Direitos dos outros... e vice-versa.
    Pelo legítimo Direito à Sobrevivência das Identidades Autóctones:
    -» http://separatismo--50--50.blogspot.com/
    {O primeiro passo será/é ir divulgando a ideia de SEPARATISMO-50 nos países aonde a população nativa está sendo submergida pelo crescimento demográfico imparável dos não-nativos naturalizados}


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  3. Não estamos nada de acordo, Carlos.
    Venham abaixo os muros todos.

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