quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Não há estrelas no céu

Aviso prévio:
Anda meio país a festejar a atribuição de não sei quantas estrelas a restaurantes portugueses. Nesta matéria como sabem os leitores do On the rocks, desde 1 de Abril de 2012, sou relapso.
No entanto, como  maioria dos leitores que aportam a este Rochedo não visitam a filial, aqui deixo o texto onde justifico a minha ignorância sobre a nouvelle cuisine. Mais de quatro anos depois, resta-me acrescentar que Rui Veloso estava cheio de razão quando cantava " Não há estrelas no Céu". Pois não, foram todas para os restaurantes...  

Não sou  grande apreciador da nouvelle cuisine. Apesar de cultivar uma alimentação frugal e adequada à idade, sou  mais de sarrabulhos, feijoada à transmontana ou favas com entrecosto, quando amesendo com  amigos em prolongado convívio.
No entanto, como (quase) todos os homens, sou fraco perante os exóticos gostos das mulheres e  por vezes concedo visitar esses altares da gastronomia, cedendo ao apelo de vozes femininas a quem estes locais onde o preço de uma refeição é inversamente proporcional ao da quantidade  de comida que nos colocam no prato, agrada sobremaneira.
Tal como acontece com os títulos nobiliárquicos e a avaliação dos produtos tóxicos pelas agências de rating,  nestes restaurantes onde se fala em surdina e  os empregados nos rodeiam  a mesa como se estivessem a executar um bailado em pontas, enquanto decantam o vinho,  o nome dos pratos também é determinante para a elaboração do preço. Já aprendi, por isso, que quanto mais sofisticado for o título do prato colocado na coluna da esquerda das ementas, mais  desproporcionada será a relação qualidade preço fixada na coluna da direita.
Apesar de ser uma pessoa mais ou menos familiarizada com os segredos da culinária, não foram  raras as vezes em que já me senti tentado a propor a existência de um glossário acompanhado as  ementas, para evitar  o incómodo de perguntar ao empregado:
“ Desculpe, mas o que é isto de línguas de fettucini com repas de suíno em couli de frutos silvestres?
Não é que não me tivesse passado pela cabeça que a tradução correcta fosse “ pasta com presunto,  ensopada num molho agridoce”, mas nestas situações gosto sempre de confirmar, se  um prato daqueles vale mesmo 25€!
Bem, mas neste restaurante a que fui atraído pelos pedidos dengosos de Marlene Vanessa, a tradução até nem era difícil. Havia, por exemplo,  “ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões”*, que a Ana Zannatti me ensinou a confeccionar  nos longínquos anos 80 e que por vezes reproduzo fielmente, para  impressionar alguns convivas que aportam ao meu rochedo.
Também não tive dificuldade em interpretar  o significado de “ Cama de borreguinho  em almofada de cítricos e lençol de frutos do Atlântico”. Não me pareceu nada módico que me cobrassem 20€ por um bocado de borrego  recostado sobre uma rodela de laranja com sumo de limão e coberto por umas rodelas transparentes de ananás dos Açores” mas, à falta de alternativas que me fizessem explodir no palato as excrescências salivares, foi este o prato que escolhi. 
Já a Marlene Vanessa escolheu, sem hesitações,  “Espuma de ruibarbo e rabano com espargos salteados, alcachofra, portobellos e tomate cereja”. Não sei se a escolha teve a intenção de me provar os seus conhecimentos da nouvelle cuisine, ou foi motivada pela sua aposta numa dieta que lhe permita  manter firmes as curvilíneas formas  que, a cada passada,  parecem  indecisas entre saltar da blusa prudentemente desabotoada no topo, ou pela generosa racha da saia que permitia antever o prazer do pecado da carne.
Sei, é que Marlene Vanessa recusou o “amuse bouche”  de anchovas  de escabeche com raspas de tomate, cebola  e coentros, que nos serviram para amenizar  a espera e invocar o néctar de Baco, criteriosamente por mim escolhido. Exibindo os conhecimentos adquiridos na Faculdade de Medicina –  que garante  aplicar nas dietas nutricionais prescritas aos seus pacientes-  Marlene teceu uma longa dissertação sobre os malefícios das anchovas para a pele que  apenas me despertaram o apetite para abocanhar a dose dela. Porém, o recato que um homem deve ter nestes locais inibiu-me de o fazer e, se lamentei não estar a jantar no tasco do senhor Alexandre, para deixar a gula em roda livre, logo me reconfortei ao pensar que outros pitéus me poderiam estar reservados para mais tarde.
O jantar decorreu naquela conversa pisca-pisca  que deixa sempre no homem a dúvida de estar a ser  cana de pesca  ou isco para o anzol.  Quando, no momento de pedir o café, sugeri um digestivo, Marlene Vanessa  colocou o duque de trunfo na mesa, cortando-me a manilha de copas:
“ Já é um bocado tarde e gostava que fosses lá a casa para me dares a tua opinião sobre dois quadros que comprei no fim de semana. Podíamos tomar lá o copo. Que te parece?
Neste momento, se o protagonista masculino fosse Santana Lopes, talvez tivesse pensado que estava a ouvir o tão famoso concerto  para violinos de Chopin , mas como eu sou pessoa buçal e de gostos simples apenas pensei: “Que se lixe! Quero lá saber se sou cana ou isco…o importante é que haja pescaria!”.
E foi assim que, a pretexto de apreciar duas obras de arte, algumas horas mais tarde estava a apreciar pormenorizadamente os relevos de uma outra que não vinha no catálogo, mas tinha a preciosa vantagem de falar e ser sensível ao toque. 
Deitado na cama perfumada  de Marlene Vanessa,  não senti falta dos lençóis de frutos dos Açores, nem da almofada de cítricos. Lembrei-me apenas da Branca de Neve e das vantagens da “nouvelle cuisine”.

*“ O prato que a Branca de Neve serviu aos 7 anões” é um gratinado onde o ingrediente base é o queijo da serra.Ou melhor, a casca...

10 comentários:

  1. Quando o Carlos começou a falar dos gostos das mulheres, deixei de ler o postal. Quase sempre as mulheres foram as sacrificadas por preparar a comida das suas famílias. À maioria das mulheres não interessa ver a comida tratada com pinças. os chefes é que gostam de brincar, não se trata de gosto em cozinhar. Por alguma razão são chefes e são homens. As mulheres, quanto muito podem ser cozinheiras, ou lavadeiras de pratos que eles sujam. Só as coquetes que não têm nada que fazer e que se vendem por estes pratos é que devem gostar. Eu acho que isto é gozar com o parceiro. Houve um filme com o Louis de Funés que se fartou de gozar e nós de rir por causa das estrelas Michelin.

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    1. Como não leu o post até final ( preconceito?) não lhe vou responder. Apenas me permito fazer uma sugestão: veja mais filmes do Louis de Funès,porque rir faz bem à saúde. E, no estado em que o planeta se encontra, se não tivermos capacidade de rir e optarmos por posições rígidas e, quando não, aniquilosadas e preconceituosas, estamos a afundar isto cada vez mais.

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    2. Não sei o que quer dizer aniquilosada. posso afirmar-lhe que não sou mesmo nada pre(conceituosa), apesar de ter convicções firmes. e pode crer que me rio muito e não é sinal de pouco siso. Ainda aqui há tempo chamei a atenção duma pessoa, porque sabendo que tinha ido fazer vários exames e várias outras coisas me respondeu: "Para quê' Estás sempre com boa cara e bem disposta? Como vê quem vê caras não vê corações. E depois disto tudo pode chegar à conclusão que eu devo ser masoquista porque gosto de ser maltratada. mas não imagina o que eu me divirto quando alguém afina com o que eu digo.
      Ah, Esquecia-me! Já li os postal todo, mas não melhorei a opinião sobre o mesmo. Detesto marias que vão com as outras/os e não acredite nessa dos produtos biológicos, sejam eles frutos ou tecidos que servem de cama. Até o cetim hoje já é feito de algodão geneticamente modificado e com determinadas camas ainda pode ficar com uma ataque de urticária.

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    3. ..outras coisa não me perguntou com tinha corrido e me respondeu:...

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  2. Isto das estrelas Michelin é a maior pepineira dos últimos tempos! Somos uma cambada de deslumbrados. Uns provincianos. E estes pratos tipo «estrelas Michelin» são como a farsa do «Rei vai Nu»! ...

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    1. Puro marketing, que umas cabeças tontas pensam ser algo sobrenatural.

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  3. Caro Carlosamigo

    Como diria o Pinheiro de Azevedo Bardamerda para as "estrelas" Michelin à la portugaise....

    A VELHA E O CÃO
    Uma pausa na Saga da Alzira porque acabo de publicar um post diferente – sem ironia, sem galhofa, a atirar para o drama. Por isso, gostaria dos comentários naturalmente também diferentes. Muito obrigado. Como habitualmente a publicação é anunciada blogue a blogue; e o pedido de divulgação, também se agradece.
    Qjs e/ou abçs Henrique, o Leãozão

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  4. Eu até sou adepto de alguma nouvelle cuisine.
    Uma grande parte é somente pura aldrabice.

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  5. Então Michelin não é pneu?
    As estrelas são um negócio em que os chamados chefes se entretêm em exercícios de estética (escultura da batata) para alimentar egos e o tal negócio. Ora bem, o que as pessoas querem é comer, não olhar com cara de parvo para um prato sujo com amostras, pingos e riscos. Isso é Miró, p.ra!
    BFS.

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