quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Era Uma Vez na América

Em 2015 estive na Rússia. Aproveitando uma pausa na visita à Praça Vermelha, conversei um pouco com a guia, para tentar perceber se Putin era popular.
A resposta foi muito pragmática:
"No início dos anos 90, o desmembramento da URSS foi um período dramático para milhões de famílias que, de um dia para o outro, se viram separadas, a viver em países diferentes. Muitos perderam tudo o que tinham, incluindo a sua identidade, sentiram-se apátridas e com o orgulho ferido. Depois desse período os russos precisavam de um presidente que devolvesse à Rússia o seu prestígio e impedisse que o Ocidente a moldasse aos seus interesses. Quando  Putin se candidatou, os russos apenas sabiam 3 coisas sobre ele:
- Tinha sido chefe da KGB
-Não bebia
- Era cinturão negro
Estas três características  criaram nos russos a imagem de uma pessoa com mão forte, capaz de impôr a sua voz  nas instâncias internacionais e fazer com que a Rússia voltasse a ser respeitada no mundo. Por isso o elegeram e continuam a apoiar. A maioria das pessoas que o critica são manipuladas pelo ocidente, através da comunicação social. Putin não é um ídolo, mas as pessoas gostam dele e estão-lhe gratas pelo que fez pela Rússia". 
Lembrei-me desta conversa em Moscovo, logo que  foi confirmada a vitória de Trump e Putin confirmou o seu regozijo pela escolha.
O discurso de campanha de Trump foi dominado, sempre, pela preocupação em ir de encontro ao que os americanos pretendem.  Quem viveu nos Estados Unidos sabe bem que quem falava naqueles discursos era o sentimento e a forma de estar na vida da maioria do povo americano. Por isso, Trump ganhou tão folgadamente.
Com sinceridade vos digo: não acredito que ele cumpra a maioria das baboseiras que anunciou durante a campanha eleitoral. Mas, se por acaso isso acontecer e Trump, num ataque de loucura, carregar no botão, teremos de admitir que foi isso que o povo americano quis e Hillary Clinton não conseguiu contrariar com o seu discurso gasto e cansativo, em torno de temas que já não empolgam ninguém. Pior ainda...em que as pessoas não acreditam, ou nos quais não se revêem. Um exemplo?Os americanos querem comprar armas à vontade. Ah... e são machistas ao ponto de muitos considerarem uma afronta ver uma mulher na Casa Branca.E é bom não esquecer que o racismo não só está entranhado na alma americana, como os sentimentos xenófobos estão a recrudescer.  Finalmente, um discurso virado para dentro, como o de Trump, é o que mais agrada à maioria dos americanos. Para eles, o mundo começa na Costa Leste e acaba na Califórnia. O resto são "peanuts".

Porque conheço razoavelmente bem os EUA e os americanos, devo dizer que mais surpreendente do que a eleição de Trump, é para mim a escolha que os franceses se preparam para fazer em Maio de 2017. Colocar Marine Le Pen no Eliseu era algo que me parecia  do domínio da ficção há duas décadas. A verdade é que isso pode acontecer, por vontade do povo, dentro de seis meses. Porquê? A seu tempo escreverei sobre isso mas, por agora, recomendo-vos que estejam atentos às tendências de voto que vão sendo conhecidas.

3 comentários:

  1. Nunca descartei a hipótese dele vir a ganhar mas também nunca pensei que o fizesse com tão grande margem.
    Olhando para o mapa não me parece nada que a América esteja dividida...
    Agora, perante esta vontade do povo só resta esperar e ver o que vai acontecer.
    O Mundo está a mudar...
    xx

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  2. Ainda estou a recuperar do "nao-querer-acreditar" desta madrugada.

    Fiquei a pensar - e continuo a pensar - se Nassim Nicholas Taleb considera esta monumental vitória de Trum como um “cisne preto”.

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  3. Confesso a minha surpresa.
    Apesar de estarmos a falar de quem elegeu e reelegeu George W. Bush, confesso a minha surpresa.

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