domingo, 16 de outubro de 2016

Ainda o Galeto


Quando vim viver para Lisboa, em Outubro de 1967, o Galeto era um espaço da moda que tinha sido inaugurado no Verão do ano anterior. Caro, pelo menos para os bolsos de um estudante, só lá entrava de quando em vez para comer um combinado a horas tardias. No restaurante, nunca entrei.Gostava das sobremesas e dos gelados, que tinham a particularidade de só serem vendidos em determinados dias da semana, mas o preço correspondia ao de um almoço na cantina da idade universitária.
Mais tarde, já adentrados os anos 70, o domingo era  o dia em que lá me encontrava com o meu irmão, quando coincidia estarmos os dois em Portugal- o que era pouco frequente.
O menú era sempre o mesmo: feijoada à brasileira, prato naquele tempo pouco frequente em Portugal, mas que era um dos que mais saudades nos deixara do tempo em que vivíamos em casa dos meus pais.
Ao longo dos anos a qualidade foi decaindo, o Galeto deixou de ser aquele espaço quase mítico de Lisboa, mas continuámos a marcar ali encontro para esparsos almoços de domingo. Depois da morte do meu irmão estive mais de 10 anos sem lá entrar mas, quando regressei a Portugal, trabalhava nas imediações e uma noite acabei por lá entrar. Tendo apenas por companhia memórias de um dia de trabalho que correra mal, a refeição também não correu nada bem.
Tentei mais duas ou três vezes e desisti. Poucos anos depois, a ASAE encerraria o Galeto por razões de falta de higiene sobejamente noticiadas. 
Este ano fui lá duas vezes. Em noites de domingo. Por coincidência,  nas duas vezes sentei-me ao lado de António Lobo Antunes. ( Na última passou-se uma história engraçada que contarei noutro dia). A comida continua a ser fracota, mas o Galeto continua a abarrotar de gente. A localização e o pedigree ajudam a manter a chama. Talvez por ser domingo, a fauna nocturna pouco recomendável que por lá cirandava, principalmente nas noites de fim de semana, desapareceu.
Resumindo: o "Galeto" já não é um local de eleição, mas continua a ser um espaço único em Lisboa porque, além da  sua história, é o único sobrevivente daquela geração de snack bars que surgiu nos anos 60 e 70. 

13 comentários:

  1. Andava no meu 2º ao da Faculdade, mas não entrava lá. Era caro e «só para alguns»... E eu ainda tímida de mais para o frequentar... Ia muito à pastelaria Colombo ali quase ao lado e gostava bem mais. Tinha uns bolos deliciosos...

    Que belas recordações!

    Beijinhos lisboetas...

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    1. Eu adorava a Colombo, Graça. Um dia, quando vim a Portugal depois de dois anos sem cá pôr os pés fui à Colombo tomar um café mas, quando lá cheguei, encontrei um Mc Donalds. Acredita que até as lágrimas me vieram aos olhos?

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  2. Sabia tão bem ir ver um bom filme por ali perto e depois cear um dos seus bons combinados ou então aquelas taças de gelados que nos deliciavam. Tenho tantas saudades das noites livres e seguras, em Lisboa ou em Cascais. Hoje está tudo deserto a partir de certas horas e os jovens estão a envenenarem-se aos montes em determinados lugares. Na altura muita gente só na grande discoteca 2001, no autódromo, que era lugar obrigatório e com o I can't get no satisfacion, ou então na saudosa Ronda no Monte Estoril, onde nos divertíamos bem. Dancei lá tanto uma noite, porque encontrei uma par à altura e a luz negra fazia reflectir as esboçadas flores do meio airoso vestido que não consegui dormir toda a noite com dores nas pernas fartei-me de as esfregar com álcool...

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    1. Que é isso de luz negra, Anphy?! Endoidou?

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    2. Bea, Não me diga que não sabe o que é? Cá em casa até tenho uma lâmpada tipo fluorescente dessas. Gosto muito de jogos de luzes. Um dia estava em casa a dançar e quis pôr a luz mais suave e o que que apareceu foi uma lenço de chiffon de seda natural de cor verde, que ficou castanho. Uma peça única porque já não há fibras naturais daquelas.

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    3. Juro que não sei, Anphy; suponho que não há e nunca ninguém me falou de tal enormidade. E não desconverse com lenços verdes que mudam de cor por causa das suas maluquices:). Tal não tá a moenga.

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    4. Juro que não sei, Anphy; suponho que não há e nunca ninguém me falou de tal enormidade. E não desconverse com lenços verdes que mudam de cor por causa das suas maluquices:). Tal não tá a moenga.

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  3. Tenho principalmente saudades das noite em que gostava de andar na farra. Eu era masi Stones e Ad Lib em Lisboa, Van Gogo em Cascais. No 2001 só entrei uma vez. Não gostava mesmo. Ao bar que está agora no lugar da Ronda, também vou de vez em quando. É agradável.

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    1. também fui ao Stones, Ad Lib e a outros bares e discotecas bem agradáveis. ao 2001 ia quase todos os sábados porque o grupo em que eu andava, tinham um conjunto, e adoravam ir para lá, depois de estarem a ensaiar. na Whispers do Imaviz, depois de uma noite a dançar perdi as chaves do carro. Foi numa festa de comemoração do aniversário do semanário Jornal, onde até ofereceram uma brochura comemorativa dos Descobrimentos, que ainda guardo. não houve problema porque me deram boleia e o porteiro encontrou as chaves que depois lá fui buscar.

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  4. Bom proveito a quem o frequenta. Para mim é paradeiro desconhecido. Que pelo visto não vou conhecer dado que não serve bem (caro já entendi que é e memórias não tenho nenhumas). Pode-se até sentar lá Deus Nosso Senhor em pessoa.

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  5. Carlos Barbosa de Oliveira

    Sem sombra de dúvida e como disse no outro dia, temos que têr amigos em comum.

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  6. Como não conheço saio de fininho ....
    Aquele abraço, boa semana

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  7. Ainda lá vou de vez em quando, normalmente comer um combinado. Mas só a dois, porque o espaço não é propício a convívios mais alargados... ;)

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