sábado, 6 de agosto de 2016

Those were the days (4)



Lembro-me muito bem de há precisamente 50 anos ter seguido com grande curiosidade a inauguração da ponte Salazar. Em directo, através da RTP.
Contra a vontade do ditador, que considerava  o investimento  numa ponte sobre o Tejo um desperdício, as duas margens do Tejo ficavam finalmente ligadas na zona da capital.
Poucas semanas depois, foi com redobrada curiosidade e muita emoção que atravessei pela primeira vez a ponte Salazar, para ir visitar o primo Augusto, comandante de uma corveta da Marinha, que vivia em Almada.
Enquanto o velho Vauxhall do meu pai abordava a ponte, eu e os meus irmãos acotovelávamo-nos no banco traseiro, em busca da melhor vista.  Chegados à outra margem, desfrutámos  uma última espreitadela a Lisboa, mas à chegada a Almada sentimos a falta da recepção do primo Augusto, aprumado na sua imaculada farda, que acompanhado de mulher e filhas  sempre aguardava a nossa chegada à saída do cacilheiro.
Durante mais de três décadas, a ponte que inicialmente se chamou Salazar e hoje invoca o  25 de Abril, permaneceu como a única ligação entre Lisboa e a outra margem. Sofri muitas vezes nas longas filas  que se formavam para a atravessar, especialmente ao fim de semana e períodos de férias. De tal maneira se tornou insuportável o trânsito naquela ponte, que frequentemente optava por ir a Vila Franca de Xira atravessar o Tejo, quando me dirigia ao Alentejo ou Algarve.
Hoje em dia, raras vezes passo por lá. Moro a maior parte do ano na Alta de Lisboa, por isso opto sempre pela Vasco da Gama quando rumo a sul.
A ponte sobre o Tejo permanece, no entanto, como uma memória doce da minha juventude. Hoje atravessada também por comboios, facilita a vida a milhares de portugueses diariamente. A prova de que, por vezes, o bom senso e a visão política e estratégica, conseguiam contrariar a teimosia e as vistas curtas de Salazar.
Lamento que, 50 anos depois, não tenha havido alguém com visão estratégica e poder de persuasão suficientes para explicar ao limitado Coelho a importância do TGV. Mas isso é outra história…

Hoje, é dia de dar os parabéns à ponte 25 de Abril. Por muito que isso irrite quem teima em chamar-lhe Salazar.

Aviso aos leitores: em virtude das comemorações do cinquentenário da ponte, esta semana a rubrica "Dia do Postal Ilustrado" será excepcionalmente exibida amanhã, domingo.
Aviso desde já que apresenta três postais muito, muito, emblemáticos.

5 comentários:

  1. ~~~
    Dias muito felizes, no Estoril plantado...
    Abraço.
    ~~~~~~

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  2. Ponte 25 de Abril, 50 anos anos a unir as duas margens do Tejo!

    Não terá o romantismo dos antigos cacilheiros, que o actor José Viana tão bem cantou, mas foi uma obra de grande vulto, cuja efeméride merece ser recordada.

    Também me recordo de ter acompanhado a inauguração, através da RTP.

    Bom FDS, Carlos.

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  3. Eu era miudita na altura, mas também me lembro da grande novidade que era a ponte sobre o Tejo - como ainda hoje lhe chamo! :D

    E lembro-me da mulher a dias da minha mãe na época, uma alentejana lingrinhas, ter dito que ela nunca andaria sobre a ponte, que não tinha confiança que ela não caísse. O que nós rimos com aquilo: ela muito magrinha a fazer a ponte cair! :)))

    Beijocas e obrigada por essa memória (quase) coletiva de um Portugal de outros tempos!

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  4. A Ponte Salazar.
    Aponte você que eu sou bêbado mas não sou maluco :)))
    Raul Solnado.
    Lembra-se, Carlos??

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  5. Nunca atravessei a ponte sobre o Tejo, mas gostei de ler esta crónica Carlos, e gostava de saber mais sobre o primo Augusto, aprumado na sua imaculada farda, que acompanhado de mulher e filhas aguardava a vossa chegada à saída do cacilheiro.

    "Enquanto o velho Vauxhall do meu pai abordava a ponte, eu e os meus irmãos acotovelávamo-nos no banco traseiro, em busca da melhor vista." Um excelente começo de um romance.

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